NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS BRASILEIROS
PRIMEIRA VISÃO
No meio da multidão
Cristiano
Navarro e Luís Brasilino
Editores
do Le Monde Diplomatique Brasil
A partir de junho de
2013, o Brasil passou a conviver com a emergência e o protagonismo de formas
inovadoras de mobilização social e ação coletiva que ultrapassam o espectro de
influência do Partido dos Trabalhadores. Muitas são as dúvidas sobre essas novas
expressões da luta popular: como surgiram, quais seus limites
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Manifestação do MOVIMENTO PASSE LIVRE em 2013 |
"Recentemente a UNE
[União Nacional dos Estudantes] e outras entidades tradicionais do
movimento estudantil acamparam em frente à Prefeitura de São Paulo. Couberam em
vinte barracas. No dia seguinte, o Movimento
Passe Livre foi ao mesmo lugar com 10 mil pessoas. Não é muito se
lembrarmos dos comícios dos anos 1980, mas o PT não colocaria 10 mil militantes
na rua hoje, salvo se trazidos por profissionais para um showmício.” A
comparação é de Lincoln Secco,
historiador e autor do livro A história
do PT. Ele se refere às barracas levantadas na vigília organizada pela
União Nacional dos Estudantes (UNE) e pela União Estadual dos Estudantes
Secundaristas (UEES) em apoio ao projeto de gratuidade no transporte público do
prefeito Fernando Haddad (PT), em contraposição ao Segundo Grande Ato contra o Aumento promovido pelo MPL durante o
mês de janeiro.
A partir de junho de 2013, o Brasil passou a conviver com a
emergência e o protagonismo de formas inovadoras de mobilização social e ação
coletiva que ultrapassam o espectro de influência do Partido dos Trabalhadores,
hegemônico nas manifestações de rua progressistas do país desde o início dos
anos 1980.
Muitas são as dúvidas sobre essas novas expressões da luta
popular: como surgiram, qual é seu perfil e quais são seus limites. Operando
por fora das instituições políticas oficiais, além do MPL [Movimento Passe Livre], notabilizado pela revolta de junho de
2013, outras organizações, como Levante
Popular da Juventude, Marcha da
Maconha, Frente Independente Popular,
Ocupe Estelita, Marcha das Vadias, Território
Livre, Massa Crítica, Reaja ou será Morto(a), Mães de Maio, Rede Dois de Outubro, passaram a conquistar seu espaço em debates
políticos ao evidenciar realidades antes pouco tratadas, ligadas sobretudo à
vida urbana, por meio de ações diretas.
Esse movimento insere o Brasil em um processo global de
contestação iniciado a partir dos impactos gerados pela crise econômica de 2008
e que passa pela Primavera Árabe, os
diversos Occupies, os Indignados,
as manifestações estudantis no Canadá e no Chile, as ocupações da praça grega
Syntagma e da turca Taksim, entre outras.
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Ruy Braga - sociólogo - Professor da USP |
O sociólogo Ruy Braga,
autor do livro A política do precariado:
do populismo à hegemonia lulista, destaca que em comum os militantes desses países vivem a precarização das
condições de vida e do mundo do trabalho. “São jovens, escolarizados, que
têm uma trajetória escolar superior à geração que os antecede e que se depara
com condições de inserção do mercado de trabalho que geralmente estão bastante
aquém daquelas mesmas condições que os pais encontraram no passado. E esse tipo
de desajuste, de desencaixe, de tensão é que pode ser considerado a grande
força motriz dos atuais movimentos de contestação.”
Há ainda outro fator geracional. O maior acesso a redes de informação e o intercâmbio nas redes sociais
ajudam a potencializar diferenças de conceitos políticos entre as gerações. Braga chama atenção para o que alguns
analistas denominam choque democrático.
“Talvez estejamos assistindo a um choque entre duas culturas políticas que
entram em atrito. De um lado essa cultura política mais verticalizada e
refratária à participação popular, do cidadão comum e principalmente dos
jovens, e por outro lado uma cultura política mais democrática, horizontal,
estruturada em torno de redes, que efetivamente tem servido como espaço de
mobilização e estruturação de demanda.”
