Papa: "Onde não há honra para os idosos, não há futuro para os jovens"
Catequeses
sobre a Família:
Idosos
são uma riqueza, não podem ser ignorados
Redação
Francisco criticou a
atitude de desprezar os idosos; segundo o Papa, sociedade que não cuida dos
mais velhos carrega consigo o vírus da morte
A catequese do Papa Francisco, nesta quarta-feira, 4 de
março, foi a primeira de duas que o Santo Padre dedicará aos idosos.
Apresentamos o texto na íntegra:
Queridos irmãos
e irmãs, bom dia,
A catequese de
hoje e a da próxima quarta-feira são dedicadas aos idosos, que no âmbito da
família são os avós, os tios. Hoje, vamos refletir sobre a problemática
condição atual dos idosos e, da próxima vez, isso é, na próxima quarta-feira,
de forma mais positiva, sobre a vocação contida nesta idade da vida.
Graças aos
progressos da medicina, a vida se alongou: mas a sociedade não se “alargou” à
vida! O número de idosos se multiplicou, mas as nossas sociedades não se
organizaram o suficiente para dar lugar a eles, com justo respeito e concreta
consideração por sua fragilidade e sua dignidade. Enquanto somos jovens, somos
induzidos a ignorar a velhice, como se fosse uma doença a manter distante;
depois, quando nos tornamos velhos, especialmente se somos pobres, se estamos
doentes, sozinhos, experimentamos as lacunas de uma sociedade programada sobre
a eficiência, que consequentemente ignora os idosos. E os idosos são uma
riqueza, não podem ser ignorados.
Bento XVI,
visitando uma casa para idosos, usou palavras claras e proféticas, dizia assim:
“A qualidade de uma sociedade, gostaria de dizer de uma civilização, se julga
também pelo modo como os idosos são tratados e pelo lugar reservado a eles no
viver comum” (12 de novembro de 2012). É verdade, a atenção aos idosos faz a
diferença de uma civilização. Em uma civilização há atenção para o idoso? Há
lugar para o idoso? Esta civilização seguirá adiante se souber respeitar a
sabedoria, a sabedoria dos idosos. Em uma civilização em que não há lugar para
os idosos ou são descartados porque criam problemas, esta sociedade leva
consigo o vírus da morte.
No Ocidente, os
estudiosos apresentam o século atual como o século do envelhecimento: os filhos
diminuem, os velhos aumentam. Este desequilíbrio nos interpela, antes, é um
grande desafio para a sociedade contemporânea. No entanto, uma cultura do lucro
insiste em fazer os velhos parecerem um peso, um “lastro”. Não só não produzem,
pensa esta cultura, mas são um fardo: em suma, qual é o resultado de pensar
assim? São descartados. É ruim ver os idosos descartados, é uma coisa ruim, é
pecado! Não se ousa a dizer isso abertamente, mas se faz isso! Há algo de vil
nesta dependência à cultura do descartável. Mas nós estamos habituados a
descartar pessoas. Queremos remover o nosso elevado medo da fraqueza e da
vulnerabilidade; mas assim fazendo aumentamos nos idosos a angústia de serem
mal suportados e abandonados.
Já no ministério
de Buenos Aires, vi de perto esta realidade com os seus problemas: “Os idosos
são abandonados, e não só na precariedade material. São abandonados na egoísta
incapacidade de aceitar os seus limites que refletem os nossos limites, nas
numerosas dificuldades que hoje devem superar para sobreviver em uma
civilização que não permite a eles participar, ter uma palavra a dizer, nem de
ser referência segundo o modelo consumista do ‘somente os jovens podem ser
úteis e podem desfrutar’. Estes idosos deveriam, em vez disso, ser, para toda a
sociedade, a reserva de sabedoria do nosso povo. Os idosos são a reserva de
sabedoria do nosso povo! Com quanta facilidade se coloca para dormir a
consciência quando não há amor!” (Só o amor pode nos salvar, Cidade do Vaticano
2013, p. 83). E assim acontece. Eu recordo, quando visitava as casas de
repouso, falava com cada um e tantas vezes ouvi isso: “Como a senhora está? E
os seus filhos? – Bem, bem – Quantos filhos a senhora tem? – Tantos. E eles vêm
visitá-la? – Sim, sim, sempre, sim, vêm. – Quando vieram pela última vez?”.
Recordo uma idosa que me dizia: “Foi no Natal”. Estávamos em agosto! Oito meses
sem ser visitada pelos filhos, oito meses abandonada! Isto se chama pecado
mortal, entendido? Uma vez, quando criança, a avó nos contava uma história de
um avó idoso que, ao comer, se sujava porque não podia levar bem a colher com a
sopa à boca. E o filho, o pai da família, decidiu tirá-lo da mesa comum e fez
uma mesinha em uma cozinha, onde não podia ser visto, para que comesse sozinho.
E assim não daria uma má impressão quando chegassem os amigos para almoçar ou
jantar. Poucos dias depois, chegou à casa e encontrou o seu filho menor que
brincava com a lenha e o martelo e os pregos fazendo alguma coisa ali, disse:
“O que você está fazendo? Faço uma mesa, papai. – Uma mesa, para que? – Para
você ter uma quando se tornar idoso, assim você pode comer ali”. As crianças
têm mais consciência que nós!
Na tradição da
Igreja, há uma riqueza de sabedoria que sempre apoiou uma cultura de
proximidade aos idosos, uma disposição ao acompanhamento afetuoso e solidário
nesta parte final da vida. Tal tradição está enraizada nas Sagradas Escrituras,
como atestam, por exemplo, estas expressões do Livro do Eclesiástico: “Não
desprezes os ensinamentos dos anciãos, pois eles aprenderam com seus pais.
Estudarás com eles o conhecimento e a arte de responder com oportunidade” (Eclo
8,11-12).
A Igreja não
pode e não quer se conformar a uma mentalidade de impaciência e tão pouco de
indiferença e desprezo em relação à velhice. Devemos despertar o sentido
coletivo de gratidão, de apreço, de hospitalidade, que façam o idoso se sentir
parte viva da sua comunidade.
Os idosos são
homens e mulheres, pais e mães que foram antes de nós nessa nossa mesma
estrada, na nossa mesma casa, na nossa cotidiana batalha por uma vida digna.
São homens e mulheres de quem nós recebemos muito. O idoso não é um alienígena.
O idoso somos nós: em breve, em muito tempo, inevitavelmente, de qualquer
maneira, mesmo se nós não pensamos nisso. E se nós aprendemos a tratar bem os
idosos, assim nos tratarão.
Frágeis todos somos
um pouco. Alguns, porém, são particularmente frágeis, muitos são sozinhos, e
marcados pela doença. Alguns dependem de cuidados indispensáveis e da atenção
dos outros. Vamos dar um passo atrás nisso? Vamos abandoná-los ao próprio
destino? Uma sociedade sem proximidade, onde a gratuidade e afeto sem
contrapartida – mesmo entre estranhos – vai desaparecendo, é uma sociedade
perversa. A Igreja, fiel à Palavra de Deus, não pode tolerar estas
degenerações. Uma comunidade cristã em que a proximidade e a gratuidade não
fossem mais consideradas indispensáveis, perderia com isso a sua alma. Onde não
há honra para os idosos, não há futuro para os jovens.
Fonte: Canção Nova – Especiais/Papa
– Quarta-feira, 4 de março de 2015 – 10h39 – Internet: clique aqui.
Comentários
Postar um comentário