CRISE POLÍTICA E ECONÔMICA: O QUE VAI ACONTECER?
Nem vai nem racha
Entrevista
com Peter Hakim
Ivan Marsiglia
O País não decolou
para a Lua, como previram alguns, e tampouco está à beira do desastre, como
agouram outros, afirma brasilianista americano
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Peter Hakim - pesquisador norte-americano especialista em Brasil |
Em um março de águas insuficientes e temperatura política
nas alturas junto com a cotação do dólar, parlamentares bateram boca na CPI da Petrobrás,
panelas soaram contra o pronunciamento de Dilma Rousseff, cabeças investigadas
do Congresso Nacional acusaram o Planalto de empurrar a crise “do outro lado da
rua pra cá”, o ministro da Fazenda ameaçou se demitir para impedir a derrubada
do veto a subsídios de seu ajuste fiscal e manifestações contra e a favor do
governo foram marcadas para o final da semana.
Em meio ao habitual
fla-flu político e a teses histéricas sobre o fim do Brasil, coube a um
americano baixar a bola, porque o jogo segue, caro torcedor. “Lembra quando
todos falavam que o Brasil era um foguete em direção à Lua, que ninguém
segurava o Brasil? Aquilo foi dramaticamente exagerado. Agora, o suposto
desastre enfrentado pelo Brasil também está sendo exagerado”, ponderou, em uma
declaração à BBC, o brasilianista Peter
Hakim, de 72 anos, presidente do think
tank [1] especializado
em análise política e estudos da democracia Inter-American Dialogue.
Na entrevista concedida de Washington ao Aliás, Hakim não minimiza a gravidade do
atual cenário de estagnação econômica com inflação em alta por que passa o
País, nem contemporiza sobre a responsabilidade do governo no escândalo da Petrobrás, “uma operação de
que se beneficiaram principalmente o PT e seu parceiro mais importante, o PMDB”.
Mas rebate os que se apressam em pedir a derrubada, “sem evidências sólidas de
comportamento criminoso”, de uma presidente democraticamente eleita. “Falta de apoio público não é razão para
impeachment.”
Vista de fora, quão grave parece a
crise política no Brasil?
Peter Hakim: Até
o momento, tem havido muito mais discussão sobre a crise econômica do que sobre
os problemas políticos que o País enfrenta. A deterioração da situação
política, assim como o escândalo da Petrobrás, tendem a ser vistos como
obstáculos para que o Brasil possa efetivamente lidar com o atual cenário de
estagnação econômica, inflação em alta, problemas fiscais generalizados e queda
nas exportações e nos investimentos. De fora, a atenção que se dá à política
brasileira está focada basicamente na especulação sobre como Dilma será capaz
de manter seu emprego.
Aparentemente, seu sucesso depende
da aprovação de medidas impopulares em um Congresso conflagrado. É algo
possível?
Peter Hakim: Dilma
enfrenta enormes desafios em diversos fronts. E essa desafortunada combinação
de problemas - economia em dificuldades, escândalo de corrupção sem precedentes
afetando partidos da coligação, queda de sua popularidade e líderes da Câmara e
do Senado sob investigação - torna mais difícil a solução de cada um deles. É
sempre difícil implementar medidas de austeridade, e a potencial perda de apoio
de líderes legislativos que deveriam ser seus aliados tornará a tarefa do
ajuste fiscal ainda mais difícil. Dilma terá que exercer uma liderança
excepcional para pôr a economia nos eixos e administrar o escândalo da
Petrobrás em um período de pouco apoio político. Capacidade de liderança, no
entanto, é precisamente o que um presidente precisa demonstrar em
circunstâncias conturbadas. Dilma terá que assumir o comando, sob risco de a
situação se tornar sem saída.
O fato de nem Dilma nem Aécio Neves
estarem na lista de Janot o surpreendeu?
Peter Hakim: Eu
teria me surpreendido se Dilma, particularmente, e Aécio estivessem na lista.
Se isso tivesse ocorrido, o público brasileiro teria que estar preparado.
Acusar o presidente da República de um crime grave, sem aviso prévio ou
perspectiva do que possa acontecer, causaria um verdadeiro choque político no
País e no exterior. O que um presidente faz diz respeito a milhões de pessoas.
Ele é um poderoso símbolo nacional.