Além do fator econômico, o desencantamento com o sistema político institucional ajuda a compreender
a emergência desses novos movimentos. Para João Berkson, militante do Coletivo
Juntos (movimento de luta ligado à juventude do Psol) no Ceará, ao negarem
o modelo tradicional de fazer política, os novos movimentos sociais passam a
resistir ao caminho de cooptação do Estado. “Acredito que esses novos
movimentos, ao empoderarem os novos sujeitos políticos e sustentarem que o
lugar onde nossas vitórias podem ser alcançadas é na rua, e não nos ‘podres
poderes’, ganham a confiança do povo”, afirma.
A marca da independência com relação às instituições
tradicionais se soma ao intenso desejo de participação política. Para o
sociólogo Leo Vinicius, autor do
livro Antes de junho: rebeldia, poder e
fazer da juventude autonomista, as mobilizações de rua trazem consigo um
claro impulso de negação das representações e mediações políticas, o que se
expressa por meio, por exemplo, do rechaço ou da desconfiança em relação a
partidos políticos e entidades oficiais de representação. “O desejo de
participação. Uma participação não no sentido de ser ouvido ou de dar opinião,
mas que é desejo de constituição, que é um poder constituinte, que é desejo de controle da própria vida, que
excede e vai contra os limites do instituído”, comenta.
Contra a hierarquia
Essa combinação está fomentando o surgimento de uma
diversidade imensa de organizações, estruturadas em coletivos, redes e frentes
que vêm sendo chamados de novos movimentos sociais, ou movimentos autônomos
(como a maioria costuma se identificar). É
possível, inclusive, que existam mais diferenças do que semelhanças entre os
militantes dessas organizações. No entanto, podemos apontar um rol de semelhanças e princípios que
sustentam essa rede solidária.
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Isabel Loureiro - Filósofa - Professora da Unicamp |
Em meio à multiplicidade de pautas, Isabel Loureiro, professora da Unicamp e organizadora de uma
antologia de Rosa Luxemburgo publicada pela Editora Unesp em 2011, destaca em
comum o fato de estes serem “movimentos de jovens
urbanos, caracterizados pela horizontalidade,
pela descentralização e independência em relação a partidos,
sindicatos, Igrejas, o que impede sua cooptação; dominam as novas mídias,
funcionam em rede e têm uma linguagem criativa em comparação com a da esquerda
tradicional; muitos se atêm a reivindicações locais; outros têm alcance
nacional”.
Ruy Braga faz uma
relação das principais características
dessa nova dinâmica:
“1) mais
horizontalizada;
2)
autorrepresentada;
3) focada no que
podemos chamar de demandas concretas;
4) protagonizada
por jovens;
5) [jovens] que
se apropriam dos mecanismos de mídia social;
6) jovens que são
mais escolarizados do que a geração anterior;
7) a despeito de
serem mais escolarizados, têm trajetórias sócio-ocupacionais muito mais
erráticas, encontram-se subempregados”.
De fato, a primeira característica elencada por Braga é a
mais lembrada quando se trata desses novos movimentos. “A grande fortaleza
desses novos movimentos que têm surgido é o seu profundo caráter democrático, ou seja, como são organizados de
maneira horizontal, acabam sendo permeáveis e sensíveis à participação popular
no sentido amplo. Assim, tendem a, num primeiro momento, se ampliar. Isso é
muito positivo porque eles oferecem
vazão para aquele estado de inquietação social latente que de outra maneira não
se expressaria de forma democrática, e poderia, por exemplo, se expressar
de maneira mais violenta por meio de quebra-quebras ou algo do estilo. No
entanto, não, esses novos movimentos oferecem a oportunidade de esse estado de
inquietação latente que vem se acumulando no país nos últimos 14 anos se
expressar de forma democrática.”
