DEBATE: O CAPITALISMO ESTARIA NO FIM?
S I M
Capitalismo do pós-guerra está no fim
Entrevista
com Wolfgang Streeck
Vanessa
Jurgenfeld
Valor
Econômico
26-12-2014
![]() |
Wolfgang Streeck - sociólogo alemão |
O sociólogo Wolfgang
Streeck, professor do Max Planck,
instituto para o estudo das ciências sociais, em Colônia (Alemanha), tem
opiniões polêmicas sobre o atual momento econômico mundial. Ele acredita que o
sistema capitalista democrático do pós-guerra vem desde os anos 1970 caminhando
rumo ao seu fim e a reestruturação neoliberal dos últimos anos, especialmente
depois da crise mundial de 2008, vem contribuindo para que o seu término seja,
de fato, selado.
Ao contrário de alguns autores que defendem a ideia de que o
capitalismo não pode morrer somente por suas próprias contradições, sendo
necessária uma via para substituí-lo bem como para derrubá-lo, Streeck acredita
que o sistema pode, sim, acabar sem que
algo novo esteja já pronto para substituí-lo ou mesmo que uma nova força o
empurre para o chão.
Em entrevista por e-mail ao jornal Valor Econômico, o sociólogo diz que não vê sinais nas economias, nem mesmo nos Estados Unidos, de uma
recuperação após a crise mundial. E entende que inevitavelmente a criação
de dinheiro pelos bancos centrais, a partir de políticas de afrouxamento
monetário para prover o mercado com liquidez, como as chamadas "quantitative easing", vão causar
bolhas, embora não saibamos exatamente onde. "Se uma recuperação é
possível, ela levará muitos anos para ocorrer, provavelmente uma geração
inteira. Mas não consigo ver essa recuperação. Claro que a questão é o que se
entende por recuperação. Recuperação dos lucros? Ou recuperação dos padrões de
vida daqueles que estão no andar mais baixo da sociedade? Ou é a recuperação
das finanças públicas?", destacou.
Para o autor de livros como "Politics in the age of austerity" (Política nos tempos da
austeridade); "Re-forming capitalism"
(Reformando o capitalismo) e "Buying
Time" (Tempo comprado), o
capitalismo como uma ordem social que levaria ao progresso coletivo está em
condições críticas. O casamento do capitalismo com a democracia está
praticamente encerrado e há algumas desordens em andamento: baixo crescimento,
sufocamento da esfera pública, avanço da oligarquia, da corrupção e da anarquia
internacional.
Wolfgang esteve no Brasil uma única vez, em 1982, para
participar de um congresso da International
Political Science Association (IPSA), no Rio.
Recentemente, ele chegou a publicar um artigo com o ousado
título "Como o capitalismo irá
acabar?", na New Left Review,
em que ressaltou as tendências em andamento que dão significado ao movimento
terminal, visível hoje, segundo ele, mais do que em qualquer outro momento
desde a Segunda Guerra Mundial.
Eis a entrevista.
Quais são os principais aspectos que
o sr. entende que sinalizam que estamos diante de uma crise de longo prazo
desde anos 1970?
Wolfgang Streeck – Vivemos uma sequência de crises:
·
a da inflação global nos anos 1970,
·
a crise do aumento dos déficits públicos nos
anos 1980,
·
e a crise do crescimento da dívida privada nos
anos 1990,
·
culminando na grande quebra do sistema
financeiro global em 2008 e o retorno subsequente, com maior vulto, do
endividamento público.
Paralelo a isso, ocorrem
três tendências de longo prazo interconectadas:
·
declínio do crescimento;
·
aumento da desigualdade; e
·
crescimento da dificuldade de fazer frente ao
pagamento de suas dívidas pelos Estados nacionais e famílias.
Ninguém pode dizer como essas tendências podem ser rompidas.
Adicionalmente a isso temos uma implosão global da regulação social no que diz
respeito a três “commodities fictícias” cruciais: trabalho, natureza e
dinheiro. Esse termo “commodities fictícias” é do Karl Polanyi [1886-1964]. Ele quer dizer com isso que esses três
fatores de produção não podem na verdade ser completamente commoditizados [transformados em mercadorias]. Caso sejam, são
destruídos.