Embora vários partidos - PP , PMDB,
PT, PSDB e PTB - estejam na lista de Janot, dirigentes do PT dizem que há um
processo de “criminalização” de seu partido, como se ele tivesse inventado a
corrupção. A crítica é justa?
Peter Hakim: É
verdade que os principais partidos do País estão na lista. Mas, como no caso do
mensalão, essa foi uma operação de que se beneficiaram principalmente o PT e
seu parceiro mais importante. É claro que o PT não inventou a corrupção, mas no
campo político o partido demonstrou mais ambição e uma capacidade sem
precedentes para a “inovação”. E foi pego.
No pronunciamento de domingo, Dilma
culpou a crise internacional pela situação econômica brasileira. Para a
oposição, foi o “intervencionismo estatal” no primeiro mandato que levou o País
ao desastre. Quem tem razão?
Peter Hakim: Ambos
estão certos. Tanto fatores internacionais quanto políticas econômicas
equivocadas do governo são responsáveis pela crise. No entanto, a má gestão do
governo leva mais da culpa. Uma política econômica mais cautelosa, menos ideológica
e mais orientada pelo mercado - especialmente se acompanhada de algumas
reformas - poderia ter mantido a economia em uma agenda de crescimento. Talvez
não tão rápida quanto todos gostariam, mas certamente melhor do que o Brasil
tem agora. A nomeação de Joaquim Levy sugere que Dilma entendeu isso.
As medidas de austeridade são o
caminho correto agora? Para o empresário Benjamin Steinbruch, da CSN[2],
é inexplicável que a taxa de juros no Brasil seja de 12,75%, enquanto está
próxima de zero no resto do mundo.
Peter Hakim: Sim.
A minha impressão, e a da maioria das pessoas com quem tenho conversado, é de
que Levy está no caminho certo. E é reconfortante saber que Dilma parece estar
apoiando-o fortemente agora. Sim, o Brasil tem uma taxa de juros inusualmente
alta - mas tem sido assim há muito tempo. Steinbruch está errado, e isso não é
difícil de demonstrar. Quando a inflação é fonte constante de ansiedade em um
país, que ainda tem uma gestão fiscal irregular e errática, a política
monetária, ou seja, altas taxas de juros, é uma forma de compensar. Outros
países vivem aterrorizados com a perspectiva de deflação, o que explica seus
juros baixos.
Vamos falar das manifestações.
Alguns grupos têm pedido o impeachment da presidente e até intervenção militar.
Esse clima acirrado pode se tornar um risco real para a democracia?
Peter Hakim: Não
estou familiarizado com os detalhes legais para um processo de impeachment no
Brasil, mas nos Estados Unidos da América (EUA) os requisitos são rígidos.
Duvido que a Constituição brasileira permita que um presidente seja cassado porque
ele, ou ela, é impopular. Falta de apoio público não é razão para impeachment.
Nem decisões governamentais equivocadas - a não ser que tomadas deliberadamente
em razão de lapsos éticos. Teria de haver uma ligação clara entre Dilma e o
escândalo de corrupção na Petrobrás ou algum outro malfeito para que um
impeachment fosse justificável. Diante de tudo que o Brasil passou sob o regime
militar e dos sucessos relativos que o País obteve desde a redemocratização, eu
ficaria muito surpreso se essa agitação por intervenção militar tivesse
ressonância nacional. Repito: o impeachment não resultará de protestos de rua.
É um processo que exige evidências sólidas de comportamento criminoso e
profundamente anti-ético.
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Manifestação na Avenida Paulista, sexta-feira, 13 de março de 2015: promovida por sindicatos e movimentos populares identificados com o PT |
A marcha pró-governo da CUT[3] e do MST[4] na sexta-feira ocorreu na esteira de
um comentário polêmico do ex-presidente Lula, que convocou o “exército” dos
sem-terra para ir às ruas. Foi uma fala adequada?
