LINCHADORES ON-LINE
Jennifer Ann
Thomas
Os haters [odiadores],
como são chamados em inglês os
promotores da intolerância virtual, ameaçam tragar a
internet. A saída:
vigiá-los, puni-los e, por meio de processos na
Justiça, tirá-los de circulação
O
psicólogo Diego Novak e o chef de
cozinha João Paulo Gonçalves
atravessaram uma temporada de recuperação numa clínica de tratamento para
dependentes químicos no interior de São Paulo. No caso de ambos, a dependência
era da internet, tratada como vício. Pior do que isso: Novak e Gonçalves se
acostumaram a tirar prazer da prática de desferir comentários agressivos e
provocações a partir de perfis on-line, como o próprio nome ou apelido. Nas
redes sociais, viraram sinônimo de bestialidade. Na expressão em inglês,
adotada universalmente, eles são definidos como haters. Em português, os que odeiam – tudo e todos.
Denunciados por uns, aconselhados por outros, tiveram a inteligência de pedir
ajuda de psicólogos para escapar da condição estúpida na qual viviam,
debruçados em computadores e smartphones, com dedos nervosos e a esgrimir
bobagens raivosas. [...]
Há
tanta raiva on-line que não seria
exagerado dizer que esse comportamento
brutal ameaça sufocar a ágora (praça pública como era chamada na Grécia
Antiga) democrática que foi erguida com a web e a popularização dos
navegadores, nos anos 1990. Soa preciso o que disse Umberto Eco (semiólogo, filósofo e escritor italiano: 1932-2016),
para quem as redes sociais hoje dão direito de palavra a uma “legião de
imbecis” que antes falavam apenas “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem
prejudicar a coletividade”. Não faltam indicações de que o ódio está
disseminado no ambiente digital – qualquer um que tenha perfil no Facebook (no
mundo já são mais de 1,8 bilhão) já notou isso. Nos Estados Unidos, revela um
recente levantamento, sete em cada dez adultos relataram ter testemunhado
agressões virtuais. Entre adolescentes
americanos:
* nove
em dez declararam ter experimentado cyberbullying;
* 34% deles diziam ter sido
vítimas diretas do ódio, enquanto
* 15% (um índice
possivelmente subestimado) admitiram ter agido como haters em algum momento.
No
Brasil, uma pesquisa promovida pela agência de publicidade nova/sb, o dossiê “Intolerâncias visíveis e invisíveis no mundo
digital”, analisou entre abril e junho de 2016 quase 400.000 menções
relacionadas a algum tipo de preconceito no Facebook, Twitter e Instagram. No ranking da intolerância, a liderança
ficou com:
* o racismo (97,6% das citações eram negativas); em seguida, muito de
perto,
* a ideologia política (97,4%). Na sequência,
* classe social (94,8%),
* aparência física (94,2%) e
* homofobia (93,9%).
Os
brasileiros acompanham os movimentos globais. Entre 2006 e 2015, a SaferNet, uma ONG dedicada à defesa dos
direitos humanos na internet, recebeu
quase 4 milhões de denúncias anônimas envolvendo mais de 600.000 páginas
eletrônicas, de 97 países – desse total, pouco mais de 200.000 foram
excluídas.
Se
o ódio faz parte do cardápio de sentimentos humanos, o que há de novo, agora, na
caixa de ressonância que é a internet? É errado dizer que há mais ódio do que
nunca, mesmo porque seria impossível medi-lo. Uma hipótese é que a humanidade atingiu um ponto da
civilização que permite – aí, sim, de modo inédito – a livre expressão do ódio.
Nunca nos comunicamos com tanta facilidade e, no entanto, parece nunca ter
havido tanto sofrimento nessa comunicação. “Pessoas mal-intencionadas sempre
existiram, a diferença com a internet é que a maldade é amplificada pela
abrangência da rede e pelo escudo do anonimato”, disse à nossa revista a
advogada americana Andrea Weckerle,
fundadora da organização Civilination,
dedicada a combater as agressões on-line. “Há os haters que usam nomes reais, e provavelmente são odiosos no
cotidiano, mas a possibilidade de ter um perfil falso encoraja quem não diria
absurdos a fazê-lo. E cria-se o efeito manada.” Anonimato é um golpe baixo. De
acordo com um estudo da consultoria inglesa YouGov, 77% dos usuários de redes sociais acreditam que o anonimato
instiga a agressividade on-line.
As
empresas donas das redes sociais, a exemplo do Facebook, do Twitter e
do Google (proprietário do YouTube), adotaram medidas contra a
prática. Passaram a banir usuários e refinar algoritmos com o objetivo de
detectar comportamentos hostis e exigir (mesmo que com pouca eficácia) o
compartilhamento de dados reais dos usuários. Até agora, tem sido uma luta
inglória. O psicólogo americano John
Suler, da Universidade Rider, nos Estados Unidos, cunhou o termo “desinibição on-line”. Para ele, a invisibilidade atrás de uma tela
tem a força de mudar posturas – para o bem, sim, multiplicando generosidade e
benemerência, mas, sobretudo, para o mal. Na
cacofonia da internet, em que todo mundo fala ao mesmo tempo, faz-se ouvir quem
grita mais alto – nesse caso, protegidos pelo anonimato, os “odiadores”
fazem a festa.