No início da noite do dia 23 de janeiro, ao ver o Quarto Grande Ato contra o Aumento da Tarifa
passar pela região central de São Paulo, o operador de telemarketing João
Paulo dos Santos decidiu atender ao chamado do protesto e foi para a rua contra
o aumento. Não demorou muito, ele e os outros cerca de 15 mil manifestantes
foram atacados pela Polícia Militar com bombas de estilhaço, de gás e bala de
borracha. Morador do bairro de Itaquera, Santos cursa Administração na
Universidade Cidade de São Paulo (Unicid) e todos os dias toma cinco conduções
entre sua casa, seu trabalho e a faculdade. “Pelo aperto, desconforto e o custo de vida alto, é um absurdo o preço
do ônibus e do metrô subir de R$ 3 para R$ 3,50.”
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Armando Boito - Cientista Político - Professor da Unicamp |
De acordo com Braga, outro segredo do poder de mobilização
desses movimentos é essa capacidade de
atender a demandas concretas da população. “Elas são críveis para as
massas. É possível baixar a tarifa. É possível conquistar a moradia, a casa
própria. É possível conquistar uma creche ou uma escola pública na periferia
onde ela não existe. Essas vitórias são possíveis”, ilustra.
Ligada a isso, está outra característica, destacada por Armando Boito, professor titular de
Ciência Política da Unicamp: trata-se de movimentos
reivindicativos, que objetivam melhorias nas condições de vida de setores
populares, mas não têm um programa de luta pelo poder de Estado. “Não estou
dizendo que esses movimentos estejam fora da política. São movimentos que se
explicam pelo contexto político atual e têm repercussão muito grande na
conjuntura política, inclusive no processo eleitoral. Porém, não têm, eles
próprios, o objetivo de alcançar o poder de Estado.”
Um movimento de jovens
O segundo aspecto mais lembrado a respeito dessas
organizações é a presença de jovens.
Em seus estudos, o sociólogo Leo
Vinicius observa que uma das fontes de poder dos movimentos autônomos se
encontra na própria condição material que faz existir o “juvenil” socialmente,
isto é, na vivência de um período de maior liberdade e autonomia em relação a
alguns imperativos econômicos e sociais. Contudo, “ao mesmo tempo, a juventude
é uma fragilidade para movimentos sociais se manterem no tempo, por ser essa
uma condição transitória. Utilizando conceitos sociológicos, esse poder tem
como base importante a moratória vital e a moratória social que dão forma à
juventude”.
Para Guilherme Boulos,
coordenador nacional do Movimento dos
Trabalhadores Sem Teto, a horizontalidade e o uso de ferramentas virtuais é
que favorecem esse diálogo com a juventude, “que não tem familiaridade nem
interesse por organizações políticas e sociais mais estruturadas. Permitem
canalizar um sentimento difuso de insatisfação com a política, para o bem e
para o mal. Porque junto com esse sentimento pode vir muita coisa velha,
conservadora e direitista”.
De acordo com ele, a principal novidade que surgiu após
junho não foi exatamente “novos movimentos”, mas a utilização central das redes sociais como convocatória. “Embora o
MPL tivesse um trabalho de base, que foi o que lhe permitiu desencadear as
mobilizações de junho, a convocação maciça se deu pelo Facebook. Depois de junho, várias mobilizações tentaram repetir o
modelo e demonstraram tanto seu potencial como seus limites. As ferramentas
virtuais passaram a ser hoje indispensáveis para a luta social, mas são
insuficientes. Sem o bom e velho
trabalho de base, enraizamento territorial contínuo, os movimentos não
conseguem sustentar grandes mobilizações.”
Leo Vinicius, no
entanto, destaca que a força dos movimentos está também no trabalho de base e
nos vínculos sociais concretos constituídos. “Ao contrário da ideologia tão
difundida que procura explicar ações coletivas e movimentos sociais com base
nas mídias digitais, é a velha militância cara a cara, cotidiana, os vínculos
reais que estão por trás de qualquer movimento social. O que essa ideologia das
‘redes sociais’ (virtuais) quer esconder é justamente isso: que as pessoas precisam fortalecer seus
vínculos reais se quiserem ter algum poder”, conclui.
Concordando com o sociólogo, Isabel Loureiro indica a ocupação desse espaço pelos movimentos
autônomos como parte do seu sucesso. “São movimentos que fazem trabalho de
base, que se organizam localmente, algo que o PT fazia antigamente, mas que
deixou de lado para virar um partido puramente eleitoreiro. Eles ocupam novos espaços de atuação política,
para além da viciada política institucional, que, com razão, é vista com
descrédito cada vez maior.”
