ISTO É MUITO GRAVE ! ! !
O Estado contra o cidadão1
João Domingos
A pergunta é: como a sociedade vai reagir frente às
agressões?
Vamos engolir tudo calados, passivos?
![]() |
QUARTEL DA POLÍCIA MILITAR NO RIO DE JANEIRO A inscrição "Servir e Proteger" é irônica diante do que se assistiu e se assiste no estado do Espírito Santo e outros lugares do país |
Que
o Estado brasileiro passa por uma crise muito grande, não há dúvidas. Não se
deve brincar com esse tipo de crise, embora boa parte dos que fazem parte do
sistema esteja brincando. Problemas à
frente por causa da crise do aparelho estatal, do descuido e da má-fé dos que
deveriam por ele zelar já começaram a respingar na sociedade.
O Estado hoje protege o
cidadão? Parece que não.
A
reação ao que acontece hoje certamente terá resposta daqui a dois anos, nas
eleições de 2018.
O
que assusta mais não são apenas os sintomas de um Estado à beira da falência. O que assusta é a constante inversão do
papel do Estado.
Há
casos em que, em vez de proteger o
cidadão, razão de sua existência, o Estado o ameaça.
Exemplos
de ameaça do Estado aos cidadãos brasileiros:
1.
O motim da PM do Espírito Santo é um
exemplo disso. O direito de ir e vir do cidadão foi comprometido por um
movimento que, diferentemente de outros, tem armas na mão. O comércio foi
obrigado a fechar as portas por causa dos saques, as varas da Justiça não
funcionaram, os bancos não abriram as portas. O medo se instalou porque uma das
partes do Estado, justamente seu aparelho armado, voltou-se contra a sociedade
sob a desculpa de que os 10,3 mil policiais do Estado têm o piso salarial mais
baixo do País, cerca de R$ 2,46 mil, quando a média brasileira é de R$ 3,98 mil.
E estão sem reposição das perdas com a inflação há três anos.
Poderiam
ter criado comitês de negociação com o governo. Mas preferiram assustar ainda mais uma população assustada com a falta de
segurança para tentar o aumento salarial na marra. O resultado imediato foi
a ocorrência de uma matança. A
suspeita é de que foi deliberada.
Enquanto a PM se recolhia aos quartéis, esquadrões
da morte eliminavam pessoas que consideravam indesejadas.
2.
O Estado brasileiro se volta contra o cidadão também quando faz dos presídios masmorras medievais.
E permite que essas prisões sejam
dominadas pelo crime organizado, a mais perfeita leitura da omissão do
Estado no setor em que o cidadão – o
preso não deixa de ser cidadão porque está preso – é o mais desprotegido entre
os desprotegidos.
3.
O desrespeito do Estado contra o cidadão que deveria proteger não se resume à
área de segurança. Está presente quando o
sistema governamental, em vez de montar um aparato que evite a sonegação, passa
a oferecer ao agente público gratificação correspondente à quantidade de multas
que ele conseguir aplicar nos que tentam fugir dos impostos. Significa que
esse agente só conseguirá aumentar seu patrimônio se houver alguém praticando
uma atividade criminosa. Para ele, o fim
do crime é o fim de uma boa renda mensal. Não pode ser por aí.
4.
Há ainda afronta ao cidadão quando um
dos braços do Estado, o Senado, elege para presidir a Comissão de Constituição
e Justiça um senador [Edison Lobão – PMDB/MA] que é investigado pela suspeita de malfeitos em Angra 3, Belo Monte e
Petrobrás.
5.
Ou quando um partido como o PMDB
claramente monta um script para tentar evitar que siga avante a apuração feita
pelo Ministério Público e pela Polícia Federal a respeito da participação de
políticos no recebimento de dinheiro de propinas. Sem falar que dez
integrantes da mesma CCJ são investigados pela Justiça.
6.
Também não se pode esquecer que a sociedade se sente acuada pelo Estado, que
deveria estar a serviço dela, quando o
presidente da República dá status de ministro ao amigo e assessor Moreira
Franco, de forma tão rápida, que não fica outra percepção que não a de qual
tal decisão tinha por objetivo protegê-lo da Justiça de primeira instância.
O
presidente Michel Temer pode até dizer que não houve nada disso. Mas será
difícil convencer o cidadão comum, que amarga o desemprego, de que não se
buscou privilegiar ainda mais alguém que, a rigor, já tem muitos privilégios.
Problema de estatura moral2
Editorial
Realmente, o Senado, se capaz for, precisará analisar
com cuidado
o currículo de Alexandre de Moraes
![]() |
ALEXANDRE DE MORAES Este jurista pode ser Ministro do Supremo Tribunal Federal??? |
Nesta
semana se confirmou o que já se sabia: que para
presidir a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado – que, entre
outras atribuições, sabatina os nomes indicados para compor o Supremo Tribunal
Federal (STF) – não é necessário ter notório saber jurídico nem tampouco
reputação ilibada.
