''Mais Evangelho'': uma contribuição para o próximo Sínodo
Comunidade Pastoral
“Crocifisso Risorto”
Saronno
– Arquidiocese de Milão (Itália)
Publicamos aqui uma contribuição aberta da comunidade
pastoral Crocifisso Risorto [trad.: Crucificado Ressuscitado], de Saronno,
na arquidiocese de Milão, na Itália, para a XIV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, em outubro
deste ano.
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Vista da fachada da Catedral de Saronno - Itália |
Eis o texto.
Ainda em preparação para a III Assembleia Extraordinária do Sínodo, que se celebrou em 2014, a
nossa Comunidade Pastoral tinha elaborado uma ampla e articulada contribuição,
que foi enviada para a Secretaria do Sínodo. Parece-nos que muitas das
observações desenvolvidas naquela sede ainda são válidas, mesmo defrontando-nos
com a Relatio Synodi e com os novos Lineamenta "A vocação e
missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo".
Para ler, baixar ou imprimir esse
documento preparatório ao Sínodo sobre a Família, clique aqui.
Digamos apenas que, agora que as discussões sobre as
questões (mesmo aquelas relatadas por nós) foram concluídas, parece-nos necessário que o próximo Sínodo
se concentre em novos e mais corajosos direcionamentos pastorais gerais e,
de modo claro e preciso, ao menos em alguns dos nós mais importantes, já
abundantemente identificados. Seria realmente decepcionante se – depois de
tanto trabalho e dois Sínodos – a situação eclesial marcasse o passo,
permanecendo em posições amadurecidas em um contexto histórico que já não
existe mais.
Por esses motivos, parece-nos que seja o caso – desta vez –
de sermos muito mais sintéticos e de não nos disperdermos em uma resposta minuciosa
às 46 perguntas dos Lineamenta. A
estrutura de um documento articulado e complexo (certamente necessário) talvez
não será nem mesmo a tarefa do próximo Sínodo, mas deverá ser confiada ao
próprio papa. Ainda mais, então, seria pleonástico e presunçoso de nossa parte
desenvolver uma reflexão abrangente, na qual, além isso, o que parece ser decisivo
correria o risco de ficar "escondido" e de acabar em segundo plano.
Como
refletimos juntos?
O Sínodo implica uma discussão coral e comunitária, uma
escuta atenta e coletiva, um verdadeiro diálogo: não uma copresença de
monólogos, que seria mais um "diálogo entre surdos".
Apreciamos a transparência ao dar a medida exata dos
consensos para cada passagem da Relatio
Synodi. No entanto, do debate extrassinodal e de algumas simplificações jornalísticas,
pareceriam se defrontar:
·
uma linha
de "mangas largas" (para não dizer "laxista") e
·
uma linha
"rigorosa" (que considera inaceitável a primeira, porque
modificaria partes intocáveis do depósito da fé).
Parece-nos que uma abordagem desse tipo é infrutífera e,
embora transparente, bem abaixo daquilo que hoje é exigido pela história, não à
altura dos grandes desafios lançados à consciência eclesial pelos problemas
mais vivos da humanidade contemporânea.
Portanto, aquilo que, com humildade filial, pedimos aos padres sinodais é que fujam
dessas contraposições conservadores/progressistas ou entre aqueles que defendem a misericórdia e aqueles que defendem a
verdade. Se verdade e misericórdia devem necessariamente se encontrar
(Salmo 85 [84]), parece-nos evidente que a
verdade sem misericórdia não é cristã, é idolátrica (1Cor 13,2). Do mesmo
modo, a misericórdia sem verdade sobre o
pecado não pode sequer ser concebida como misericórdia (Rm 5, 20).
Acima de tudo, parece-nos necessário limpar o campo de um
grave equívoco. Quem defende
perspectivas de misericórdia certamente não quer diluir o Evangelho, não quer
tornar vã a Cruz, não pensa na Graça "barata". No máximo, o
contrário é verdadeiro.