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Guilherme Boulos - formado em filosofia pela USP, professor de psicanálise e membro da coordenação nacional do MTST |
Qual é o futuro?
Em um horizonte recessivo com indicação de cortes de gastos
públicos e elevação de juros e tarifas por parte dos governos, crescem as
expectativas sobre intensos conflitos sociais. Na mesma proporção aumenta
também a curiosidade sobre os rumos, limites e possibilidades desses novos
movimentos sociais na conjuntura de acirramento das tensões.
Isabel Loureiro
julga que a esperança que se pode ter nesses movimentos é que, para além das explosões espetaculares, que
vêm esporadicamente à tona, sigam na surdina fazendo seu trabalho de base
subterrâneo, se reunindo e se organizando. “Ao adotarem a tática da revolta
de rua e serem bem-sucedidos, como foi o caso de junho de 2013, eles não deixam
receita. São explosões maravilhosas e efêmeras, que incendeiam a imaginação,
mas aparentemente não têm continuidade. É como se a cada momento fosse preciso
reinventar a roda, o que esperamos ver acontecer novamente em 2015.”
Reticente quanto à possibilidade de um protagonismo maior
por parte dos novos movimentos, Armando
Boito destaca que eles podem representar um novo ciclo na luta popular por
melhores condições de vida e fortalecer os partidos e organizações socialistas,
mas reforça que são movimentos “reivindicativos, não lutam pelo poder. Entre eles
predomina, inclusive, um desprezo pela
organização política e pela luta pelo poder de Estado”. De acordo com ele,
o limite é “o culto do espontaneísmo, da luta reivindicativa supostamente
separada da organização e da luta política e a sua atitude de desconfiança
diante das organizações socialistas e marxistas”. Boito identifica uma falta de consciência política mais
desenvolvida, que não deixa perceber que as demandas dos movimentos, para
serem atendidas, demandam outra política urbana, econômica e social que
exigiria, para ser aplicada, o abandono do modelo capitalista neoliberal.
Guilherme Boulos
acrescenta que as virtudes dos movimentos apontam também seus limites. “A
horizontalidade é atraente para uma juventude indignada, mas também dificulta
uma organização mais consistente a longo prazo, com condições de construir
respostas unitárias.” Além disso, ele alerta para o fato de que, apesar do sentimento antipolítica ser
mobilizador, ele também pode gerar frankensteins
como no pós-junho.
A necessidade de unificar essas lutas em torno de demandas
que são sentidas por todos, e não exclusivamente por aqueles que fazem parte
desses movimentos, é vista por Ruy Braga
como um dos principais obstáculos a serem superados. De acordo com ele, o
caminho é descobrir “o que o movimento de luta pelo passe livre tem em comum
com a luta dos metroviários por investimento no sistema de metrô, o que o
investimento no metrô tem em comum com a luta pela casa própria, o que esta tem
em comum com a luta pela creche, o que esta tem em comum com o investimento na
escola pública, o que a escola pública tem em comum com os baixos salários... e
assim sucessivamente”. No entanto, Braga
reitera que, no atual momento, o aspecto
positivo desses novos movimentos ultrapassa “em muito” as carências
organizativas, “que tendem a se superar ao longo da trajetória de cada um
deles”.
Fonte: Le Monde Diplomatique
Brasil –
Ano 8 – Número 92 – Março 2015 – Pgs. 12-14 – Internet: clique aqui.
SEGUNDA VISÃO
O governo vai ter de ouvir
Entrevista
com Rogerio Chequer
Pedro Dias
Leite
O líder do “Vem pra
Rua” diz que protestar ajuda a formar uma geração mais exigente e promete que,
ao contrário de 2013, “o gigante acordou e não vai dormir mais tão cedo”
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Rogerio Chequer - engenheiro e empresário - líder do movimento "Vem pra Rua" |
No dia 4 de outubro do ano passado, véspera do primeiro
turno da eleição presidencial, o engenheiro
e empresário Rogerio Chequer, de 46 anos, era uma das cinco pessoas
presentes a um protesto convocado por ele contra o governo da presidente Dilma
Rousseff em frente ao Parque do Ibirapuera, em São Paulo.