Peter Hakim: Acho
que a declaração de Lula não ajuda nada, sobretudo levando em conta a reputação
do MST de protestos violentos. Marchas de protesto e desobediência civil podem
ser sinais de uma democracia vibrante, como foi o caso das manifestações de
2013. Mas os esforços para resolver impasses políticos ou impasses “na rua”
também são sinais de grande fraqueza nas instituições formais de governo. Em
muitos aspectos, o movimento dos direitos civis nos EUA e os protestos
anti-Vietnã demonstraram ambas as dimensões - a incapacidade das instituições
formais de se adaptar às novas circunstâncias, mudar de rumo e resolver os
problemas sérios, mas também o compromisso dos grandes grupos de cidadãos de
promover os valores democráticos e humanos fundamentais. O que ainda não está
claro para mim no Brasil é se esses protestos e contra-marchas são motivados
mais por interesses partidários que por reformas.
Fala-se muito em reforma política no
Brasil, mas, como no romance de Lampedusa, “mudam-se as coisas para que tudo
permaneça igual”: saem políticos e governos, mas os escândalos de corrupção e
financiamento de campanha se sucedem. Como romper isso?
Peter Hakim: Seja
para se manter as regras ou para se efetivar mudanças, a concepção e
implementação de reformas políticas são sempre difíceis. O Chile levou 25 anos
de governos democráticos para fazer avançar as regras eleitorais no Congresso. Além
disso, o resultado dessas reformas é com frequência diferente do que se
esperava. A introdução de eleições primárias abertas nos EUA, por exemplo, uma
iniciativa do Partido Democrata para expandir o papel dos eleitores comuns e
reduzir a influência de líderes partidários, deu num sistema político de
campanha permanente, onde extremistas de ambos os partidos tendem a ter uma
influência desmedida e o compromisso é rendição. Leis e disposições constitucionais não são capazes de garantir
competência, honestidade e responsabilidade por parte dos políticos. Mas é importante tentar corrigir falhas e
injustiças. Mesmo que reformas nem sempre funcionem bem e, por vezes, sejam
até contraproducentes, elas são necessários em quase toda parte - e com certeza
no Brasil hoje.
Como é para um brasilianista
acostumado com a imagem de descontração e alegria que se atribui ao País
perceber o clima de ódio e intolerância que vazou das redes sociais para as
ruas?
Peter Hakim: Ainda
não estou seguro de que realmente haja um clima de ódio no Brasil. Pessoas de
todas as partes podem sentir raiva e indignação com a política, as ideias ou a
religião. Não há nenhuma razão para que no Brasil seja diferente. Brasileiros
são geralmente felizes e otimistas, mas também se deixam levar pela fúria quando
o assunto é política ou ideologia. Nenhuma contradição aí.
Após a chamada “onda vermelha” de
governos de esquerda na América Latina na última década, Brasil, Argentina e,
especialmente, Venezuela enfrentam crises políticas. Um ciclo está se fechando
no continente?
Peter Hakim: Eu
não fico muito confortável com esses rótulos. Imagens como a “onda vermelha”, a
“maré rosa” e afins mobilizam a imprensa e conseguem até um pouco de atenção
acadêmica, mas não acho que sejam explicações convincentes sobre o que acontece
na América Latina. Claro que países influenciam uns aos outros, mas as mudanças
políticas refletem, sobretudo, as circunstâncias específicas de cada um.
Enquanto o Brasil estava desfrutando de um ciclo de crescimento nos últimos
sete ou oito anos, ninguém o comparava com Venezuela e Argentina. Agora que a
economia estagnou e a política enfrenta problemas, vira parte da onda vermelha.
Essa não é uma análise real.
E qual é sua análise?
Peter Hakim: Os
três países chegaram às atuais situações por causa de caminhos e escolhas distintas.
Há traços comuns, é claro, que podem ter valor explicativo. Mas, apesar dos
reveses e da raiva pública de que estamos falando, o Brasil é o que tem as
melhores perspectivas para uma recuperação sustentada. Ao contrário da situação
desesperada de Venezuela, a Argentina não está nem perto de entrar em colapso.
Na verdade, com as eleições de outubro os argentinos têm uma clara, embora não
fácil, oportunidade de sair de seu pântano político e econômico. Já Bolívia e
Equador conseguiram ajustar suas economias muito bem, embora ambos enfrentem
dificuldades com a queda do preço do petróleo e do gás. No ano passado, (o
ex-presidente chileno) Ricardo Lagos declarou que (o presidente equatoriano
Rafael) Correa é o primeiro em décadas que efetivamente governa o país. O mesmo
se aplica à Bolívia, que teve sua maioria indígena representada pela primeira
vez na política.
