PT: É HORA DE UMA PROFUNDA AUTOCRÍTICA
“Assistimos ao começo do fim.
O PT tende a virar um arremedo do PMDB”
Entrevista
com Frei Betto*
Thais Arbex
Ícone do PT , Frei
Betto diz que a única saída para o partido que governa o País há 12 anos é
voltar às origens e buscar a governabilidade com os movimentos sociais.
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Frei Betto - teólogo e escritor dominicano Foto: Iara Morselli (Estadão) |
Um mês depois de ser reeleita, a presidente Dilma Rousseff recebeu Frei Betto e o Grupo Emaús, da Teologia da Libertação, no Palácio do Planalto.
Durante uma hora e vinte minutos, também na presença do chefe da Casa Civil,
Aloizio Mercadante, ouviu uma série de críticas e sugestões para que o governo
continuasse “implementando o projeto que tanto beneficia a sociedade
brasileira, principalmente os mais vulneráveis”.
A conversa, de acordo com ele, foi ótima. “Só que, de
repente, vem o Joaquim Levy com um ajuste fiscal penalizando, sobretudo, os
mais pobres. Quem assistiu ao filme Adeus,
Lenin! pode fazer o seguinte paralelo: se um cidadão brasileiro, disposto a
votar na reeleição da Dilma, tivesse entrado em agonia no início de agosto de
2014 e despertasse agora, neste mês de março, no hospital e visse o noticiário,
certamente estaria convencido de que o Aécio havia vencido a eleição”.
Frei Betto – que, com as comunidades
eclesiais de base**, ajudou a fundar o PT e,
como assessor especial do ex-presidente Lula, coordenou o programa Fome Zero – diz que o que falta ao governo, desde 2003, é “planejamento estratégico”. Segundo
ele, que é amigo do ex-presidente Lula há mais de 30 anos e conhece a
presidente Dilma desde a infância – “somos da mesma rua em Belo Horizonte” –, em doze anos de governo, o PT não conseguiu
tirar do papel nenhuma reforma de estrutura prometida em seus documentos
originais e, ao chegar ao governo,
“trocou um projeto de Brasil por um projeto de poder, escanteou os movimentos
sociais” e ficou “refém desse Congresso, dependendo de alianças espúrias”.
“Agora, seu grande aliado, o PMDB, se rebela e cria – com o
perdão da expressão – uma cunha renana para asfixiar o Poder Executivo”.
Qual a saída? “O
PT ser fiel às suas origens. Buscar a governabilidade pelo estreitamento de
seus vínculos com os movimentos sociais. Fora disso, tenho a impressão de que
estamos começando a assistir ao começo do fim. Pode até perdurar, mas o PT
tende a virar um arremedo do PMDB”, sentencia ele, que é autor de 60 livros,
entre eles A Mosca Azul (“uma reflexão sobre a história do poder e a história
do PT no poder”) e Calendário do Poder (“um diário do Planalto”), ambos
editados pela Rocco.
A seguir, os principais trechos da conversa com Frei Betto,
que recebeu a coluna no Convento Santo Alberto Magno, no bairro de Perdizes,
onde mora.
Como o senhor avalia o atual momento
do País?
Frei Betto: O
Brasil está vivendo um momento de crise política e econômica. Prevejo quatro
anos de governo Dilma com muita turbulência, manifestações, greves, impasses. E
me pergunto se, em 2018, o PMDB apoiará o candidato do PT. Como bom mineiro,
desconfio que não e não me surpreenderei se o PMDB lançar um candidato próprio,
com apoio do PSB e outros pequenos partidos. A questão é que tivemos 12 anos de
governo do PT que, na minha avaliação, apesar de todos os pesares – e põe
pesares nisso –, foram os melhores da nossa história republicana, sobretudo no
quesito social. Efetivamente, 36 milhões de pessoas deixaram a miséria. Hoje,
os aeroportos deixaram de ser um espaço elitista. Se vamos em um barraco de
favela, lá dentro tem TV a cores, micro-ondas, máquina de lavar, fogão,
geladeira, telefones celulares, talvez um computador e, possivelmente, no pé do
morro, um carrinho que está sendo comprado em 60, 90 prestações mensais. Porém,
essa família continua no barraco, sem saneamento, em um emprego precário, sem
acesso a saúde, educação, transporte público e segurança de qualidade. O
governo facilitou o acesso dos brasileiros aos bens pessoais, mas não aos bens
sociais.
O que faltou?
