A era dos aproveitadores!
Manual do populismo
Moisés Naím
Escritor
venezuelano e membro do Carnegie Endowment for International Peace*, em Washington
O populismo sempre existiu, mas nos últimos anos
ressurgiu com uma força
potencializada pela internet e pelas frustrações de
sociedades angustiadas
com as mudanças, a precariedade econômica e uma
ameaçadora insegurança
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VLADIMIR PUTIN Presidente da Rússia |
O populismo não é uma
ideologia. É uma estratégia para alcançar e conservar o poder. Ele sempre existiu, mas
nos últimos anos ressurgiu com uma força potencializada pela internet e pelas
frustrações de sociedades angustiadas com as mudanças, a precariedade econômica
e uma ameaçadora insegurança sobre o que o futuro lhes reserva. Uma das
surpresas do populismo é como seus
ingredientes são comuns apesar de os líderes que o praticam e os países onde se
impõem serem muito diferentes. O populismo hoje reina na Rússia de Vladimir Putin e nos Estados Unidos de Donald Trump, na Turquia de Recep
Tayyip Erdogan e na Hungria de Viktor Orban,
entre muitos outros. Em todos, observamos quatro
táticas principais:
1ª. Dividir
para vencer
O
líder e seu governo apresentam-se como os defensores do nobre povo – do populus
– maltratado e abusado pelos que o governaram. Os populistas nutrem-se do “nós contra eles”: o povo contra a casta, a
elite, a oligarquia, o 1% ou, na Europa, contra “Bruxelas” e nos Estados Unidos
contra “Washington”. Os populistas mais bem-sucedidos são virtuosos na arte de exacerbar as divisões e o conflito social:
entre classes, raças, religiões, regiões, nacionalidades e qualquer outra
brecha que possa ser ampliada e convertida em indignação e fúria política. Os populistas não temem brincar com fogo e
atiçar o conflito social; ao contrário, precisam dele.
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DONALD TRUMP Presidente dos Estados Unidos da América |
2ª.
Deslegitimar e criminalizar a oposição
Exagerar
a má situação do país e magnificar os problemas é indispensável. A mensagem central do populista é que tudo
o que os governos anteriores fizeram é ruim, corrupto e inaceitável [Já
vimos isso no Brasil! Lembram-se do Presidente da República que adorava iniciar
seus discursos com a frase: «Nunca antes na história deste país...»]. O país
precisa urvgentemente de mudanças drásticas e o líder populista promete
fazê-las. E os que se opõem a suas mudanças não são tratados como compatriotas
com ideias diferentes, mas como apátridas que é preciso apagar do mapa político
do país. A criminalização dos rivais
políticos é uma tática comum a populistas e autocratas. Um dos slogans mais
populares nos comícios da campanha de Donald Trump foi “prendam-na” referindo-se ao encarceramento de Hillary Clinton. Na
Rússia, na Turquia, no Egito ou na Venezuela essas ameaças contra líderes da
oposição não param nos slogans.
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RECEP TAYYIP ERDOĞAN Presidente da Turquia |
3ª.
Denunciar a conspiração internacional
O populismo requer inimigos
externos.
Este é um velho truque que, infelizmente, costuma render dividendos políticos
no curto prazo, embora depois acabe em tragédia. O inimigo externo pode ser um país – para o presidente Trump é a
China ou o México, por exemplo – ou um
grupo humano. Viktor Orban, o primeiro-ministro húngaro, disse que “os
imigrantes são violadores, ladrões de empregos e um veneno para a nação” e
construiu um muro para mantê-los fora. Para Vladimir Putin, os Estados Unidos
estiveram por trás das “revoluções coloridas” que sacudiram a Europa oriental e
chegaram às ruas de Moscou em 2011. Putin também denuncia regularmente a Otan. Muitas vezes, esses inimigos estrangeiros
são apresentados como aliados da oposição doméstica. Por exemplo, o
presidente da Turquia explicou que o fracassado golpe de Estado contra ele no
ano passado foi uma conspiração orquestrada por Fethullah Gulen, um clérigo
muçulmano radicado nos Estados Unidos que tem uma ampla base de seguidores na
Turquia. De acordo com Erdogan, o golpe também contou com o apoio de militares
americanos.
Quando as coisas em casa
começam a ir mal para os populistas, eles costumam recorrer a – ou provocar –
conflitos internacionais que sirvam de DISTRAÇÃO. Este é o grande perigo da
presença de Trump como chefe supremo das Forças Armadas mais poderosas que a humanidade
conheceu.
4ª.
Desprestigiar jornalistas e especialistas
“Este
país está farto de especialistas!”. Assim reagiu Michael Grove, um dos líderes
do Brexit, ante um relatório de economistas que documentaram os custos que o
Reino Unido teria com a saída da União Europeia.
Para
Trump pouco importa que o aquecimento global tenha sido confirmado por milhares
de cientistas. Ele sustenta que se trata de uma conspiração da China. O
presidente dos EUA também acha que o autismo é causado por vacinas e não lhe importa
que essa teoria seja comprovadamente falsa.
Mas o desdém que os
populistas têm pela ciência, pelos dados e pelos especialistas não é nada se
comparado ao desprezo que sentem pelos jornalistas. Desprezo que, em alguns
países, conduz à prisão, às agressões físicas e, em certos casos, ao
assassinato de jornalistas.
O fato é que tanto os
cientistas quanto os jornalistas produzem dados e documentam situações que
costumam contrariar a narrativa que convém aos populistas. E quando isso ocorre nada melhor do que desqualificar o
mensageiro. [E escolher somente uns poucos órgãos
de imprensa ou blogs da internet como “autênticos” divulgadores da “verdade”.]
Nenhuma dessas táticas é
nova. O
surpreendente é sua popularidade num mundo onde se esperava que democracia,
educação, tecnologia, comunicações e progresso social dificultariam seu êxito.
Traduzido por Celso Paciornik.
* O Carnegie
Endowment for International Peace é um grupo de reflexão [think tank] de política externa com
centros em Washington, D.C.; Moscou; Beirute; Pequim; Bruxelas e Nova Deli. A
organização descreve-se como send dedicada a promover a cooperação entre as
nações e promover o compromisso internacional ativo pelos Estados Unidos.
Fundado em 1910 por Andrew Carnegie, seu trabalho não é formalmente associado a
qualquer partido político.
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