Menos de duas semanas depois, eram 300 os manifestantes que
compareceram a um segundo ato. No domingo 15, Chequer estava entre mais de 1
milhão de pessoas que tomaram a Avenida Paulista na maior manifestação política
em trinta anos de democracia no Brasil.
Líder de um dos grupos que organizaram o protesto, o Vem
pra Rua, Chequer afirma que as manifestações de domingo, e as que estão
por vir, não repetirão 2013. “Agora o gigante acordou e não vai dormir mais tão
cedo”.
Eis a entrevista que ele concedeu.
Antes da marcha, os organizadores
mais otimistas falavam em 100.000 manifestantes em São Paulo, mas, no fim, mais
de 1 milhão de pessoas compareceram. No país todo, foram mais de 2 milhões. O
que levou tanta gente a aderir aos protestos?
Rogerio Chequer: As
pessoas que foram às ruas queriam mostrar a sua indignação diante da corrupção,
da ineficiência dos serviços públicos e da falta de honestidade no discurso de
quem está no poder. Mas ficou muito claro para mim que, se existe algo que une
tudo isso, é a sensação que as pessoas têm de estar sendo desrespeitadas pelos
que estão no poder. Essa recusa do governo em assumir seus equívocos, a
insistência em tomar decisões apenas para beneficiar a sua turma e não a
população, isso tudo provoca nas pessoas uma tremenda sensação de que elas não
estão sendo respeitadas. O que acho que aconteceu foi que muita gente percebeu
que, a partir do momento em que se junta a um grupo, a uma multidão, deixa de
estar solitária na sua indignação. E começa a acreditar que pode brigar contra
esse desrespeito.
Mas não é a primeira vez que os
insatisfeitos se juntam em grupos. O Cansei,
em 2007, foi uma iniciativa com proposta parecida. Por que agora a reação tem
sido diferente?
Rogerio Chequer: Primeiro,
porque o número de insatisfeitos nunca foi tão grande. Em outubro passado, como
demonstraram as urnas, nós já somávamos pelo menos 51 milhões de pessoas. Desde
então, isso só aumentou – não apenas em quantidade, mas em intensidade também.
Mas acho que o fato novo é que antes as pessoas não sabiam o que fazer com a
indignação e agora sabem.
Como
assim?
Rogerio Chequer: A
sensação de indignação é uma força poderosa, mas as pessoas não sabem o que
fazer com ela. Acabamos reclamando com os outros – para o colega de escritório,
para a mulher. Só que, em geral, nos queixamos a quem está indignado também, o
que faz com que o efeito da reclamação seja nulo. Vira uma flagelação coletiva –
todo mundo sofre e nada acontece. Então, sinto que agora começamos a descobrir
como canalizar essa energia. Quando marcamos um lugar para encontrar outras
pessoas que querem expressar essa mesma revolta, nossa voz passa a ser escutada
por quem está na rua, pela imprensa, pelo governo. Ou seja: em vez de
reclamarmos para o nosso colega de trabalho, passamos a reclamar para quem tem
de receber essa reclamação. E agora o governo via ter de escutar.
Mas o movimento já existe há algum
tempo, o que significa que, mesmo com toda essa indignação, os protestos
demoraram a engrenar. Por quê?
Rogerio Chequer: O
brasileiro é acomodado, dificilmente se engaja, sobretudo politicamente. Mas
penso que isso é consequência principalmente de uma descrença generalizada na
política e nos políticos e na capacidade da sociedade de alterar esse quadro.
Quando você cresce acomodado, deixa de acreditar que é possível mudar e passa a
achar que nada pode ser feito. Uma das frases mais comuns que ouço quando digo
que quero tentar mudar alguma coisa é: “Não adianta”.
E como acabar com esse conformismo?