Frei Betto: Não
tivemos, em doze anos, nenhuma reforma de estrutura, nenhuma daquelas
prometidas nos documentos originais do PT. Nem a agrária, nem a tributária, nem
a política. E aí poderíamos acrescentar nem a da educação, nem a urbana. Em
suma, o que falta ao governo – e desde 2003 – é planejamento estratégico.
Como assim?
Frei Betto: Governa-se
na base dos efeitos pontuais, da administração de crises ocasionais, porque o
PT trocou um projeto de Brasil por um projeto de poder. Permanecer no poder se
tornou mais importante do que fazer o Brasil deslanchar para uma nação justa,
livre, soberana e igualitária. Como é que um governo que pretende desenvolver a
nação brasileira cria um ministério que eu qualifico de coral desafinado? O que
tem a ver Joaquim Levy com Miguel Rossetto? Kátia Abreu com Patrus Ananias?
José Eduardo Cardozo com George Hilton?
Em artigo publicado pouco antes das
eleições, o senhor listou 13 razões para votar na Dilma. Agora, escreveu novo
artigo, A Farra Acabou [leia abaixo, após esta entrevista], com críticas ao governo. O que mudou?
Frei Betto: O que
mudou é que, infelizmente, aquelas 13 razões não foram abraçadas no segundo
mandato de Dilma. A presidente montou um ministério esdrúxulo, que não
conseguiu nem sequer ter um projeto de Brasil minimamente emancipatório, como
era o Fome Zero. Aliás, o próprio
governo que o criou o matou, substituindo-o por um programa compensatório
chamado Bolsa Família – que é bom,
mas não tem caráter emancipatório. Todo o governo opera agora em função de um
detalhe, não de um projeto histórico, que é o ajuste fiscal. E penalizando os
mais pobres, não o capital. Todas as bases desse ajuste estão em cima da
redução do seguro-desemprego, do abono salarial, do imposto sobre o consumo. E
nada em termos das grandes heranças, dos royalties
que saem do País, das grandes transferências de dinheiro, dos brasileiros que
têm dinheiro nos paraísos fiscais. A conta vai ser paga por aqueles que já
lutam com dificuldade.
O senhor quer dizer que estamos em
um caminho sem volta?
Frei Betto: O
grave do governo do PT – tendo sido construído e consolidado pelos movimentos
sociais – foi, ao chegar ao Planalto, ter preferido assegurar sua
governabilidade com o mercado e com o Congresso e escantear os movimentos
sociais. Hoje, eles são tolerados ou, como no caso da UNE e da CUT,
manipulados, invertendo o seu papel. Com isso, o PT ficou refém desse
Congresso, dependendo de alianças espúrias. Agora, o seu grande aliado, o PMDB,
se rebela, cria – com o perdão da expressão – uma cunha renana para asfixiar o
Executivo. Se alguém me pergunta “qual é a saída”? É o PT ser fiel às suas
origens. Buscar a governabilidade pelo estreitamento de seus vínculos com os
movimentos sociais. Ou seja, o segmento organizado, consciente e politizado da
nação brasileira. Fora disso, tenho a impressão de que estamos começando a
assistir ao começo do fim. Pode até perdurar, mas o PT tende a virar um
arremedo do PMDB. Creio que cabe hoje, ao governo, fazer uma autocrítica séria.
Por meio dos movimentos sociais é
que seria possível recuperar a imagem do partido?
Frei Betto: Exatamente.
O PT precisa sair da posição de bicho acuado em que se colocou. O partido, até
hoje, não declarou se os envolvidos no mensalão são inocentes ou culpados; o
partido, até hoje, não declarou se ele, que governa o Brasil e, portanto, a
Petrobrás, tem ou não responsabilidade na devassa que está sendo feita na maior
empresa brasileira. O partido se afastou das bases sociais. Onde estão os
núcleos populares que, nos anos 80, encantavam todas as pessoas que chegavam na
zona leste de São Paulo, em uma favela, e a dona Maria, orgulhosamente,
mostrava um barracão que era a sede do núcleo do PT? Onde está o trabalho de
base, de formação política? Embora não tenha sido militante do PT, mas como
ajudei a construir o partido por meio do trabalho pastoral, hoje me pergunto:
onde estão os líderes do PT que, aos fins de semana, voltam para as favelas e
periferias? Onde estão os líderes do PT que não tiveram um assombroso aumento
de seu patrimônio familiar durante esses anos, a ponto de não se sentirem mais
à vontade em uma assembleia de sem-teto, em uma aldeia indígena, em um fim de
semana em um quilombola? Onde estão eles? Existem. São raros. Não vou citar
nomes, mas tenho profundo respeito por militantes e dirigentes do PT que são
muito coerentes com aquele PT originário. Mas, infelizmente, eles são exceção.
