A perigosa febre Bolsonaro
Bolsonaro: de acusado de terrorismo
a fenômeno da internet
Thaís Oyama
Jornalista
O deserto político é tão devastador que até o deputado
Jair Bolsonaro, antes
mero peão da direita baixo clero, é estrela da internet
e saudado como “mito”
“Mito,
mito, mito!”, gritam em coro cerca de 1 000 pessoas assim que o
deputado Jair Bolsonaro desponta no saguão do aeroporto de Campina Grande, na
Paraíba. Ele ergue os braços. As palmas aumentam: “Um, dois, três, quatro,
cinco mil, queremos Bolsonaro presidente do Brasil!”. Abraçado, apalpado,
fotografado, beijado e empurrado, o capitão
da reserva do Exército, já sem conseguir pôr os pés no chão, vai sendo
arrastado pela multidão até o estacionamento do aeroporto. Lá, erguido e
carregado nos ombros, termina em cima de um carro de som, microfone na mão.
Camisetas visíveis na plateia indicam a presença de alguns grupos: Direita
Paraíba, Direita Ceará, Ordem dos Conservadores, Academia de Krav Magá de
Campina Grande. Jovens compõem a maioria
do público. Muitos são estudantes
universitários. Acenam para o visitante e levantam cartazes com os dizeres “Bolsonaro 2018”. Alguns batem
continência para o deputado-capitão. [Que diferença
dos universitários dos anos 1960 e 1970 no Brasil e no mundo!!!]
De
pé no capô do carro, Jair Bolsonaro (PSC-RJ) lança seus gritos de guerra. Abre
com refrãos patrióticos: “Este é um
brasileiro com o coração verde e amarelo. Se estou aqui é porque acredito no
Brasil!”. Ovações. Critica o Estatuto
do Desarmamento: “Nós vamos devolver o fuzil para o produtor rural. Cartão
de visita para o MST é cartucho 762!”. Mais aplausos. A plateia reproduz o
gesto do deputado, que imita um fuzil com as mãos. Bolsonaro prossegue elogiando
os militares: “Acabou o discurso da esquerda querendo extinguir a Polícia
Militar. E é bom irem se acostumando com um capitão no Planalto”. “Presidente!
Presidente!”, responde a multidão. Encerra a fala com seu bordão: “Brasil acima de tudo! Deus acima de todos”.
Palmas, gritos, pedidos de selfie
(ele atende a todos). Enquanto isso, assume o microfone Eduardo Bolsonaro, também deputado pelo PSC e o terceiro dos cinco
filhos de Jair Bolsonaro (motivo pelo qual é chamado pelo pais de “Zero Três”).
Aplausos efusivos para ele também.
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JAIR BOLSONARO Na Paraíba: o deputado imita um fuzil com as mãos, gesto copiado nas ruas e nas redes sociais pelos bolsonaristas Foto: Jonne Roriz/VEJA |
Cenas
como a do aeroporto se repetirão ao longo de todo o dia. Na caminhada que
Bolsonaro faz pelo centro de Campina Grande e na porta das emissoras de rádio e
TV em que dá entrevistas, dezenas de fãs o aguardam, celular em punho, prontos
para as fotos. Numa praça, diante de uma passante que chama o deputado de
fascista, bolsonaristas aglomerados em torno dela gritam: “Maconheira,
maconheira!”. Da mesma forma, o homem que levanta o punho para o grupo dizendo “Não
passarão!” ouve de volta: “Comunista, comunista!”. Assessores tentam controlar
o assédio ao chefe, que chamam “JB”.
A
popularidade de JB é um fenômeno novo até para ele. Em 2010, Jair Messias Bolsonaro era um mero peão do baixo clero na Câmara. O termo
define os parlamentares esnobados pelos colegas mais famosos, esquecidos pela
imprensa, excluídos das comissões mais importantes da Casa e com nenhum ou
quase nenhum projeto aprovado – precisamente o caso de Bolsonaro. Em seu sétimo mandato como deputado
federal, ele pôs sua assinatura em pelo menos 180 projetos, mas apenas três viraram
lei. Recentemente, conseguiu aprovar sua primeira Emenda Constitucional – a
que torna obrigatório o recibo impresso do voto digital (Bolsonaro nunca
confiou em urnas eletrônicas). A única
marca extraordinária que obteve ao longo de seus mandatos foi a de
representações contra ele no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados:
quatro, um recorde no órgão. Bolsonaro, até há pouco tempo, era apenas um tipo
folclórico no Congresso, um excelentíssimo zé-ninguém.
As coisas começaram a mudar
no fim de 2010.