Não é menos Evangelho
o de que se precisa. É mais Evangelho. É entrar mais profundamente na
compreensão do Evangelho e nos modos reais de vivê-lo hoje. Também podemos
chamá-lo de "radicalismo
evangélico".
Em todo o caso, todos – seja qual for a ideia que se tenha
em mente – somos chamados a uma conversão mais radical à lógica evangélica. O
Evangelho indica a todos o caminho amoroso para crescer juntos como Igreja: a Igreja é um organismo vivo, a Igreja não
está morta e, como organismo vivo, a Igreja cresce ao longo do tempo.
Um ser vivo não tem as mesmas aparências físicas quando
criança, quando adulto, quando idoso: mas o seu DNA é sempre o mesmo (mesmo que
não se veja). Assim é para a Igreja: não
é que, se a Igreja de hoje cresce e muda, isso signifique que a Igreja de ontem
estava errada. A Igreja de ontem fazia aquilo que, naquele momento, era
justo (e que era, por sua vez, um crescimento em relação a um momento histórico
anterior).
Mas não podemos parar: estaríamos mortos e não vivos. Obviamente, o nosso DNA (o depósito da fé)
permanece sempre o mesmo. Mas, para a Igreja, crescer significa ser ainda mais
fiel ao Evangelho.
Mais Evangelho. Mais Evangelho.
A
luminosa beleza do matrimônio cristão
Quem de nós vive o matrimônio cristão testemunha a graça
recebida e a beleza desse sacramento, com suas notas fundamentais (monogamia,
fidelidade, indissolubilidade, abertura à vida). Acreditamos que isso deva ser
claramente expressado, recorrendo de mãos abertas à grande Tradição da Igreja.
Ninguém quer mudar as
notas fundamentais do matrimônio sacramental. O trabalho de reflexão se
desenvolve, por um lado, ao ver como conjugar tais notas no nosso tempo (por
exemplo, a abertura à vida e a paternidade responsável, com a consequente
regulamentação da procriação) e, por outro, em sentido arquitetônico, com uma
luminosidade central, que, depois, também pode ir diminuindo e se degradando
(luminosidade gradual), sempre para realizar a reconciliação (cuja forma
eclesial máxima se tem na Eucaristia).
Certamente, é bom que nos detenhamos para refletir sobre as
lógicas de mal, de maldade, de divisão, de violência e de pecado que também
podem se colocar na experiência da sexualidade, do matrimônio, da família
(sabemos bem, por exemplo, que a família
pode ser, em alguns casos, lugar antievangélico e constritivo à liberdade).
É preciso um olho límpido que olhe, com coragem, para a verdade da
fenomenologia contemporânea do mal e da maldade sobre a família e na família.
Mas o trabalho de reflexão também deverá atacar outro
aspecto que antes indicamos como "luminosidade gradual". Explicamos o
que queremos dizer. Não há nada de mais
claro no Evangelho do que a afirmação da pobreza e a condenação da riqueza.
Não conseguimos imaginar o que Jesus podia dizer para ser mais explícito:
"Ai de vós, ó ricos! É mais fácil um camelo (ou uma corda) passar pelo
buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus! Vocês não podem
servir a Deus e às riquezas!". O
ensinamento evangélico em favor da pobreza e contra a riqueza é muito mais
amplo, preciso e forte do que a atestação da indissolubilidade matrimonial.
Certamente, a Igreja manteve no seu centro a luminosidade de
tal ensinamento (basta pensar nos religiosos que professam o voto de pobreza,
mas também e principalmente a presença de tantos pobres entre os batizados):
aos pobres é pregada a Boa Notícia! Mas a Igreja, desde a idade dos Padres, se
perguntou: há salvação para o rico? Qui
dives salvetur?
E, com uma práxis aparentemente diferente do rígido e
peremptório ditado evangélico também acolheu ricos, para ensiná-los a se
separarem interiormente das posses. Em suma, há uma luminosidade central, mas
também um halo eclesial, verdadeiro, de gradação de tal luminosidade.
