NÃO É POR AÍ...
Salvar o navio
Celso Ming
Os empresários querem
ação para salvar a indústria.
Mas sem antes salvar a
economia não é possível a indústria.
Lideranças de 39 entidades representativas da Indústria e
das centrais sindicais redigiram um documento intitulado Manifesto da Coalizão Capital-Trabalho, em que reivindicam políticas de socorro para a indústria e o respeito aos
direitos trabalhistas.
O foco é a desidratação
da indústria por quatro fatores principais:
·
juros altos demais,
·
câmbio valorizado (dólar barato),
·
excessiva carga tributária e
·
impostos cumulativos (em cascata).
Os signatários do manifesto reivindicam uma política que dê
horizonte à indústria nacional.
Os obstáculos e as travas de que se queixam industriais e
sindicalistas são reais. A indústria perdeu competitividade por todos esses
problemas e por outros não mencionados, como:
·
a infraestrutura
ruim e cara,
·
a falta
de reformas [p. ex.: fiscal],
·
excesso
de burocracia,
·
corrupção,
·
Justiça
lenta demais e
·
falta de
acordos comerciais que abram espaço para o produto industrial no exterior.
No entanto, de nada adianta derrubar os juros, puxar o
câmbio e desonerar a indústria se antes o problema de base não for equacionado.
E o problema de base é o da enorme
fragilidade dos fundamentos da economia. Nenhuma política industrial se
mantém de pé e nenhum crescimento econômico será sustentável se as contas públicas estiverem tão
desarrumadas como estão agora.
Não dá para dizer,
por exemplo, que o primeiro mandato da presidente Dilma não teve política
industrial:
·
Os juros foram afundados na marra,
·
o crédito avançou cerca de 75% nesses quatro
anos por indução do governo,
·
as despesas públicas foram fortemente expandidas
para criar mercado interno,
·
os impostos sobre vendas de veículos, de
aparelhos domésticos e de materiais de construção foram reduzidos,
·
o ex-ministro Guido Mantega determinou ampla
desoneração das folhas de pagamentos que custou R$ 25 bilhões por ano,
·
o governo criou reservas de mercado e exigências
mínimas de conteúdo local para setores considerados estratégicos.
·
Além disso, a política alfandegária continua
altamente protecionista, e
·
as tarifas de insumos importantes para a
produção, como energia elétrica e combustíveis foram deliberadamente achatadas.
Tudo isso não foi pouca coisa. E com que resultado. A
indústria está arriada como todos estão vendo. Por trás do fracasso está um fracasso maior: a desarrumação das contas
públicas, que atirou a inflação para acima dos 7% ao ano, o que obriga o
governo a fazer agora essa enorme operação de aperto de cintos e de
distribuição de contas à sociedade.
A partir do momento em que os fundamentos da economia
voltarem à ordem e se puder dispensar o concurso dos bombeiros, as incertezas
se desvanecerão e o setor produtivo terá chão firme para planejar seus negócios.
Além disso, haverá campo para que o governo federal, seja de que orientação
for, possa definir uma política industrial com um mínimo de realismo.
O manifesto em
questão padece de um problema de base. O de não levar em conta os problemas
originais da economia. Desfila reclamações, como o passageiro que reclama
da água que entra por debaixo da porta de sua cabine, mas ignora o rombo no
casco do navio. A hora é de salvar o navio e não de enxugar a água com rodo e
pano de chão.
CONFIRA
Esta é a evolução das vendas do setor de veículos.
Desabando
Fevereiro foi um mês de queda livre nas vendas de veículos.
As estatísticas nesta quinta-feira divulgadas pela Anfavea, a instituição do setor, mostram que, no mês passado, o
licenciamento de veículos foi 26,7% menor do que em janeiro e 28,3% menor do
que em fevereiro de 2014. A redução do poder aquisitivo causada pela inflação,
a antecipação às compras por força da redução do IPI e o comportamento
conservador do consumidor explicam a maior parte dessa fase ruim.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Economia – Sexta-feira, 6 de março de 2015 – Pg. B2 – Internet:
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