CRIANÇAS ESPIONADAS - ERA SÓ O QUE FALTAVA!
Agente Barbie
Susan Linn*
Boneca que capta (e
usa) o que as crianças lhe falam
viola muito mais que a
privacidade
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Boneca "Hello Barbie" - pode ouvir conversas das crianças e da família e "falar" com as mesmas |
O plano da Mattel
de lançar uma boneca Hello Barbie
conectada por Wi-Fi neste outono americano é uma grossa violação da privacidade
de crianças e famílias. A boneca usa um
microfone embutido para captar tudo que a criança diz a ela e tudo que é dito
por qualquer um ao alcance do microfone. Essas conversas serão transmitidas
para servidores em nuvem para armazenamento e análise pela Toy Talk, a parceira de tecnologia da Mattel. A Mattel diz que “aprenderá tudo que as crianças gostam e não gostam” e
“enviará dados” de volta às crianças, transmitidos via alto-falante embutido na
boneca.
O fato de Mattel
e Toy Talk estarem se envolvendo no
que resulta em vigilância corporativa de como as crianças brincam com suas
bonecas deixa crianças e famílias vulneráveis a violações potenciais como
quebra de segurança, publicidade insidiosa e outras. Como psicóloga que passou
anos engajando crianças em terapias com brinquedos sei que as brincadeiras
delas com bonecas, marionetes, bichinhos de pelúcia e outras figuras são
poderosamente pessoais. Quando crianças
falam com brinquedos, elas podem revelar segredos, trabalhar experiências
perturbadoras e explorar seus sonhos e esperanças. Conversas com brinquedos
são janelas para seus corações e mentes. Em geral, as únicas pessoas além dos
pais que entreouvem crianças em conversas sérias com seus brinquedos são outros
membros da família, professores, ou cuidadores - pessoas cujo principal
interesse é o bem-estar da criança. Mas
as crianças que falarem com uma Hello Barbie serão bisbilhotadas por uma corporação cujo interesse exclusivo nelas é
financeiro.
A Mattel tranquiliza os pais dizendo que eles receberão
e-mails com destaques das conversas das crianças. É aí, no entanto, que as
coisas ficam preocupantemente complicadas.
A política de privacidade da boneca ainda não foi divulgada,
mas não consigo imaginar uma que me tranquilize sobre uma corporação ouvindo
crianças brincar. Os pais que comprarem
uma Hello Barbie estarão dando acesso
à Mattel e à Toy Talk às atividades mais íntimas das crianças, além de
conversas privadas da família. Será que os relatórios aos pais detalharão
brigas entre irmãos, ou revelações de uma criança sobre a família que poderiam
ser mal interpretadas? As crianças em privado às vezes encenam cenas violentas
ou sexuais com suas bonecas que poderiam aborrecer ou preocupar alguns pais.
Como será que a Mattel lidará com o informe desse tipo de conversa?
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SUSAN LINN Autora deste artigo - Psicóloga |
Brincadeiras de
crianças são com frequência reveladoras de como elas experimentam o mundo, mas
não são necessariamente uma descrição precisa dos fatos. O pior cenário são
crianças confiando a bonecas que estão sendo abusadas, ou suas brincadeiras
sugerirem que elas estão sendo maltratadas. O que a Mattel fará com essa
informação? Professores e cuidadores que testemunham revelações desse tipo são
profissionais treinados e obrigados a reportar suspeitas a serviços de proteção
à infância. A Mattel e a Toy Talk farão isso? O pensamento de que crianças podem estar revelando que estão em perigo
e a Mattel sabe e não faz nada é assustador. Igualmente assustadora é a
possibilidade de que a Mattel ou alguma outra corporação tenham o poder de
informar uma família com base na vigilância do que crianças dizem a uma boneca
numa brincadeira ou numa representação incorreta de interações familiares.
Hello Barbie não é o primeiro brinquedo a incluir essa
tecnologia, mas é a primeira megamarca a fazê-lo. Por enquanto, a IBM e outras companhias planejam lançar
brinquedos similares. É por isso que a Campaign
for a Commercial-Free Childhood (Campanha por uma Infância Sem Comerciais)
está pedindo que Mattel e Toy Talk parem a produção de Hello Barbie. Até e a menos que
políticas regulatórias incluam essas novas tecnologias de brinquedos
vigilantes, o único freio disponível é uma discordância pública audível e
visível. A julgar pela reação à cobertura da mídia da capacidade de
bisbilhotice de Hello Barbie, pais de
todo o mundo estão estarrecidos com o fato de fabricantes de brinquedos poderem
escutar enquanto crianças expõem seus sentimentos mais íntimos a seus
brinquedos. Só podemos esperar que Mattel, Toy Talk e outras companhias
estejam ouvindo - e façam a coisa certa cancelando a produção de suas Hello Barbies bisbilhoteiras.
Traduzido do inglês por Celso Paciornik.
*
Susan Linn é psicóloga e diretora-executiva da Campaign for a Commercial-Free Childhood (trad.:
Campanha por uma Infância Livre de
Comerciais).
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Suplemento ALIÁS – Domingo, 22 de março de 2015 – Pg. E4 –
Internet: clique aqui.
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