Se não tivermos um
coração de pedra, deveria aparecer evidente a hipocrisia farisaica de
considerar, com diferentes severidades, as referências às notas do matrimônio e
à pobreza. Se quisermos colocar proibições e limitações de
inadmissibilidade à Eucaristia, devemos começar pelos ricos.
Reiteramos com força, a graça e a beleza do matrimônio
cristão, nas suas notas sacramentais. Assim como a graça e a beleza do
ensinamento evangélico sobre a pobreza.
Mas perguntamos: há salvação para aqueles que são infiéis a
qualquer uma de tais notas sacramentais matrimoniais? Pode haver, contudo,
âmbitos eclesiais de reconciliação? Há salvação para o rico?
Do
ato em si para o "si" em ato: o olhar personalizado da pastoral
Não pedimos que a porta estreita seja substituída pela porta
larga. Não pedimos que, da proibição da
Eucaristia aos divorciados em segunda união, passe-se para um acesso geral.
Hoje, é difícil dizer com absoluta precisão o que entra e o
que sai do coração do homem (Mt 15,17-20). Nas sociedades de 50 anos atrás,
menos globalizadas, multiculturais e multirreligiosas, podia haver
comportamentos estereotipados, era mais fácil prever costumes e atitudes em uma
dinâmica de massa.
Hoje não é mais assim, a
realidade se fragmentou. Para compreender os seres humanos, é preciso olhar
nos seus olhos, ao seu perfil individual, de homem ou de mulher, de criança ou
de adulto, de italiano ou de estrangeiro, com o seu nome e sobrenome. Voltam os rostos: o singular e irrepetível
rosto de cada um.
Por isso, pedimos uma decisão clara e límpida sobre essa
abordagem. E não em geral, mas em referência
às questões mais dolorosas e difíceis. Pensamos nos divorciados em segunda
união: cada caso tem nuances diversas; pode haver graves maldades, graves
pecados cometidos, ou não. Uma
casuística geral não serviria. É preciso a personalização do olhar pastoral.
Pedimos, com serena franqueza, que, ao menos sobre algumas
questões, haja um crescimento de compreensão, mais Evangelho, que abra novas
perspectivas pastorais, passando de
rígidas normais gerais a abordagens individualizadas (e de casal) mais
delicadas e personalistas, com a possibilidade de entrever e construir (na
Igreja, em comunhão com os pastores) caminhos de reconciliação que tenham como
meta, como horizonte, a Eucaristia.
Indicamos algumas dessas questões (não como uma mera
exemplificação, mas porque, em nosso responsável discernimento, parecem ser as
mais urgentes):
·
A determinação do método eventual a ser usado,
pelos cônjuges, para a regulação dos nascimentos;
·
A pastoral dos divorciados em segunda união;
·
A pastoral para as pessoas homossexuais ou
transexuais.
"Nem
eu te condeno"
Com a alegria do Evangelho no nosso coração, dóceis à
orientação do Espírito, saberemos, seguramente, abrir caminhos de libertação e
de salvação para os homens e para as mulheres do nosso tempo, para os pobres,
sobretudo, e para aqueles que sofrem, em condições familiares difíceis.
Aos padres sinodais, ao papa, aos pastores que podem
desligar ou ligar, nós, com afeto e confiança, asseguramos a nossa oração.
Sabemos que as escolhas a serem feitas não são fáceis,
porque precisaram de um discernimento
atento. Mas esse discernimento, em
grande parte, já aconteceu: nas Igrejas locais e no Sínodo de 2014.
Trata-se, agora, de recolher os seus frutos e de nos
confirmarmos como verdadeiros discípulos d'Aquele que é senhor do sábado (Mt
12,1-8).
Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto.
Fonte: Instituto
Humanitas Unisinos – Notícias – Terça-feira, 10 de março de 2015 –
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