Naquele último ano do governo Lula, o Ministério
da Educação propôs distribuir nas escolas públicas um conjunto de panfletos
e DVDs destinado a combater a homofobia. Críticos apelidaram o material de “kit gay”. Diziam que “estimulava o homossexualismo
e a promiscuidade”. Bolsonaro assumiu a frente do ataque. Com sua fala peculiar
– quanto mais exaltado fica, mais pontua os discursos com impropérios de
arquibancada de futebol –, afirmou no
Congresso que os autores da ideia eram “mil vezes canalhas”, deveriam
deixar as crianças em paz e “queimar
suas rosquinhas onde bem entendessem”.
É o
deputado quem situa o episódio como ponto de virada na sua carreira política. “A
partir daí começou a juntar gente no aeroporto para me ver”. Em poucos anos, ele se tornou um fenômeno na internet. Hoje tem 3,8 milhões de seguidores no
Facebook. É um dos políticos mais populares na rede. No ano passado, um
único post seu, acompanhado de um vídeo em que ataca o PT, teve 8,2 milhões de
acessos e 963.503 comentários e compartilhamentos. A título de comparação, o
vídeo mais visto do ex-presidente Lula teve a metade desses acessos e 124.060
compartilhamentos. Outras dezenas de gravações sobre o deputado, essas postadas
por seus seguidores, trazem títulos como “Bolsonaro
enfrenta sete comunistas e oprime cada um deles”. “Bolsonaro esculacha defensores dos direitos humanos” ou “Os top 10 momentos do Mito” (Bolsonaro
diz que o termo com que apoiadores se referem a ele vem de um apelido seu de
infância – por ser comprido e ter canelas brancas, diz, era chamado de “Palmito”,
ou “parmito”, no sotaque do Vale do Ribeira). Algumas das gravações que
circulam na fede mostram discursos, entrevistas e bate-bocas do deputado com
colegas. De Jean Wyllys (PSOL-RJ), por exemplo, levou uma cusparada durante a
votação do impeachment de Dilma
Rousseff na qual elogiou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do
DOI-Codi na época da ditadura e torturador catalogado. De Maria do Rosário
(PT-RS), tomou um processo no STF pela frase “não te estupro porque você não
merece”. No ano passado, como saldo do
seu rosário de provocações, tornou-se réu no Supremo Tribunal Federal por
injúria e incitação ao crime.
Na
palestra que fez em João Pessoa (Paraíba) no último dia 9, os 900 ingressos
disponíveis esgotaram-se meia hora antes de sua chegada. Como em Campina
Grande, os jovens dominavam a plateia. A eles, Bolsonaro apresentou seu discurso que mistura fantasias
nostálgicas (“no meu tempo, o
professor tinha autoridade, as
pessoas podiam andar na rua sem ser assaltadas e a família era respeitada”) com opiniões
conservadoras banhadas no verniz populista: para toda questão complexa, o deputado tem na ponta da língua uma
solução simplista:
* Situação carcerária? Ele resolve o problema com uma cacetada só: “A
cadeia está cheia, mas pior que quem está lá dentro é quem está debaixo da
terra. Direito do preso é não ter
direito”.
* Crise econômica? Fácil. “O Brasil é cheio de riquezas naturais! Basta
explorá-las direito”. As reservas de nióbio e o suposto olho grande dos
chineses em cima delas é, ultimamente, um dos temas preferidos do deputado.
* Outro, perene, é a defesa da ditadura militar. “Não teve
ditadura no regime militar. Ditadura teve só para quem era criminoso,
sequestrador, assaltante de banco e terrorista”. Exclui, convenientemente, quem
apenas cometeu o crime de pensar diferente. [Não é o
primeiro fascista que surge negando aquilo que se passou na história! Há muitos
que negam ter havido, por exemplo, o Holocausto, o assassinato em massa de
judeus por parte de Hitler!]
Ironicamente, foi uma
acusação de terrorismo, em 1987, que catapultou à política o então jovem e
desconhecido capitão do Exército Jair Bolsonaro. Em outubro daquele ano, a
revista VEJA publicou um relato feito por ele em que confirmava a preparação de
um plano batizado de “Beco sem saída”,
cujo objetivo era protestar contra os baixos soldos militares por meio da
explosão de bombas de baixa potência em banheiros de quartéis. Depois da
divulgação da reportagem, Bolsonaro negou a existência do plano, mas um croqui
com o planejamento de um dos atentados, feito de próprio punho por ele foi
periciado e comprovou sua autoria. O caso foi entregue ao Superior Tribunal
Militar, que, contra todas as provas, considerou os testes grafotécnicos
inconclusivos e o absolveu. No ano
seguinte, Bolsonaro se elegeu vereador pelo Rio. Dois anos depois,
tornou-se deputado federal pela primeira vez.
