BRASIL: COMO TRANSFORMAR O DESEJO EM REALIDADE?
Em busca de lanterna para novos caminhos
Washington
Novaes
Jornalista
Como transformar o
desejo da sociedade, manifestado nas ruas, em realidade?
![]() |
Manifestante se exprimindo no Domingo, 15 de março de 2015 |
Não faria sentido ser pessimista, otimista, visionário - a
gravidade do momento não comporta. Também seria insensato não sentir profunda
inquietação com os rumos do País, diante do inconformismo manifestado nas ruas.
Mas como transformar o desejo social em realidade, por que caminhos?
Não há dúvida quanto
aos desejos de:
·
"reforma política" e de proibição de
financiamentos de empresas a campanhas eleitorais,
·
de "combate à corrupção",
·
de maior proteção às camadas sociais de menor
renda - todos eles evidenciados com clareza nas ruas de todo o País.
Mas desse ponto em diante estamos ante enormes
interrogações.
Pode-se começar pela
reforma política:
·
qual será?
·
Que se propõe, fora a defesa - por cientistas da
área e por uns poucos políticos - do voto distrital, para aproximar o candidato
dos eleitores em cada município, cada bairro?
·
Será esse o desejo da sociedade, que até aqui
não se evidencia com clareza?
·
Ainda que seja, quem proporá a "reforma
política"? Os atuais partidos? As bancadas no Congresso, todos sob
ataques?
·
Quem quer mudar a realidade política brasileira,
caracterizada na maior parte pela troca de favores entre candidatos e votantes,
pelo progresso material de eleitos e eleitores?
No terreno do combate
à corrupção - em que tem havido alguns avanços, graças principalmente ao Ministério
Público - também será muito difícil daqui por diante, dada a evidência de um sistema consolidado de
troca de favores, principalmente entre grandes empreiteiras, administradores
públicos, governantes, legisladores:
·
Que se propõe?
·
Com que instrumentos legislativos e
operacionais?
·
E que acontecerá - com que consequências - no
mundo empresarial, já atolado nas evidências apuradas e divulgadas?
Também na área do
trabalho e da renda a equação é complicadíssima. Vai-se esbarrar na distribuição da renda no País e na legislação que a circunda, na
resistência dos que se hoje se beneficiam do "sistema", no intrincado
que é a legislação trabalhista (e os vários fóruns que a cercam). Sem falar que
o chamado "equilíbrio fiscal" poderá ser chamuscado no embate entre
beneficiários e pagadores com as eventuais mudanças - e tudo com fortes
repercussões políticas e eleitorais. E sem falar que eventuais propostas terão
de envolver os partidos, inclusive os que hoje têm maiores fatias no bolo.
Na verdade, tudo
teria de partir de uma nova estratégia nacional que definisse linhas mestras
capazes de indicar rumos para o que se deseja mudar. Mas como fazer se
hoje, em termos de "estratégia", só se considera fundamental o
chamado "crescimento do produto interno bruto", o PIB, sem considerar
que nesse conceito não se discutem, além do crescimento econômico, muitas das
mais importantes variáveis sociais, principalmente as questões relacionadas com
a renda e sua concentração, o desemprego, a falta de equidade com as mulheres,
questões fundamentais como educação, saúde, saneamento, etc.?
Convém lembrar que o
Brasil continua a ser apontado pela ONU [Organização das Nações Unidas] e outras organizações como um dos países
com maior concentração da renda; que ainda temos, incluídos os
beneficiários do Bolsa Família e os que nem renda têm, cerca de 50 milhões de
pessoas no limite da pobreza ou abaixo dele. Não se considera que para mudar
esse panorama será decisiva nossa relação com o mundo, onde a renda continua a
concentrar-se em poucos países e poucas pessoas; ou que as nações ricas
continuam a consumir 80% dos recursos atuais, embora tenham pouco mais de 20%
da população total, - e controlam os preços para mais se beneficiarem.
Como trataremos esse panorama nas novas caminhadas ,
lembrando ainda que são cada vez mais insistentes as análises de cientistas
políticos segundo os quais a "crise
global" está em forte aceleração - nem a economia chinesa tem escapado
a certos recuos? Pretendemos continuar retornando à condição de exportadores de
produtos primários, com preços declinantes - ainda uma vez para benefício dos
"grandes" do mundo -, e por isso nos tornando deficitários no
comércio exterior, com graves implicações internas?
Já passou há muito da
hora de uma estratégia que coloque no centro e no início os fatores que mais
poderiam beneficiar-nos:
·
a nossa rica biodiversidade,
·
a possibilidade de matriz energética
"limpa" e renovável,
·
a relativa abundância de recursos hídricos (que
vai sendo atingida por questões como as do desmatamento, do mau uso, do
desperdício, etc.).
·
Continuamos aferrados ao sonho de fazermos do
petróleo um componente decisivo na balança comercial - deslembrando que a
"crise do clima" questiona radicalmente as emissões de poluentes
derivadas de combustíveis fósseis; esquecendo que isso já levou a uma queda
brutal no preço do petróleo - e coloca também um ponto de interrogação na
questão do pré-sal.
Em lugar dessas prioridades, o governo desmantela, na
Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, o quadro
técnico que coordenava "o maior estudo já feito sobre adaptação às
mudanças climáticas" (Amazônia.or.br, 15/3). Mesmo sabendo (16/3) que mudanças climáticas poderão deixar mais de
400 mil pessoas no País expostas a enchentes fluviais até 2030, segundo
estudo do World Resources Institute.
E na hora em que o Acre se encontrava debaixo da maior enchente da História e
regiões pouco mais a norte enfrentavam seca terrível, da mesma forma que o
Semiárido. O Brasil é o 11.º país mais
ameaçado pelo clima.
Tudo isso tem de ser posto na mesa. Mas quem o fará, se hoje
a mobilização é feita por redes sociais, sem conexão, sem integração? Grandes instituições nacionais - CNBB [Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil] e demais igrejas, organizações de advogados,
cientistas e outras categorias - precisam
trabalhar em conjunto. Para que se chegue pelo menos a uma primeira pauta
que, em discussões posteriores, nos aproxime dos grandes temas mobilizadores e
de propostas abrangentes - enquanto isso ainda é possível.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Espaço aberto – Sexta-feira, 20 de março de 2015 – Pg. A2 –
Internet: clique aqui.
Comentários
Postar um comentário