Muros não servem pra nada!
Muros e bárbaros
Leandro Karnal
Historiador
e Professor da Universidade Estadual de Campinas (SP)
Há muitos divisores físicos na História.
Todos são de memória infeliz e inúteis
Troia [cidade lendária na Ásia
Menor] era muito próspera. Para preservar sua riqueza, ergueu muros altos. A
obra teve divinos feitores: Apolo e Posídon [ou Poseidon]. Divergências sobre o
pagamento levaram a desgraça para o povo e para a família real. Anos depois, os gregos conquistaram a
cidade inexpugnável com a artimanha do cavalo de madeira. A orgulhosa Ílion
caiu com seus muros intactos.
Constantinopla foi construída em um ponto
privilegiado entre Europa e Ásia. O comércio enriqueceu a cidade. Desde o começo, ela foi fortificada. O sistema de muralhas em desnível era
extraordinário. Foi sendo reforçado e melhorado nos mil anos seguintes. A extensa proteção ainda contava com
muralhas junto ao mar e poderosa corrente para impedir a passagem de navios
pelos estreitos. O surgimento da pólvora para fins militares foi fatal para a
defesa. Poucas semanas após ter completado 21 anos, o sultão Maomé II entrou
triunfante em Santa Sofia. As
fortificações bizantinas tinham ficado obsoletas.
Há muros altos na China
desde antes do período imperial. O imperador Qin Shi Huang (século 3.º a.C.)
unificou o país e deu à cidade de Xian sua atração principal: os guerreiros de
terracota. Ele decidiu ligar os muitos muros reais e fazer a primeira muralha
imperial. A chamada muralha da China
é uma obra com muitos perfis arquitetônicos. A parte mais visitada, hoje, é
próxima a Pequim. Aquela parte é fruto do esforço restaurador da dinastia Ming
(séculos 14 ao 17).
Depois
de um início de expansão cujo símbolo são as fabulosas viagens do almirante
Zeng He ao Ocidente, os imperadores, aconselhados por eunucos confucionistas,
encerraram a fase de pensar para fora e passaram a pensar para dentro. Depois
de navegar boa parte do Índico, chegando ao Mar Vermelho e a Moçambique, os
chineses se ensimesmavam uma vez mais: não acreditavam ter visto nada melhor do
que eles mesmos fora de seus territórios. Para que viajar? Para que se abrir ao
mundo? Ressuscitam o esforço de
restaurar as muralhas com pedras para impedir a invasão dos bárbaros. Os
Mings deixaram de se considerar como potência ofensiva e adotaram atitude
defensiva. As antigas muralhas não
tinham detido a invasão mongol. As novas e restauradas não conseguiram deter os
grupos da Manchúria que derrubaram o último soberano nacional chinês e
instauraram o poder estrangeiro sobre o Império do Meio.
A muralha da China teve efeitos muito
variados. O primeiro deles foi absorver
recursos do império, especialmente no período Ming. O segundo foi transmitir a falsa sensação de segurança.
Podemos existir longe dos estrangeiros, pensava, satisfeita, a elite da Cidade
Proibida. A única grande consequência que a muralha não conseguiu apresentar
foi aquela que tinha definido sua gênese: livrar o império de bárbaros.
Vitoriosa
na Grande Guerra, a França manteve
parte do seu alto comando. Marechais carregados de medalhas e de experiência
pensaram em um sistema de defesa grandioso. Se as trincheiras tinham marcado o conflito de 1914-1918, é óbvio que
um sistema industrial e perfeito de trincheiras salvaria o povo francês do
conflito que se avizinhava. “Excelente ideia”, deve ter dito um ancião ao
outro em Paris.
![]() |
ENORME CERCA DE METAL Na fronteira entre Estados Unidos e México, nas proximidades do National Park Service's Coronado National Memorial ARIZONA |
Surgiu a linha Maginot. Túneis, casamatas de
concreto, trilhos, depósitos: a extensa rede defensiva era perfeita. Ela pode
ser visitada hoje, quase intacta. A
opinião pública foi convencida que valia a pena investir grande parte da
receita francesa na concepção. A cabeça de parte dos dirigentes políticos e
militares da França voltava-se para 1914. A
guerra de 1939 seria de aviões e de tanques. O ataque nazista pelas Ardenas* foi
uma surpresa. A linha Maginot foi um
caríssimo elefante branco. Em 1940, a França caiu. A ideia fora inútil. Jogar na retranca, mais uma vez, demonstrou
ser tática duvidosa.
Em agosto de 1961, tentando estancar o
fluxo migratório para o Ocidente, o
governo da Alemanha Oriental/URSS ordenou a construção do Muro de Berlim. O
mundo que deveria ser o paraíso dos trabalhadores não conseguia convencer seus
habitantes a permanecerem no Éden. A cidade foi dividida.
O Muro de Berlim custou
muitas vidas.
Foi o símbolo do fracasso socialista.
O democrata Kennedy fez discurso se identificando com os berlinenses oprimidos.
O republicano Reagan pediu de forma direta: “Secretário-geral Gorbachev, se o senhor busca a paz, se busca
prosperidade para a União Soviética e o Leste Europeu (...), derrube este muro”. O símbolo caiu em 1989 e, com ele, o socialismo histórico da URSS e do
Leste Europeu.
Há
muitos outros divisores físicos na História. Todos foram e são de memória
infeliz e inúteis. Eles reconhecem o fracasso de um sistema e simbolizam o
colapso das pontes. Muros enriquecem
empreiteiros e empobrecem ideias e humanidade.
Visitei
muitas vezes a muralha da China, as ruínas de Troia, estive em Istambul, vi
Berlim e conheci a linha Maginot. Nestes
lugares há o eco do desejo de deter os bárbaros e o registro do fracasso do
intento. Seria irônico repetir
Reagan, o neoliberal, o republicano conservador, o garoto-propaganda do
capitalismo de livre mercado contra seu colega de partido: “Tear down this
wall, Mr Trump” [trad.: Derrube este
muro, Senhor Trump].
* As Ardenas
(em francês: Ardennes) é uma região
de colinas montanhosas partilhada principalmente pela Bélgica e Luxemburgo, mas
estende-se também à França onde dá o nome ao departamento de Ardenas.
Comentários
Postar um comentário