Ao
longo de seus 26 anos na Câmara,
relatou basicamente matérias sobre porte
de arma e direitos de militares. Passou esse período almoçando em
restaurantes por quilo, faltando pouco ao trabalho – compareceu a 89 das 94
sessões em plenário em 2016, com duas ausências justificadas – e guardando
distância dos colegas de partido. Um vídeo em que o ex-ministro do STF Joaquim
Barbosa, relator do mensalão, menciona seu nome como o único deputado do PP a
não votar com o governo num projeto que sabidamente envolveu compra de votos é
brandido por bolsonaristas como “atestado de idoneidade” de seu líder. O
parlamentar saiu do PP em 2015.
Jair
Bolsonaro cresceu no vácuo deixado por políticos tradicionais tragados pela
Lava-Jato ou simplesmente vitimados pela desmoralização crescente e
aparentemente sem fim da categoria. É
nesse deserto político que até um aventureiro como ele consegue se destacar.
Na semana passada, seu nome apareceu em uma pesquisa de intenção de voto para
presidente da República à frente do senador tucano Aécio Neves. Curiosamente,
Bolsonaro nunca saiu do lugar onde sempre esteve e segue dizendo as mesmíssimas
coisas que dizia quando quase ninguém prestava atenção nele. Não mudou,
portanto. Mudaram os brasileiros? Diz ele: “Sinto
que as pessoas estão precisando acreditar em alguém”. Sua ascensão mostra como as opções estão ficando precárias. [A descrença e decepção com a classe política favorece
políticos do tipo Bolsonaro! É preciso a sociedade reagir e aparecer candidatos
mais aceitáveis ao povo!]
OS ABSURDOS DITOS POR JAIR BOLSONARO
(Bolsonaro comenta cinco afirmações
atribuídas a ele)
“A
PM DEVERIA TER MATADO 1000, E NÃO 111 PRESOS” – sobre o
massacre de 1992 no presídio do Carandiru,
em outubro de 1997.
“Primeiro,
não considero aquilo um massacre, para mim foi legítima defesa. No meu
entender, preso só tem um direito, o de não ter direito. Proferi isso, sim, da
tribuna da Câmara. Não tenho nenhuma piedade de quem está encarcerado e cometeu
todo tipo de abuso e atrocidade contra um cidadão de bem. Não desejo que eles
morram. Mas, se morreram 111 ou se viessem a morrer 1000, para mim é a mesma
coisa.”
“DEVERIAM
SER FUZILADOS UNS 30.000 CORRUPTOS, A COMEÇAR PELO PRESIDENTE FERNANDO HENRIQUE
CARDOSO” – dito na TV Bandeirantes, em maio de
1999.
“Foi
num momento em que ele – não ‘privatizou’, porque eu sou favorável à privatização
– entregou a Vale do Rio Doce. Falei que isso foi um crime de lesa-pátria.
Falei isso, sim. Mas quantas vezes até uma mãe fala pro filho: ‘Eu vou te matar’.
Força de expressão.”
“NÃO
VOU COMBATER NEM DISCRIMINAR, MAS, SE EU VIR DOIS HOMENS SE BEIJANDO NA RUA,
VOU BATER” – comentando a aprovação da união civil
entre pessoas do mesmo sexo, em maio de 2002.
“Isso
não existe. Logicamente, há um constrangimento se você vai a um restaurante e
acontece um fato semelhante a esse. É inadmissível num restaurante que um casal
de namorados, mesmo heterossexual, pratique certo tipo de intimidade. Agora,
falar que eu vou dar pancada, vou dar porrada, eu duvido que alguém apresente
um áudio meu falando isso.”
“NÃO
TE ESTUPRO PORQUE VOCÊ NÃO MERECE” – para a
deputada Maria do Rosário, do PT, em novembro de 2003.
“Estava
debatendo o caso Champinha. Eu defendia a redução da maioridade penal e a Maria
do Rosário defendia o contrário. Ela não aguentou os meus argumentos, me
interrompeu e no fragor do debate falou que eu era estuprador. Daí, virei para
ela e proferi essa frase, sim. Eu estava defendendo as mulheres do estupro.
Ela, o contrário. Ela defende a ideia de que um estuprador seja punido à luz do
ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), que a gente sabe que não é punição.”
“MULHER
DEVE GANHAR SALÁRIO MENOR PORQUE ENGRAVIDA” – em entrevista
ao jornal Zero Hora (Porto Alegre),
em dezembro de 2014.
“Dei
uma entrevista ao Zero Hora, que me
pediu para falar por que a mulher ganhava menos que o homem. Pesquisei e a
conclusão foi a seguinte: a mulher ganha menos do que o homem tendo em vista um
direito trabalhista que ela tem a mais – no caso, a licença-gestante. Então,
prefere-se empregar mais o homem ou pagar menos à mulher. Essa não é a minha
opinião. É o que dizem as pesquisas e a classe dos empresários. Mas o jornal
resolveu pôr isso na minha conta.”
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