Rogerio Chequer: Nós,
do Vem pra Rua, decidimos pelo
seguinte caminho: em vez de tentarmos enumerar todos os erros do PT, apenas
chamamos as pessoas para manifestar sua indignação. Conseguir pôr esse
sentimento para fora já é fascinante. Agora, precisamos trabalhar para que não
ocorra o que se deu em 2013, quando “o gigante acordou”, mas logo dormiu de
novo. Não queremos apenas despertar o gigante, queremos que a força da
sociedade ordeira, construtiva se incorpore à cultura brasileira e ajude a, de
fato, melhorar o país.
E o que o leva a crer que esse
movimento agora será mais duradouro do que foi o de 2013?
Rogerio Chequer: Talvez
o fato de que, desta vez, as pessoas estão bravas, mas, ao mesmo tempo, se
sentindo realizadas. Essa sequência de manifestações está criando uma nova
geração de brasileiros. Você viu a quantidade de crianças que havia nas
manifestações de domingo em São Paulo e nas outras cidades? Elas vão crescer
com outra cabeça, com uma tolerância muito menor do que a nossa para esses
abusos do governo. Elas não vão aceitar um décimo do que a nossa geração tem
aceitado há anos.
Outra característica que chamou
atenção em protestos como o de São Paulo foi a relação amigável que se viu
entre as pessoas que foram às ruas e os policiais militares.
Rogerio Chequer: É
verdade. Uma das muitas falsas premissas que a gente ouve por aí é que a
Polícia Militar é parcial, é “do mal”, está sempre “contra o povo”. Mas o que
foi que se viu no domingo? Nenhuma vitrine quebrada, tudo acontecendo em plena
ordem, e tudo isso, em grande parte, graças à PM, inclusive em estados de
administração petista. Diante dessa constatação, muita gente começa a pensar:
então é possível fazer uma manifestação e a polícia estar na rua para garantir
a nossa segurança? Isso é algo que deveria ser óbvio, mas não é. Crescemos com
paradigmas errados, e aí, quando a gente passa para a normalidade, estranha.
Apoiadores do governo disseram que
os últimos protestos representam um movimento da “elite branca”. O que o senhor
acha dessa afirmação?
Rogerio Chequer: Em
primeiro lugar, quem fala isso não esteve nas manifestações para ver o que
aconteceu. Porque, se tivesse ido, teria visto brancos, pardos, negros, gente
mais velha, gente mais nova. Uma hora, de cima do caminhão, comecei a chamar: “Quem
são as pessoas da periferia da Zona Sul de São Paulo?”. E grupos enormes
levantavam a mão. “E da Zona Leste? Guarulhos? Osasco?” Mais grupos levantavam
a mão. O governo tenta, de forma enviesada e injusta, uniformizar as pessoas.
Quanto mais o movimento cresce, mais ele aumenta nas classes C, D e E. No
começo, era mesmo bem mais elitizado. Mas isso nunca me incomodou.
Por quê?
Rogerio Chequer: Porque
as coisas têm de começar de algum jeito, e não tem um jeito certo ou errado
para isso. Por que a elite vale menos, ou tem menos voz, ou deveria ser menos
considerada? Se o movimento começou com a elite, que bom que alguém começou.
Dizer o contrário é uma forma de preconceito. Somos iguais ou não? Isso é
inacreditável vindo de um partido que hasteava a bandeira da igualdade e agora
prega o conflito de classes, entre ricos e pobres, empresários e trabalhadores.
O interessante é que ricos e pobres, empresários e trabalhadores, todos, têm
uma coisa em comum: eles pagam impostos. E, nesse caso, quem está do outro lado
é o governo, que recebe o dinheiro.
O senhor diz que o Vem pra Rua é um movimento
suprapartidário, mas vocês apoiaram o candidato Aécio Neves, do PSDB, nas
eleições presidenciais de outubro.
Rogerio Chequer: Deixe-me
fazer um pequeno retrospecto. Nossa primeira manifestação foi em 4 de outubro.
Apareceram quatro pessoas – cinco, contando comigo. No dia 16, na segunda
manifestação, já reunimos umas 300. Só que todo mundo se identificou tanto com
aquilo que começou a chamar mais gente. É claro que as eleições ajudaram,
porque, sendo o protesto contra o governo, ele se confundia com a campanha. Da
nossa parte, como éramos contra a candidata Dilma Rousseff, não havia
alternativa a não ser apoiar a oposição, fosse quem fosse. Se a Marina Silva
tivesse ido para o segundo turno, nós a teríamos apoiado. Mas foi o único
momento em que o movimento apoiou um candidato.