Na
quinta-feira passada, foi confirmado no
cargo máximo da mais importante comissão da Casa o senador Edison Lobão
(PMDB-MA), cujo currículo – não é segredo para ninguém – não contempla os
dois atributos mínimos exigidos dos ministros da Suprema Corte.
Como a confirmar que a
ausência da ética é um dos critérios de escolha do presidente da CCJ, o senador
Renan Calheiros (PMDB-AL) pediu um pouco de tolerância àqueles que se sentiram
– com toda a razão – indignados com a nomeação. “Tem de acabar com o preconceito de quem é citado ou investigado não
poder exercer cargo de comando”, pregou Renan, em defesa de Lobão e também
em causa própria. Além de réu em processo criminal no STF, o senador alagoano é investigado em mais de uma dezena de inquéritos.
[O que nós temos, um Senado Federal ou um covil de
ladrões e bandidos?!]
O
pouco apreço pela moralidade pública não ficou restrito, no entanto, à
presidência da CCJ. Entre os senadores
que compõem a mais importante comissão do Senado – são 27 membros titulares e
27 suplentes –, 10 são investigados pela Lava Jato. Pelo visto, a
existência de alguma pendência com a operação representou uma vantagem para a
obtenção de um assento na comissão. Apenas
três senadores investigados pela Lava Jato não conseguiram um lugar na CCJ.
Entre
os membros titulares, que provavelmente terão participação ativa na sabatina do
indicado pelo presidente da República para ministro do STF, estão Jader Barbalho (PMDB-PA), Valdir Raupp (PMDB-RO), Benedito de Lira (PP-AL) e Lindbergh Farias (PT-RJ). A lista dos suplentes envolvidos na Lava Jato não
fica muito atrás, com Fernando Collor
(PTC-AL), Renan Calheiros (PMDB-AL),
Romero Jucá (PMDB-RR), Gleisi Hoffmann (PT-PR) e Humberto Costa (PT-PE). [Irônico: o PT e o PMDB estão sempre juntos, até nos
processos da Lava Jato, na “alegria” e na “tristeza”. Que belo casamento,
hein?!]
São
tempos esquisitos. E a esquisitice não foi apenas dos examinadores do indicado
para compor o STF. Não sem sobressalto, o
País tomou conhecimento da existência de uma acusação de plágio contra Alexandre de Moraes, o indicado pelo
presidente Michel Temer para integrar a Suprema Corte. Se de fato copiou parte de obra publicada sem dar o
crédito respectivo, o sr. Moraes será autor – agora sem qualquer plágio –
de uma inédita façanha. Com um único
ato, o professor de Direito Constitucional comprovará não ter notório saber
jurídico – necessitando recorrer malandramente ao conhecimento de terceiros –
nem reputação ilibada – manchada pela travessura intelectual. [Mas ninguém em sã e honesta consciência tem dúvidas: a
escolha de Alexandre de Moraes para preencher a 11ª vaga do STF foi a pior
possível! Só Michel Temer para fazer isso!]
![]() |
ANTÔNIO ANASTASIA (PSDB-MG) & EDISON LOBÃO (PMDB-MA) Respectivamente: Vice-Presidente e Presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal |
Realmente,
a CCJ do Senado, se capaz for, precisará analisar com cuidado o currículo de
Alexandre de Moraes. Parece faltar-lhe
algo, pois o indicado, ao fazer o seu périplo pelos gabinetes senatoriais –
atividade, por sinal, absolutamente legítima –, tem entregado um currículo com
mais de cem páginas. Ora, é preciso tanto papel para demonstrar a formação e a
experiência do candidato? Ao menos sobre um dos títulos acadêmicos
ostentados no calhamaço curricular recai a suspeita de uma aprovação não tanto
pelos méritos do aluno, mas pela benevolência de um dos avaliadores.
Certamente, o STF não é lugar para
talentos medianos, devendo-se exigir dos escolhidos uma solidez intelectual que
lhes capacite transitar, com destreza e precisão, pelos melindres da lei e da
doutrina jurídica. De outro modo, a Suprema Corte expõe-se ao risco de
perder sua autoridade.
Sábia,
portanto, é a providência constitucional de mandar o Senado sabatinar os
indicados ao Supremo. Oferece-se assim uma excelente oportunidade para o cabal
esclarecimento de todas as dúvidas que possam existir sobre o currículo e o comportamento
do candidato.
Como
se vê, a questão principal da escolha de ministros do Supremo não está na
legislação nem no “sistema”, como às vezes difusamente se critica. O problema é mais básico – está nas pessoas
de baixa estatura moral que os eleitores escolhem e que tanto poder detêm.
Triste País.
Comentários
Postar um comentário