Felizmente,
aos poucos a vida dos valentões do computador tende a ficar complicada. O
contra-ataque é complexo e depende de uma infinidade de variáveis. Mas a
Justiça começa a falar alto também – embora engatinhe, dada a novidade de um
tema recentíssimo, que ainda pede jurisprudência. Uma lei de 2012, apelidada de Carolina
Dieckmann, pune quem invade computadores e smartphones atrás de nus
alheios. Ela leva o nome da atriz, que, naquele ano, teve 36 fotos íntimas
espalhadas pela rede. Na esteira da lei Carolina, com o Marco Civil de 2014, foi possível tipificar outros crimes
cibernéticos relacionados ao comportamento dos haters. Agora, as pessoas que se sentirem ofendidas por um deles
pode registrar queixa (em, no máximo, cinco meses depois da agressão) e ter
direito a indenizações que, nos casos de injúria e difamação, variam de 5000
reais a 200.000 reais. “Quando a internet surgiu, as pessoas ainda receavam ser
agressivas em público”, diz o advogado e professor de direito digital do Insper, de São Paulo, Renato Opice Blum. “Atualmente, as decisões judiciais já levam em conta não só o autor de
um crime como também quem o compartilhou”.
O
combate é árduo. Embora seja razoavelmente fácil tirar do ar imagens de nudez,
por meio de notificação extrajudicial, ataques como os de racismo e homofobia
pressupõem um processo devidamente instaurado no Poder Judiciário. O problema: os estragos são muito mais velozes do que a
tramitação de processos. “Temos aí um retrocesso”, diz o advogado Anderson Schreiber. “As notificações
são sempre mais ágeis, e as empresas gestoras das redes teriam de se mexer, tirando
os impropérios do ar com celeridade. Hoje, elas se escondem numa suposta defesa
da liberdade de expressão dos usuários.” Não há notícia de um cidadão preso por
disseminar o ódio na internet. [...]
As
novíssimas gerações nasceram nesse ambiente e nunca conheceram outro modo de
viver. Há pouco mais de dois anos, quando
tinha 15 anos, a estudante L.P.
protagonizou um caso delicado. Ela foi
mentora de um grupo de cinco meninas que, intencionalmente, cometeu cyberbullying contra uma colega de
turma, no Colégio Objetivo de São Bernardo do Campo, em São Paulo. As
agressões criticavam o cabelo, a roupa e mesmo o caderno escolhido pela vítima,
tudo com o objetivo de humilhá-la. “Os posts mais pesados com esse teor
repercutiram no Facebook, no perfil de outros alunos. Fazíamos o que fazíamos
só para chamar atenção”, disse à nossa revista. A história repercutiu junto a
professores e pais de alunos e L.P. recorreu a uma psicóloga. Depois do
acompanhamento clínico, percebeu o erro e se constrangeu – a ponto de mudar de
colégio para dar fim ao problema. “De início, ela enxergava a situação como
normal, apenas uma provocação inocente”, diz a terapeuta Rachel Fischetti, que atende L.P. [...]
Relatos
como esse começaram a despertar a sociedade para o problema. Em 2010, o
universitário americano Tyler Clementi,
de 18 anos, cometeu suicídio após descobrir que seu colega de quarto na
faculdade havia transmitido, ao vivo, um encontro sexual que ele teve com outro
garoto. A onda de reações homofóbicas no Twitter levou Clementi à depressão e,
em seguida, à morte. Em resposta ao ocorrido, criaram-se leis federais nos
Estados Unidos para tornar obrigatórias aulas
contra o cyberbullying nas escolas. [...]
![]() |
TYLER CLEMENTI Suicídio após cyberbullying |
Segundo
um estudo publicado em 2014 por pesquisadores de três universidades canadenses,
os haters agem como agem por
apresentar sinais (mesmo sutis) de psicopatia, maquiavelismo e sadismo. De
acordo com a pesquisa, 5,6% de todos os
usuários da internet se encaixam entre os odiadores. Parece pouco? Na rede,
isso representa um exército de quase 200 milhões de pessoas. A consultoria
inglesa YouGov aposta que a situação
pode ser ainda mais grave. Se forem
considerados os haters menos
violentos – aqueles que espalham fofocas, xingam opositores políticos, mas
não chegam ao extremo de clamar pela morte de alguém –, a porcentagem poderia chegar a 28% de todos os conectados. [...]
O que motiva os praticantes
do ódio é justamente o prazer de observar a repercussão de seus comentários e a
sensação de que, por meio deles, formam opinião – seja num círculo restrito
de amigos, seja numa rede social como o Facebook.
A
respeito dos haters convém sugerir o
que recomendam os zoológicos em relação aos animais: não os alimente. Desprezá-los é muitas vezes o melhor
caminho, embora seja conveniente revelar as histórias de agressões, à guisa de
denúncia, como fazem as pessoas ouvidas ao longo desta reportagem. [...]
A mentira... é a antessala
do ódio – uma não vive sem o outro, embora seja
bom perceber as diferenças. É possível
apenas mentir sem exalar raiva (alô, pós-verdade!), e, no entanto, a lorota tem
poder destrutivo de potência semelhante. Uma pesquisa de 2016 da Universidade de Warwick, na Inglaterra,
estudou como 330 rumores tomaram corpo no Twitter. Entre os resultados, o
levantamento mostrou que somente depois de catorze horas as notícias falsas
começaram a ser desmentidas, embora nenhum desmentido tenha o alcance das
certezas absolutas iniciais. Além disso, 82%
dos adolescentes não sabem distinguir uma notícia falsa de uma real, de
acordo com um estudo da Universidade Stanford. [...]
Nas
palavras do filósofo de origem polonesa Zygmunt
Bauman, morto há um mês, as redes
sociais permitem às pessoas se fecharem em “zonas de conforto, onde o único som
que escutam é o eco da própria voz, onde a única coisa que veem é o reflexo da
própria cara”. Bauman lembra ainda que a internet oferece serviços “muito
prazerosos, mas que são uma armadilha”. A principal delas: o ódio. Encurralá-lo será a saída para tornar mais respirável o ar
nas redes.
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