Como disse recentemente a senadora
Marta Suplicy, “ou o PT muda ou acaba”.
Frei Betto: É
como já disse, o PT tem de mudar no sentido de voltar às suas origens e às suas
bases sociais. Acabar não vai, porque tem tantos oportunistas que ingressaram
no PT como rampa de acesso às benesses do poder, que o partido tende,
inclusive, a inchar de gente que não tem nada a ver com as suas origens. Dou um
exemplo: curiosamente, coincidindo com o dia em que a presidente entrega à nação
um pacote anticorrupção, no estado do Rio um prefeito [do PT] é flagrado na
corrupção. O que esse cidadão tem a ver com a história de um partido que, ao
nascer, se afirmou por três capitais: ser o partido ético na política
brasileira, ser o partido dos pobres e ser o partido que, a longo prazo,
construiria uma alternativa ao País, com uma sociedade socialista? O PT
abandonou os três capitais. Esse pessoal que não tem a ver com o PT viu que,
sendo do partido, o maná cai do céu. Fico me perguntando quantos outros exemplos
não devem existir por esse Brasil afora?
Poderíamos apontar um culpado por
esse rumo diferente que o partido tomou? O ex-presidente Lula?
Frei Betto: Jamais,
na minha análise – isso é um princípio – personalizo os acontecimentos. Porque
não acredito que a história humana seja feita por meio de salvadores da pátria.
É feita de movimentos e processos sociais. É preciso que haja uma luta interna
no PT muito acirrada para que o partido seja minimamente coerente com suas
origens e propostas.
O senhor é a favor do “volta, Lula”?
Ele poderia “salvar” o governo desta atual crise?
Frei Betto: Minha
avaliação é que Lula só não será candidato à presidência em 2018 se morrer.
Fora isso, tenho absoluta segurança de que ele será candidato. Não foi ele que
me disse isso, é apenas da minha cabeça. Mas a questão não é “com o Lula voltando, as coisas vão se
resolver”. O problema é o rumo que o partido tomou e imprimiu ao governo do
Brasil. Há coisas extremamente positivas, mas a expectativa era muito maior.
Governo se faz com luta interna, aprendi isso nos dois anos em que estive lá.
Governo é como feijão, só funciona na panela de pressão. Aquilo é um caldeirão
em fervura permanente. Mas é preciso que haja alguns segmentos dentro do
governo capazes de elaborar uma proposta estratégica a longo prazo, que sirva
de norte para as políticas. E isso não existe hoje.
O que existe?
Frei Betto: Um
pacote de propostas pontuais. A falta de horizonte histórico no projeto do
governo, agravada pelo fim das ideologias libertárias desde a queda do muro de
Berlim, é o que explica por que o debate político hoje desceu do racional para
o emocional. É como briga de casal. Quando se perde um projeto amoroso ou da
família, emoções afloram, insultos, ofensas, sentimento de ira e vingança,
porque não se tem horizonte. Quando esse horizonte histórico existe, quando se
tem projeto estratégico, o debate democrático fica no nível da racionalidade,
não da emocionalidade. Mas essa fúria nacional que perpassa todos os ambientes
só vai terminar se houver alguma força política que aponte um projeto
histórico.
*
Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, nasceu em Belo Horizonte, aos
25 de agosto de 1944, é um escritor e religioso dominicano brasileiro, filho do
jornalista Antônio Carlos Vieira Christo e da escritora e culinarista Maria
Stella Libanio Christo, autora do clássico "Fogão de Lenha - 300 anos de cozinha mineira" (Garamond). Professou
na Ordem Dominicana, em 10 de fevereiro de 1966, em São Paulo. Adepto da Teologia da Libertação, é militante de
movimentos pastorais e sociais, tendo ocupado a função de assessor especial do
presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva entre 2003 e 2004. Foi
coordenador de Mobilização Social do programa Fome Zero. Esteve preso por duas vezes sob a ditadura militar: em
1964, por 15 dias; e entre 1969-1973. É autor de 60 livros. Para saber mais, acesse: Wikipédia e Frei Betto.
