Educar filhos para as incertezas
É preciso ensinar desde pequeno a contar com
o imprevisível
Rosely Sayão
Psicóloga
e consultora em educação
Viver como um equilibrista: talvez seja essa uma boa
lição que podemos
ensinar aos filhos
"Como ensinar aos
filhos que a vida é incerta?". Foi essa a pergunta de uma mãe que se deparou com
uma intensa crise do filho. Ele, tendo planejado prestar vestibular, passar e
cursar neste ano a faculdade que escolhera, ficou doente e não pôde comparecer
ao exame.
Acontece
que o jovem ficou inconformado por ter se dedicado durante o ano todo à sua
meta: saiu pouco, estudou muito e sentia-se preparado para as provas. Por isso,
entrou num desânimo total e está disposto a não fazer a mesma coisa neste ano.
Considerei a questão interessante e por isso vamos conversar a esse respeito.
Se
você pensar bem, caro leitor, vai perceber que temos agido de um modo que parece nos proteger de tudo o que é incerto,
e temos passado isso aos mais novos. Usamos agenda, estabelecemos metas,
planejamos o dia, a semana, o mês e assim por diante.
Em relação aos filhos,
planejamos seu futuro acreditando piamente que o que fazemos hoje funcionará
nas décadas próximas para eles. Achamos importante que tenham rotinas, hábitos, e
que isso os ajudará a viver bem no futuro. É
por isso que cobramos tanto deles que estudem e sejam bons alunos: para
garantir um bom futuro para eles.
Acontece que a vida,
principalmente no século 21, é uma grande aventura, inclusive em relação ao
conhecimento. O que era considerado certo até outro dia, novos estudos mostram
que não é mais. Isso significa que o
conhecimento compreende sempre uma ilusão, mesmo que transitória. E como é
o conhecimento que nos permite ler a realidade que nos circunda, nossa leitura
também corre o risco de estar comprometida.
Viver como um equilibrista:
talvez seja essa uma boa lição que podemos ensinar aos filhos. Para ser equilibrista, é
preciso ter, ao mesmo tempo:
* coragem e
* precaução e, principalmente,
* contar com a imprevisibilidade.
É
preciso também saber previamente que, mesmo tendo treinado muito, dedicado
grande parte de seu tempo em busca do equilíbrio na corda bamba, um vento
inesperado, um passo em falso ou um leve descontrole corporal pode levar à
queda. Para não desistir, o equilibrista
precisa de resiliência e de persistência.
Tudo isso precisamos ensinar
aos filhos desde que eles são pequenos. Fazemos isso, em geral, nos primeiros anos de vida
deles. Quando estão aprendendo a andar, por exemplo, incentivamos que continuem
mesmo quando caem, não é? Estamos lá perto, encorajando, chamando, fazendo de
tudo para que não desistam. Nesse momento, não podemos andar por eles!
Mas, aos poucos, à medida
que crescem, temos a tendência de fazer por eles o que eles podem fazer
sozinhos:
em vez de encorajar e acolher nas frustrações que sofrem, buscamos estratégias
para contorná-las; quando fracassam, mesmo tendo se dedicado, vamos em busca do
bom resultado que deveria vir; quando enfrentam os imprevistos, fazemos de tudo
para que eles não tenham efeitos na vida dos filhos.
Isso
não é bom porque solidifica a ideia, para eles, de que na vida temos o controle
de quase tudo e que não há lugar para os imprevistos, para as incertezas.
Pode
ser uma boa ideia transmitir aos filhos que é possível que o improvável se realize mais do que o provável, e
que precisamos saber esperar o inesperado, como diz Edgar Morin em seu livro "Os
Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro" [Cortez Editora, 2011].
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