Pesquisa narra horrores do tráfico de escravos

RICARDO BONALUME NETO
DE SÃO PAULO

"O Navio Negreiro" traz detalhes do transporte de negros para a América
O historiador Marcus Rediker dedicou quatro anos de trabalho ao livro; "convivi com o terror", afirma ele

De longe, ele é uma aparição bonita, elegante. Três mastros, gurupés, velas redondas e velas latinas. Mas, à medida que o observador se aproxima, vai encontrando um local de puro terror. "Câmaras de horror", é como o historiador americano Marcus Rediker define os navios negreiros que transportaram milhões de escravos da África para as Américas.

Rediker realizou um feito raro com o livro "O Navio Negreiro - Uma História Humana": conseguiu tratar de um tema ainda pouquíssimo explorado, o da escravidão africana moderna.

Ninguém antes havia exposto com tanta riqueza a sordidez do transporte de escravos para plantações e minas das Américas e do Caribe.

Leia abaixo trechos da entrevista com o historiador.

Folha - Por que decidiu escrever um livro sobre a experiência deste tipo de navio?


Marcus Rediker - A ideia de escrever "O Navio Negreiro" surgiu alguns anos atrás, quando me encontrei com o ex-Pantera Negra, agora prisioneiro político, Mumia Abu-Jamal, no corredor da morte da Pensilvânia. Era parte de uma campanha para abolir a pena de morte.
Afro-americanos constituem uma parte desproporcionalmente grande do corredor da morte nos EUA, então eu comecei a pensar sobre o relacionamento histórico entre raça e terror. O livro começou na militância política.

Quão difícil foi realizar as pesquisas para o livro? 

Eu tinha a vantagem da experiência de 25 anos de trabalho nos arquivos marítimos. Passei quatro anos de trabalho em tempo integral dedicado ao livro - convivendo com o terror, pode-se dizer.

Por que você se concentrou sobre a experiência britânica e americana?

Em parte, isso era uma questão de formação acadêmica, pois eu havia estudado por muito tempo a história antiga britânica e americana.
Por outro lado, isso era uma questão de importância histórica: os navios britânicos carregaram mais pessoas para a escravidão do que qualquer outro país durante o século 18, o período de pico do comércio de escravos. Meu desafio era transformar as estatísticas de negócios em histórias humanas.

Havia diferença significativa entre os navios negreiros anglo-saxões e os de outras nações, por exemplo, os usados no tráfico para o Brasil?

A maioria dos navios de escravos operava da mesma forma, mas havia algumas diferenças. Negreiros portugueses e brasileiros tendiam a ser maiores do que a maioria, mas, porque a distância a ser navegada era menor no Atlântico Sul (45 dias, comparados a 68 dias para os navios britânicos), as taxas de mortalidade foram menores.

Você diz que nenhum país jamais lidou integralmente com o legado da escravidão e que reparações são ainda devidas. Que tipo de forma poderiam ter essas reparações?

Sociedades e governos podem, por exemplo, despender maiores recursos educacionais para áreas urbanas mais pobres, beneficiando os descendentes dos escravos e a sociedade como um todo. Mas, obviamente, nada significativo vai acontecer até que um movimento social exija uma responsabilização por esse passado terrível.

O NAVIO NEGREIRO
AUTOR: Marcus Rediker
EDITORA: Companhia das Letras
TRADUÇÃO: Luciano V. Machado
QUANTO: R$ 64 (464 págs.)

Fonte: Folha de S. Paulo - Ilustrada/livros - Sábado, 23 de julho de 2011 - Pg. E6 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2307201121.htm

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