Governo quer convencer o povo que é bom perder direitos!
Enrolando o povo para que ele tome o veneno
Eduardo
Maretti
Ao dizer que a recessão terminou, ministro da Fazenda
usa estratégia
midiática, em momento de fragilidade das pessoas.
“Com argumento calculado e repetição, você convence
pessoas
que tomar veneno é bom”
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GUILHERME MELLO Economista - Unicamp |
A
fala do ministro da Fazenda, Henrique
Meirelles, ontem (21 de fevereiro), segundo a qual a recessão brasileira
acabou, “é o tipo de declaração para
vender otimismo e um resultado que ainda não veio”. Mais do que isso, para
o economista Guilherme Mello, professor do
Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a declaração de Meirelles faz parte de uma
estratégia midiática que envolve milhões de pessoas, muitas das quais acabam
sendo convencidas de que o país e a economia vão bem e que reformas contra seus
próprios direitos são positivas para elas e para a nação.
“Você
consegue, com a:
* propaganda certa,
* o argumento calculado e
* a repetição, convencer pessoas que tomar veneno é bom.
Por mais que a realidade
diga que a coisa vai muito mal, exatamente por isso as pessoas querem e
precisam acreditar que vai melhorar. Então, se usa esse momento de fragilidade das
pessoas para bombardear uma mensagem de otimismo através da imprensa,
repetidamente, para ver se a coisa cola”, diz Guilherme.
Com
base nessa estratégia, o economista prevê que, para emplacar a reforma da Previdência, os atuais governantes vão
tentar convencer as pessoas de que elas ganharão com as mudanças, que, na
verdade, significarão a retirada de grande parte da chamada rede de proteção
social que o povo brasileiro ainda tem. [Na prática, se a reforma da Previdência
for realizada como quer o governo de Michel Temer, quase ninguém conseguirá
mais se aposentar no Brasil com dignidade e um estipêndio suficiente para manter uma pessoa na velhice! Exceto aqueles que conseguirem pagar uma previdência privada!]
“Explora-se o medo, as necessidades e os desejos das
pessoas para convencê-las de que coisas que as prejudicam, na verdade, são para
o bem delas, que é muito bom para elas perderem o direito de se aposentar, e
parte das pessoas vai acreditar. Isso é grave.”
“O Brasil hoje já está crescendo e essa
recessão já terminou. É uma recuperação sólida, impulsionada por medidas
fundamentais. A PEC do Teto foi impulsionadora desse crescimento, e a (reforma)
da Previdência, além de ser fundamental, está no centro desse processo”,
disse Meirelles, na companhia do presidente Michel Temer, em reunião da
comissão especial da reforma da Previdência, no Palácio do Planalto. “A
mensagem é de que é mais importante ter a segurança de que vão receber a
aposentadoria do que a expectativa de que vão se aposentar um pouquinho mais
cedo ou tarde, gerando insegurança no futuro”, acrescentou.
SINAIS
Segundo
Meirelles, “sinais sólidos de recuperação” da economia são a valorização da
Bolsa de Valores, ganhos de valores relacionados ao Banco do Brasil, à
Petrobras e à Vale, além da queda do risco Brasil e do dólar.
Porém,
para “decretar” o fim da recessão, seria preciso de pelo menos um trimestre de
crescimento positivo. Segundo Mello, os
dados em que alguns analistas se baseiam para dizer que a economia está se
recuperando “são muito questionáveis quanto à amplitude”. Por exemplo, a
informação de que a indústria paulista voltou a contratar. Segundo o
Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da Fiesp/Ciesp, a indústria
paulista teve saldo positivo de 6,5 mil vagas em janeiro. Mas, na comparação
com janeiro de 2016, o saldo é negativo em 5,73%.
O número de desempregados é
de cerca de 12 milhões de pessoas. Segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra
de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE, a taxa média de desemprego em 2016
chegou a 11,5%. As projeções do mercado para o crescimento do Produto Interno
Bruto (PIB) para 2017 são de 0,5%.
“Se o país crescer 0,5% este
ano, o desemprego aumenta. Precisa crescer 2%, 3% para ter uma queda de
desemprego razoável”, disse a economista Esther Dweck à RBA na semana passada. [Em outras palavras: o desemprego não só não cairá em 2017
como, certamente, aumentará!]
Divulgados
na semana passada, dados relativos ao
comércio varejista indicam que, em 2016, foram fechadas 108 mil lojas em todo o
país, pior resultado da série histórica desde 2005.
Todos
esses dados, em conjunto, mostram uma situação que não se supera por decreto ou
pela vontade de um ministro. “Quando
Meirelles fala que a recessão acabou, está olhando para onde sempre olhou, para
os que ele sempre representou, os investidores financeiros. Mas existe um
descompasso entre o Brasil dos rentistas, que teve ganhos patrimoniais, porque
a Bolsa subiu, e o Brasil verdadeiro,
dos 99% dos brasileiros, que continua em uma situação de crise profunda”,
diz Guilherme Mello.
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