Para enfrentar a crise, alguns
começam a defender um entendimento entre os ex-presidentes Lula e Fernando
Henrique Cardoso. Em entrevista ao Estado,
FHC disse que “não é hora de afastar Dilma nem de pactuar com ela”. O que acha
da afirmação?
Peter Hakim: Não
estou certo sobre como interpretar essa frase de FHC. Ele parece sugerir que a
situação ainda não é crítica o bastante para que se considere ou cooperar com
Dilma para ajudá-la a atravessar o período difícil ou para se buscar uma
solução constitucional que a exclua. Parece que ele acredita que Dilma deva
trilhar seu caminho para sair da crise atual. Tendo a concordar com FHC. É hora
de dar um tempo à presidente para que ela conduza o País ou mostre
definitivamente que não está à altura da tarefa.
Qual é a tarefa que Dilma tem de
enfrentar?
Peter Hakim: Idealmente,
ela teria de assumir o papel de
“reformadora-chefe”.
·
Em primeiro
lugar, sua equipe econômica é excelente e ela deve fazer de tudo para
seguir seus conselhos e avançar suas propostas dentro do PT [Partido dos
Trabalhadores], perante o Congresso, junto ao empresariado e à sociedade. Nessa
frente, ela não pode aceitar não como resposta.
·
Em segundo
lugar, a presidente deve colocar seu peso político em favor de uma
investigação completa, intensiva e transparente na Petrobrás. Dar aos
procuradores e ao Poder Judiciário todas as informações disponíveis e
incentivar outras pessoas em seu governo a fazer o mesmo, além de certificar-se
de que a imprensa e o público sejam devidamente informados. Desenvolver uma
agenda anticorrupção que prometa não mais “mensalões” e “lava jatos”.
·
Em terceiro
lugar, colocar a reforma política no alto da sua lista de prioridades. Há
uma série de ideias viáveis para melhorar a qualidade, as normas éticas, a
transparência e capacidade de resposta dos representantes eleitos a seus
eleitores. Para dar aos cidadãos mais acesso ao seu governo e reduzir a
influência de grupos de interesse. Para melhorar a qualidade dos serviços
públicos.
·
Em quarto lugar, Dilma deveria rever a política
externa do País, para que responda a interesses econômicos, sociais e de
segurança da população, reflita seus valores - democracia, direitos humanos,
igualdade - do ambiente doméstico para a arena internacional.
Se a presidente for capaz de obter alguns progressos nessa
agenda, poderá deixar um legado notável.
N
O T A S
[ 1 ] Think tank: ao pé da letra
seria "tanque de pensadores" isso seria mais ou menos equivalente a
um "grupo de especialistas". "Think tank" é uma expressão
que define um grupo de pessoas de alta capacidade que tem como objetivo
conduzir uma missão especifica e propor estratégias para empresas ou governos. No
fundo, trata-se de um grupo de trabalho que muitas vezes é temporário e assim
que tiver apresentado uma proposta de estratégia é dissolvido. Pode também ser
permanente (uma organização, um instituto, um departamento), sendo financiado
tipicamente por clientes governamentais e comerciais, nas áreas de estratégia
tecnologia e de armamento (para saber mais, clique aqui).
[ 2 ] CSN = Companhia Siderúrgica Nacional é a
maior indústria siderúrgica do Brasil e da América Latina, e uma das maiores do
mundo. Sua usina situa-se na cidade de Volta Redonda, no médio Paraíba, no sul
do estado do Rio de Janeiro, tendo suas minas de minério de ferro e outros
minerais na região de Congonhas e Arcos, ambas cidades do estado de Minas
Gerais e também de carvão na região de Siderópolis no estado de Santa Catarina.
Sua principal usina hoje produz cerca de 6 milhões de toneladas de aço bruto e
mais de 5 milhões de toneladas de laminados por ano, sendo considerada uma das
mais produtivas do mundo (Fonte:
Wikipédia).
[ 3 ] CUT = Central Única dos Trabalhadores é
uma organização sindical brasileira, fundada em 28 de agosto de 1983 na cidade
de São Bernardo do Campo, no estado de São Paulo, durante o Primeiro Congresso Nacional da Classe
Trabalhadora. