PEDOFILIA NA IGREJA - UM CASO EXEMPLAR!
Papa adota tom mais enérgico em relação aos casos de
pedofilia
Anthony Faiola
THE
WASHINGTON POST
Apesar da mudança de
padrão na Igreja, pontífice vem nadando contra a corrente; nas dioceses locais
da Itália às Filipinas, ele enfrenta a burocracia tenaz e letárgica que ainda
comete alguns dos mesmos erros graves do passado
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Pe. Silverio Mura - Diocese de Nápoles (Itália) |
Diego era um garoto tímido nas aulas do padre Silverio Mura: com 13 anos de idade, pele cor de oliva e
bonito, Diego passava seu tempo livre dentro de casa assistindo a desenhos
animados. Ia para a escola sozinho, na sombra do monte Vesúvio [região de Nápoles,
na Itália], parando primeiro para rezar diante da estátua da Virgem Maria na
frente do edifício onde morava. "Ela era minha protetora" disse ele.
Mas nada e ninguém
protegeu-o contra Mura - o professor de religião que, num certo dia em
1989, convidou o então adolescente para ir ao seu pequeno apartamento na Rua
Irmãos Grimm após a aula. Lá Diego, hoje com 39 anos, disse que Mura
persuadiu-o a beijá-lo. Alguns dias depois, convidado a voltar ao apartamento,
sofreu o primeiro do que descreveu como centenas de episódios de abuso sexual
que transformaram um menino calmo que sonhava ser piloto num adulto
profundamente perturbado.
Depois de finalmente vir à tona em 2009, o caso de Diego foi esquecido. A diocese local transferiu Mura em 2012 para
uma escola onde ele tinha acesso regular a crianças de 14 anos. Foi quando Diego, que continua católico, deu um
passo decisivo - escreveu diretamente ao
papa Francisco.
Seu caso se tornou um dos vários em que o papa interveio
pessoalmente para ajudar vítimas de abuso no que o Vaticano qualifica como mais
um avanço no sentido de mudanças determinadas pelo papa conhecido por liderar
por meio do exemplo. Segundo o Vaticano, o
papa ao saber do caso de Diego ordenou uma investigação oficial pela Igreja que
poderá finalmente levar à expulsão de Mura. Por causa da lentidão dos
processos legais na Igreja, poderá levar um ano ou mais para se estabelecer sua
culpa ou inocência.
Mas mesmo com Francisco adotando um tom mais enérgico num
assunto que prejudicou severamente a reputação da Igreja Católica antes da sua
nomeação, às vezes ele se vê nadando contra a corrente. Nas dioceses locais da
Itália às Filipinas, Francisco vem enfrentando uma burocracia tenaz e letárgica
que ainda comete alguns dos mesmos erros graves do passado.
É isto que Francisco vem tentando mudar, dizem as
autoridades, e alguns casos exemplificam esse esforço mais do o de Diego. Mura
não quis fazer comentários por meio de um representante da diocese de Nápoles,
que também recusou-se a dizer se o padre negou as acusações contra ele.
"Eu diria que o
papa é muito sensível a todos os tipos de sofrimento e certamente está enviando
uma mensagem indireta" nesta situação envolvendo Diego, disse uma
autoridade do Vaticano. "Esses
casos não serão tolerados".
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Papa Francisco |
Mancha
Antes da ascensão do primeiro papa latino-americano há dois
anos, nenhum assunto prejudicou mais a
Igreja Católica do que o abuso sexual por parte de padres. Em 2010 - anos
após uma onda de escândalos que atingiram a Igreja nos Estados Unidos, novas revelações de abuso ocorreram em países
incluindo Alemanha, Holanda e Malta. As consequências desses fatos, alguns afirmam, teriam levado
à aposentadoria inesperada do papa Bento XVI em 2013.
Chegou então o papa Francisco, clérigo argentino não
conhecido por se dedicar ao assunto. Como cardeal e, antes disto, arcebispo de
Buenos Aires ele rejeitou um pedido para se reunir com pelo menos um grupo de
vítimas e não teria atendido apelos do Vaticano para estabelecer as diretrizes
para tratar das acusações de abuso.
Mas com o surgimento de muitos casos, incluindo de
homossexualismo, Francisco, com 78 anos, parece ter mudado radicalmente como
Papa. No ano passado ele escreveu aos
bispos de todo o globo exigindo tolerância zero em casos de abuso. Criou
uma comissão encarregada de amplas reformas nas leis da Igreja, com mudanças
que incluem penalidades mais severas
para bispos que deixarem de tratar com rapidez as alegações ou reportar casos
informados para as autoridades civis.
Em setembro, o Vaticano colocou seu antigo embaixador na
República Dominicana, Josef Wesolowski,
sob prisão domiciliar e iniciou os primeiros processos criminais contra essa
autoridade da igreja acusada de abusar de menores. No ano passado, pela
primeira vez a Igreja deu um instantâneo da sua condução interna de casos de
abuso, dizendo que entre 2004 e 2014,
848 padres foram expulsos e outros 2.575 receberam sentenças menores.
Num punhado de casos, dizem as autoridades do Vaticano, o
papa foi mais longe - interferindo pessoalmente. O papa conversou com um homem
de Granada, na Espanha, que
escrevera para ele falando de abusos que
sofreu quando era coroinha da Igreja, incluindo retiros de sexo numa vila
na colina envolvendo 10 padres. Em novembro o papa Francisco disse ter ordenado
ao bispo local para cooperar no caso.
"A verdade é a
verdade e não devemos ocultá-la", disse o pontífice a jornalistas.
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Localização da cidade de Nápoles - Itália |
Peso
das ações papais
Numa organização religiosa considerada uma espécie de
ditadura benigna, as ações pessoais do papa têm grande peso. Mas em alguns
casos notáveis o Vaticano ainda relutou em cooperar plenamente com as
autoridades civis e alguns grupos de vítimas continuam desaprovando fortemente
a maneira como o papa vem lidando com os casos de abuso sexual.
Francisco, como
ocorreu com Bento XVI antes, não tem agido de modo decisivo contra bispos
acusados de ocultar episódios de abusos em suas dioceses, e tem adotado soluções consideradas mais de fachada,
eles afirmam. E citam casos alarmantes, por exemplo, em que dioceses locais
deixaram padres abusivos no ministério. O grupo ativista BishopAccounbability.org recentemente escreveu uma carta às
autoridades superiores da Igreja, perfilando vários clérigos acusados nas
Filipinas que, segundo o grupo, ainda têm acesso fácil as crianças. Somente o simbolismo, insistem os críticos,
não resolverá a questão.
"Envolver-se em um ou dois casos é uma estratégia de
relações públicas, não uma solução, disse David
Clohessy, presidente do grupo SNPA
de sobreviventes de abusos nos Estados Unidos.
Mas para aqueles em cujos casos o papa se envolveu, é quase
um milagre.
"Você sabe o que é, depois de tentar ser ouvido, ter o
papa, finalmente o próprio papa, a escutá-lo? indagou Diego em seu apartamento
em Nápoles, cercado pela esposa e o filho mais velho. Para proteger sua
identidade, ele utilizou o pseudônimo, Diego, em homenagem ao seu ídolo Diego
Maradona, "Finalmente senti que podia caminhar sem ter medo. Se conseguir
ver o papa hoje, eu lhe direi ‘obrigado’, muito obrigado por sua atenção".
História
Numa manhã de outubro de 2009, Diego estava na cidade de Caserta,
cerca de 50 quilômetros ao norte de Nápoles, trabalhando na última de uma série
de empregos que tentou durante anos. Ele perdera o último emprego alguns meses
antes depois de ameaçar um colega de trabalho em um dos seus ímpetos agressivos
que às vezes o arrebatam durante toda a sua vida adulta.
Ele achou que havia superado o trauma da infância, mas
naquele dia de outubro "tudo me afetava", disse ele. E repentinamente
sofreu uma síncope no trabalho.
Estudos feitos no hospital, segundo psiquiatra de Diego, Alfonso Rossi, não encontraram nenhuma
razão para suas dores no abdômen e o vômito frequente. Mas as sessões de
terapia revelaram a supressão de quatro anos de alegado abuso sexual por um
homem que atormentou Diego durante toda a sua vida adulta.