** As Comunidades
Eclesiais de Base (CEB) são comunidades inclusivistas ligadas
principalmente à Igreja Católica que, incentivadas pela Teologia da Libertação
após o Concílio Vaticano II (1962-1965) se espalharam
principalmente nos anos 1970 e 80 no Brasil e na América Latina. Consistem em
comunidades reunidas geralmente em função da proximidade territorial e de
carências e misérias em comum, compostas principalmente por membros
insatisfeitos das classes populares e despossuídos, vinculadas a uma Igreja ou
a uma comunidade com fortes vínculos, cujo objetivo é a leitura bíblica em articulação com a vida, com a realidade política
e social em que vivem e com as misérias cotidianas com que se deparam na matriz
ordinária de suas vidas comunitárias. Através da hermenêutica do método ver-julgar-agir buscam olhar a
realidade em que vivem (ver), julgá-la com os olhos da fé (julgar) buscando
nunca perder de vista o dom da tolerância e o dom da caridade. Sem, no entanto,
deixar que a razão fique obnubilada, e encontrar caminhos de ação e
contemplação, mesmo que impulsionados por este mesmo juízo prático ou teórico à
luz da fé (agir). Para saber mais, clique Wikipédia.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Caderno 2 – Direto da Fonte Sonia Racy/Encontros – Segunda-feira,
30 de março de 2015 – Pg. C2 – Internet: clique aqui.
Crise Brasil: a farra acabou
Frei Betto
O governo quis colher
onde não semeou.
Em 12 anos, não fez
nenhuma reforma de estrutura.
Na noite de domingo, 8/3, a presidente Dilma, em rede
nacional de mídia, anunciou que a crise brasileira é grave.
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Presidente Dilma Rousseff em pronunciamento em rede de TV e rádio Dia 8 de março de 2015 - Dia Internacional da Mulher |
O país não apresenta
perspectivas de crescimento em 2015. A inflação aumenta a cada mês e, o dólar,
a cada dia. Não há investimentos à vista. Direitos sociais, como abono
desemprego e pensão viuvez, sofreram cortes. Os juros voltam a subir. E a
corrupção na maior empresa brasileira, a Petrobras, administrada pelo governo,
deixa o PT acuado e aprofunda a crise política.
A farra acabou. Foram 11 anos (2003-2014) de bonança: crescimento
econômico; investimentos estrangeiros; inflação e câmbio sob controle; crédito
facilitado; aumento real do salário mínimo; desemprego baixo.
Graças aos programas
sociais, 36 milhões de brasileiros saíram da miséria. As ruas se entupiram de
veículos novos. Qualquer barraco de favela está equipado com TV em cores,
geladeira, fogão, máquina de lavar (graças à desoneração da linha branca) e
telefones celulares. E Dilma, na
campanha presidencial de 2014, prometeu que nada disso mudaria.
Agora, tudo muda. O
novo lema do governo – “Brasil, Pátria
Educadora” – foi anunciado em um dia e, no outro, R$ 14 bilhões foram
cortados do orçamento da educação.
Onde o governo errou? Errou ao adotar um populismo cosmético. Se
você tem renda suficiente para pagar aluguel e sustentar a família, não pode
oferecer aos filhos motos, carros e férias no exterior. A conta não fecha. Um
dia a casa cai e o rombo terá que ser coberto, ainda que a família perca quase
todos os bens.
Quem não semeia não
colhe. O governo quis colher onde não semeou. Em 12 anos, não promoveu nenhuma reforma de estrutura. Nem agrária, nem
tributária, nem política.
Isso me lembra o velho Araújo. Vargas, presidente, todo ano,
a 21 de abril, mudava simbolicamente a capital do país para Ouro Preto. Araújo,
que residia em casa maior que a sua conta bancária, ofereceu ao presidente, em
sua passagem por Belo Horizonte, um banquete.
Na mesa, tudo do bom e do melhor. O que não havia em Minas,
veio do Rio e de São Paulo. Do banquete, a família guarda duas recordações: a
feliz, a comilança regada a champanha francesa. A triste, a falência do velho
Araújo.
Havia alternativa
para o PT? Sim, se não houvesse jogado a sua garantia de governabilidade
nos braços do mercado e do Congresso; se tivesse promovido a reforma agrária,
de modo a tornar o Brasil menos dependente da exportação de commodities e mais favorecido pelo
mercado interno; se ousasse fazer a reforma tributária recomendada por Piketty,
priorizando a produção e não a especulação; se houvesse, enfim, assegurado a
governabilidade, prioritariamente, pelo apoio dos movimentos sociais, como fez
Evo Morales na Bolívia.
A crise econômica tende a se aprofundar. Já a política se arrastará até
2018, ano de eleições presidenciais. Se o governo não voltar a beber na sua
fonte de origem – os movimentos sociais e as propostas originárias do PT – as
forças conservadoras voltarão a ocupar o Planalto.
Fonte: O Dia –
Opinião – 14/03/2015 – 22h40 – Internet: clique aqui.
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