O sr. tem o entendimento de que a
crise de 2008 não é uma crise cíclica do capitalismo.
Wolfgang Streeck – O problema não é cíclico, é linear.
Essas três tendências reforçam uma a outra enquanto a crise entra no seu
estágio seguinte: a criação ilimitada de dinheiro artificial a partir do nada
pelos grandes bancos centrais [como as políticas chamadas de quantitative easing] (1). No que se refere à decomposição da
regulamentação social, isso se deve à globalização econômica - outra tendência
linear - que tomou o lugar quase completamente dos regimes nacionais de
regulamentação.
O sr. classifica esse atual momento
como um período que mostra uma tendência gradual de decadência. Por quê?
Wolfgang Streeck – Tendências são muito mais difíceis de
administrar do que eventos. Quanto mais longas, mais sistêmicas elas se tornam.
Obviamente o que estamos vivendo é um desenvolvimento histórico, reconhecido,
mas insuficientemente capturado pelos economistas do mainstream [corrente principal, pensamento predominante], que falam
em "estagnação secular". Quanto mais antiga a tendência, e essa que
estamos vendo tem pelo menos 30 anos, mais cético você deve ser quanto a
qualquer receita para revertê-la de uma só tacada.
Na sua opinião, portanto, não há
sinais atualmente de que o capitalismo esteja se recuperando?
Wolfgang Streeck – Se uma recuperação é possível, ela
levará muitos anos para ocorrer, provavelmente uma geração inteira. Mas não
consigo ver essa recuperação. Claro que a questão é o que se entende por
recuperação. Recuperação dos lucros? Ou recuperação dos padrões de vida
daqueles que estão no andar mais baixo da sociedade? Ou é a recuperação das
finanças públicas?
Por que o sr. acredita que a
expansão monetária de alguns países, uma política usada por várias nações para
sair da crise, estaria tornando as coisas piores?
Wolfgang Streeck – Todo mundo sabe que isso não pode
continuar indefinidamente. Aumento da expansão monetária tem sido completamente
incapaz de dar combustível ao crescimento. Inevitavelmente, a criação de
dinheiro (pelos bancos centrais) vai causar bolhas, embora não saibamos
exatamente onde. Um bom candidato para isso no momento atual são os mercados de
ações. A produção ilimitada de dinheiro, assim como os problemas anteriores com
a inflação (anos 70), déficit público (anos 80) e dívida privada (anos 90), é
um conserto temporário para conflitos de distribuição altamente fundamentais
associados ao modo capitalista de produção. Assim como as crises antecessoras,
isso vai terminar em outra crise que vai precisar de um novo conserto. A única questão
é: será que os economistas novamente vão achar uma solução?
O sr. tem observado que apesar da
não recuperação da economia real há uma recuperação do sistema financeiro. Qual
é o significado disso?
Wolfgang Streeck – Muitos bancos voltaram a lucrar,
enquanto a maioria das economias nacionais, se não todas, continua a sofrer.
Isso não é surpresa, dadas as grandes quantidades de moeda sendo injetadas no
sistema financeiro pelos bancos centrais, as quais os mercados financeiros
podem usar para especulação, investimento em títulos do governo ou para
transações intrasetoriais que rendem comissões.
O sr. tem dito que o capitalismo tem
que ser encarado como um fenômeno histórico, com um começo e um fim. Estamos,
na sua avaliação, vendo o fim do capitalismo desde os anos 70, mas isso teria
ficado mais claro a partir da crise de 2008?
Wolfgang Streeck – O que está claramente acabando - e
está desaparecendo desde o fim dos anos 1970 - é o capitalismo democrático do
pós-guerra. A reestruturação neoliberal do Estado atualmente em andamento no
mundo da OCDE [Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico] está
para selar esse acontecimento. Além disso, há a questão da futura viabilidade
do capitalismo enquanto modo de produção e enquanto sociedade. Se por uma
sociedade capitalista queremos dizer a capacidade de extrair bens e benefícios
coletivos da "ordem do egoísmo" - o mercado - podemos já estar vendo
seu falecimento.
Por que o sr. acredita, ao contrário
de alguns estudiosos, que as contradições do capitalismo terão poder suficiente
para levar ao seu fim? E quais contradições o sr. considera as mais
importantes?
Wolfgang Streeck – O capitalismo como tal sempre foi uma
ordem social fundamentalmente instável. E também sempre foi contestado. Extrair
bens coletivos da busca privada por interesses materiais particularistas exigia
instituições políticas complexas que o capitalismo foi, e é, incapaz de criar.
O capitalismo precisa de adversários fortes o suficiente para civilizá-lo. Hoje
em dia, nossas sociedades podem ter perdido a capacidade de conter e controlar
os mercados e, assim, tornar o capitalismo socialmente aceitável. As pessoas
apenas podem ser motivadas a trabalhar duro para a acumulação do capital de
outras pessoas se as consequências do mercado puderem ser corrigidas. Lembre-se
de que sob o capitalismo 90% das pessoas se esforçam para o benefício de 10% ou
menos. Tanto as contradições do capitalismo e suas soluções provisórias
pensadas para ele assumem muitas formas diferentes. Parece que os agentes
políticos atualmente estão ficando sem soluções em vários fronts.
O sr. entende que há cinco
"doenças endêmicas" ocorrendo nos dias de hoje. Essas doenças são as
que tornam esse período único?
Wolfgang Streeck – Entendo que há uma coincidência única de:
·
estagnação econômica secular,
·
de concentração oligárquica de renda e riqueza
no 1% do topo,
·
de saque do domínio público,
·
de cinismo e corrupção generalizados e
·
de crescente desordem internacional, em
particular, com o fim dos Estados Unidos como hegemonia mundial.
Claro que as ciências sociais não podem fazer previsões
exatas. Mas o que se pode dizer com certa confiança é que este é um imenso
problema e que lidar com ele vai exigir uma grande dose de boa sorte por parte
dos defensores do capitalismo.
Quais argumentos que o levam a crer
que há uma perda de hegemonia americana? Alguns pesquisadores refutam essa
ideia porque a hegemonia americana estaria assentada não só no poder da sua
economia, mas também no poder militar, ideológico e cultural, ainda muito
fortes.
Wolfgang Streeck – Os Estados Unidos seguem perdendo
guerras territoriais [land war], e o
dólar está, lentamente, perdendo seu status como moeda global.
A recuperação econômica dos Estados
Unidos depois da crise de 2008 - à frente de muitos países europeus, que seguem
em grandes dificuldades - não seria um amostra de que eles ainda detêm a
hegemonia global?
Wolfgang Streeck – Onde está a recuperação? O nível de
produção ainda está abaixo do nível de 2007.
Apesar de prever o fim do
capitalismo, o sr. diria que é difícil prever quando e como isso ocorreria?
Wolfgang Streeck – Um regime social e mesmo uma
sociedade inteira podem deixar de funcionar sem que um novo regime ou uma nova
sociedade estejam prontos para ocupar o seu lugar. Pode existir um longo
período de desordem social antes de algo novo poder se cristalizar. Certamente,
o capitalismo é um fenômeno histórico, significando que ele não tem apenas
começo, mas também um fim. Mas esse fim não necessariamente precisa ser
definido por um comitê central de um partido revolucionário ou por um comitê de
capitalistas globais levando o mundo a um novo e melhor regime. O que eu vejo
chegando é um capitalismo, de forma gradual, cada vez mais predominantemente
incapaz de servir como núcleo de uma ordem social legítima. O resultado
imediato seriam níveis até agora desconhecidos de incerteza, de vidas cada vez
mais governadas pelo acaso e de riscos tendo que ser tolerados por mais e mais
indivíduos em vez de pela sociedade como um todo. O capitalismo, em resumo,
volta a se tornar incivilizado.
Poderia explicar melhor essa ideia?
Wolfgang Streeck – Capitalismo é (era) não apenas uma
economia, mas também uma sociedade. Sociedades, incluindo a sociedade
capitalista, somente podem em casos excepcionais se basear em puro interesse
próprio e coerção; precisam de legitimidade. A legitimidade capitalista depende
de conseguir perseguir interesses privados, em prol de uma maximização da
utilidade privada que ao mesmo tempo também beneficiaria a sociedade como um
todo. Mas esse capitalismo vem se tornando cada vez menos crível.
Ao longo da história o capitalismo
sempre encontrou meio de sobreviver mesmo diante dos problemas...
Wolfgang Streeck – Cada um dos consertos tentados desde
os anos 1970 funcionou apenas por um curto período de tempo, até ter de ser
substituído por algo novo. O projeto neoliberal para a revitalização do
capitalismo quebrou em 2008. Não existe até agora projeto sucessor viável.
Nem mesmo há movimentos
revolucionários capazes de fazer frente ao capitalismo?
Wolfgang Streeck – No que se refere às revoluções, elas
são difíceis de ser organizadas mundialmente. Eu vejo muito descontentamento
social que, entretanto, é improvável que seja capaz de consertar ou derrubar o
capitalismo. E não se esqueça de que consertos pró-capitalistas nem sempre são
agradáveis. Tivemos uma série deles na primeira metade do século XX, e alguns,
como no Chile, na segunda metade. Eles incluíram guerras e regimes ditatoriais
e toda a destruição e devastação que acarretaram. Vamos ver que medidas virão a
seguir, quando o dinheiro dos bancos centrais enfim tiver se tornado demasiado
tóxico.
N
O T A :
( 1 ) -
Quantitative easing (QE), conhecido
também como flexibilização quantitativa é a criação de quantidades
significantes de dinheiro novo (geralmente eletronicamente) por um banco
central. É um jargão para uma ação de política monetária do Banco Central. A
quantidade é expandida maciçamente em moeda de banco central, por isso é
chamado um relaxamento (flexibilização). Um banco central imprime dinheiro para
comprar títulos. Este dinheiro é criado para estimular a economia, em
particular para promover empréstimos pelos bancos. Os bancos centrais usam o
dinheiro criado para comprar grandes quantidades de títulos bancários. Isto
aparece como depósitos e entrega dinheiro novo para os bancos emprestarem.
Estes títulos podem ser títulos do governo, empréstimos comerciais ou até
ações. Quantitative easing geralmente
é usado quando baixar as taxas de juros não é mais efetivo para estimular a
economia e novos empréstimos, porque elas já estão próximas de zero. O inventor
desta estratégia em 2013 renegou e criticou esta estratégia (Fonte: Wikipédia).
Fonte: Instituto
Humanitas Unisinos – Notícias – Quarta-feira, 4 de março de 2015 –
Internet: clique aqui.
N Ã O
O fim do capitalismo...
Antonio Delfim
Netto*
Valor
Econômico
03-03-2015
![]() |
Antônio Delfim Netto - economista |
O ilustre professor Wolfgang
Streeck, atualmente no Instituto Max Plank, foi entrevistado (por e-mail)
pela competente jornalista Vanessa
Jurgenfeld, do [jornal] Valor
Econômico. O resultado foi publicado numa brilhante página deste jornal no
dia 26 de dezembro [matéria acima].
Streeck é um sociólogo, historiador e economista (melhor
apetrechado, na mesma ordem, nas três disciplinas) que sofreu grande influência
do pensamento de Karl Polanyi.
Trata-se do gigante historiador-economista húngaro, que publicou, em 1944, o
hoje clássico "A Grande
Transformação" - ele e Simmel - "A
Filosofia da Moeda" - foram a sensação dos seminários do professor Heraldo Barbuy na FEA-USP, em 1949).
Nele se descreve a expansão da economia de livre mercado (no
período 1830-1930), que ao mesmo tempo em que tornava a produção mais
eficiente, gestava a "mercadização"
da terra, do trabalho e da moeda, criando tensões sociais que acabaram impondo
a volta do Estado, em 1930, para resolver a crise produzida pelo
"laissez-faire".
Sociedade
civilizada depende do jogo entre urna e mercado
Fundamental é sua correta insistência "que toda
economia é embebida nas relações sociais". "A Grande Transformação" é obra datada, mas sua
articulação sobre as consequências da irrestrita mercadização da "terra,
do trabalho e da moeda" mostra os inconvenientes desse processo, os
limites dos mercados completamente desregulados e explica por que eles são
momentos de exceção na história do homem.
Para o professor Streeck, "o capitalismo democrático do
pós-guerra está claramente desaparecendo desde o fim dos anos 70" e
"há a questão da sua futura viabilidade enquanto modo de produção e
enquanto sociedade. Se por uma sociedade capitalista queremos dizer a
capacidade de extrair bens e benefícios coletivos 'da ordem do egoísmo' - o
mercado -, podemos já estar vendo o seu falecimento".
Na entrevista, ele afirma:
1.
"o capitalismo como tal sempre foi uma
ordem social fundamentalmente instável. E, também, sempre foi contestado"
(o que é verdade);
2.
"Extrair bens coletivos da busca privada
por interesses materiais particularistas exigia instituições políticas
complexas que o capitalismo foi e é incapaz de criar" (a história mostra
que é meia verdade, veja o item 4 abaixo);
3.
"O capitalismo precisa de adversários
fortes o suficiente para civilizá-lo" (o que é verdade. O grande
adversário foi criado pela organização política do "trabalho" que
recusou sua completa "mercadização"
e inventou o sufrágio universal [processo
de escolha por eleição com o voto de todos os cidadãos], o mais poderoso
instrumento civilizador dos mercados);
4.
"Hoje em dia, nossas sociedades podem ter
perdido a capacidade de conter e controlar os mercados e, assim, tornar o
capitalismo socialmente aceitável" (há uma contradição, pois no item 2 se
afirma que elas nunca tiveram); e, finalmente,
5.
"Parece que os agentes políticos atualmente
estão ficando sem solução em vários fronts" (mas, se não for a política,
quem nos salvará?).
Mais desconcertantes são as conclusões finais do professor Streeck, que aumentam a probabilidade
de não existir qualquer solução. Já que o capitalismo sobreviveu até aqui,
diante de todas as suas "contradições", a arguta e provocadora
entrevistadora lhe perguntou: "Nem mesmo há movimentos revolucionários
capazes de fazer frente ao capitalismo"?
Ao que ele respondeu: "No que se refere às revoluções,
elas são difíceis de serem organizadas mundialmente. Vejo muito
descontentamento social que, entretanto é improvável que seja capaz de
consertar (sic) ou derrubar (sic) o capitalismo. E não se esqueça de
que consertos pró-capitalistas nem sempre são agradáveis. Tivemos uma série
deles na primeira metade do século XX e, como no Chile, na segunda
metade". "Eles incluíram guerras, regimes ditatoriais e muita
destruição e devastação (e os do
pró-socialismo o que produziram, pergunto eu?)."
Termina enigmático: "Vamos ver que medidas virão a
seguir, quando o dinheiro dos bancos centrais enfim tiver se tornado demasiado
tóxico"...
Streeck deixa no
ar (ainda que rejeite explicitamente) a mesma e melancólica conclusão de todos
os que preveem (ou desejam?) o "fim do capitalismo". O "caos" será superado por um
misterioso caminho "não político":
·
um ente metafísico estabelecerá a
"ordem",
·
que proporcionará a todos a
"liberdade",
·
a "igualdade" e
·
a "eficiência" produtiva...
O problema é que a evidência histórica mostra que esses três
objetivos não são inteiramente conciliáveis e que só podem ser perseguidos por
movimentos políticos de "catraca": a melhora de um (liberdade,
igualdade, eficiência) não pode ser feita à custa da piora dos outros, mas pelo
aperfeiçoamento institucional que os combine num nível superior.
Esse é o papel do
jogo entre a urna (cujo funcionamento depende das instituições que regulam
o voto, do nível da educação da sociedade e do reconhecimento dos limites dos
recursos físicos) e o mercado (cujo
bom funcionamento exige um Estado regulador constitucionalmente limitado).
É assim que nos aproximaremos da sociedade civilizada, sem "curto-circuitos" que sempre a
atrasaram e terminaram mal, porque têm o endereço errado: exterminar esse
camaleão adaptativo cheio de problemas, que chamamos de
"capitalismo"...
*
Antonio Delfim Netto é professor emérito da Faculdade de
Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), ex-ministro da
Fazenda, Agricultura e Planejamento.
Fonte: GGN – O Jornal
de Todos os Brasis – Economia – Quarta-feira, 4 de março de 2015 –
Publicado às 08h38 – Internet: clique aqui.
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