Nas sessões de terapia com Rossi, Diego reviveu aqueles anos
em todos os detalhes. Lembrou-se do divã cinza que, segundo ele, o padre usava
para bloquear a porta do seu quarto antes do ato sexual. O padre frequentemente o fazia assistir a filmes de horror, primeiro
"assim eu ficava apavorado e mais obediente".
Diego abandonou a escola 18 meses depois que os abusos
começaram, mas continuou a visitar o padre. "Era como um feitiço. Não conseguia me afastar e não podia contar
a ninguém", disse Diego que
toma cinco remédios por dia para depressão e ansiedade. "Ele era um
padre. Não podia dizer não".
O seu contato sexual acabou quando ele completou 17 anos.
Mas foi substituído por um outro adolescente.
Os pais de Diego, que nada sabiam da situação na época,
insistiram para Mura realizar o casamento do filho. Fotos revelam o rosto
taciturno do noivo quando ele e a ela noiva posaram ao lado de Mura, em roupas
brancas gloriosas. Diego sentiu a mesma frustração quando o mesmo padre batizou
dois dos seus três filhos. Diego passou por tudo isto sem dizer nada,
paralisado pela vergonha.
Quando contou a verdade a seus pais logo após ser
hospitalizado, sua mãe se culpou. Anos
antes, os pais de Diego sempre recebiam o padre em sua casa para jantar,
orgulhosos com a atenção para com seu filho por uma figura respeitada na Igreja.
"Como não
notei?", ela indagou. "Meu filho costumava se refugiar em seu
quarto, fechar a porta e nunca sair. O padre Mura me dizia que, "é por
causa da idade. Isto acontece com todos os meninos'. E acreditava nele,
hipnotizada. Não consigo entender".
Num encontro dramático em 2010, Diego se defrontou com Mura
na igreja em Nápoles onde ele ainda era padre. Um vídeo mostra Mura em seu
escritório, uma cópia dos famosos querubins de Rafael sobre sua mesa, nunca
admitindo diretamente - tampouco negando - as acusações lançadas contra ele por
Diego. Mura é ouvido procurando
dissuadir Diego de procurar um terapeuta ou "falar com as pessoas".
"Confie e Jesus. Ele é o maior psiquiatra" disse o
padre.
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Crescenzio Sepe - Cardeal-Arcebispo de Nápoles desde maio de 2006 |
Com ajuda da mãe, Diego
escreveu uma carta à mão para a diocese de Nápoles em maio de 2010, pedindo uma
audiência para discutir o assunto. Enviou em seguida e-mails, mas jamais foi
contatado. Um ano depois o psiquiatra Rossi escreveu pessoalmente para a
diocese e finalmente conseguiu um encontro entre Diego e um bispo local em
outubro de 2011. Diego disse ter informado em detalhes o bispo sobre a história
de abusos de Mura, mas nenhuma medida
foi tomada para responsabilizar o padre.
Em maio de 2012 Mura foi transferido da sua paróquia para
uma escola vizinha e, de acordo com autoridades da escola, trouxe consigo uma
carta da diocese atestando oficialmente que ele estava "qualificado"
para trabalhar como professor. Ali ele trabalhou durante cerca de um ano, antes
de ser transferido para "um lugar para padres como ele" segundo disse
um representante da diocese.
Debaixo
do tapete
Diego disse sentir que a diocese [de Nápoles] estava
efetivamente jogando suas acusações para debaixo do tapete. Foi à polícia local
que se mostrou atenciosa, mas incapacitada de dar prosseguimento ao caso face
aos prazos da lei de prescrição. Finalmente
ele escreveu ao papa, em quatro de março do ano passado. Vinte dias depois
uma resposta chegou, dizendo que Francisco oraria por ele e, mais importante,
seu caso seria "levado à atenção da autoridade competente".
Em novembro Diego
recebeu uma telefonema da diocese dizendo que uma investigação oficial fora
iniciada. Mas durante uma reunião com uma autoridade da diocese em
dezembro, ele pergunto por que uma investigação fora de repente iniciada.
Segundo Diego, o investigador respondeu dizendo "Por causa do Santo Padre".
Fonte: ESTADÃO.COM.BR
– 17 de março de 2015 – 03h00 – Internet: clique aqui.
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