E isso não se repetirá?
Rogerio Chequer: Nós
somos críticos do governo, e só. O movimento é suprapartidário. A partir do
momento em que nos aliarmos a algum nome ou sigla, criaremos conflitos de
interesse. Precisamos ter a prerrogativa e a liberdade de poder monitorar ou
criticar políticos e governantes de qualquer partido.
Isso quer dizer que se um político
do PSDB, por exemplo, fizer algo de vocês discordam, vocês também irão para a
rua protestar?
Rogerio Chequer: Sim,
mas é preciso tomar cuidado. A quantidade de coisas erradas que os governantes
fazem é tão grande hoje que, se começarmos a atacar a tudo e a todos,
perderemos o foco. Para ficar claro: de onde devemos começar a mudança? De
cima, é o que achamos. Como diz o ditado: escada se lava de cima para baixo.
Depois, quase todos os nossos colaboradores têm uma atividade profissional,
precisam trabalhar oito, dez, doze horas por dia. Ninguém aqui vive disso.
Temos de ter foco.
Como se organiza uma mobilização
como a de domingo [dia 15 de março] em São Paulo?
Rogerio Chequer: Pode
ser difícil de acreditar, mas não temos uma estratégia azeitada. O que temos
são canais em todas as redes sociais. No WhatsApp, por exemplo, o Vem pra Rua tem um grupo que reúne mais
de 8.000 integrantes. Essas pessoas acabam repassando as informações aos seus
amigos, por meio de seus próprios grupos, e a partir daí a coisa vai se disseminando.
No Facebook, o indicador mais interessante para medir o nível de engajamento
das pessoas é o total dos que curtiram, comentaram ou compartilharam o conteúdo
do Vem pra Rua: na semana anterior ao
15 de março, 1 milhão de pessoas fizeram ao menos uma dessas três coisas. E,
quando elas fazem isso, esse material aparece na timeline de alguns dos seus
amigos. Então, pelas nossas contas, o chamado do Vem pra Rua atingiu mais de 11 milhões de pessoas só nessa rede
social, o que ajuda a explicar por que tanta gente foi às manifestações.
Como vocês se financiam?
Rogerio Chequer: É
importante esclarecer que nenhum dos cerca de cinquenta colaboradores do Vem pra Rua recebe um centavo. Além
disso, os custos de uma manifestação são muito mais baixos do que você pode
imaginar. Na de 15 de março, gastamos em torno de 20.000 reais. Só com a venda
de camisetas arrecadamos perto disso. Metade desse valor foi para o aluguel de
um caminhão de som ultrapotente e o resto foi gasto com cartazes, faixas,
balões. É muito menos do que todo mundo imagina. Esse equívoco de avaliação é
um dos motivos que fazem com que muita gente fique tentando encontrar um
partido ou uma organização empresarial por trás do nosso movimento. Não tem.
Vocês hoje são contra o impeachment.
Podem mudar de ideia no futuro?
Rogerio Chequer: Não
somos contra o impeachment. O correto é dizer que não somos a favor dele agora.
É algo que ainda não tem sustentação jurídica, já que até agora não se
conseguiu provar o envolvimento da presidente no petrolão [escândalo de
corrupção na Petrobrás]. A possibilidade sempre vai estar no nosso radar, mas
não queremos desperdiçar a energia das pessoas. Mesmo porque, se tratarmos o
impeachment como meta e ele não ocorrer, a sociedade vai ficar com a impressão
de que não adianta fazer as coisas. Temos assuntos mais urgentes: um dos mais
importantes é fiscalizar para que todo os processos de investigação e denúncia
dos políticos e de todo mundo que fez mal uso do dinheiro público sejam feitos
sem interferência, sem pressões. Precisamos começar a mudar o Brasil mesmo com
esse governo que está aí.
Fonte: Revista VEJA
– Edição 2418 – Ano 48 – nº 12 – 25 de março de 2015 – Páginas 17, 20-21
(edição impressa).
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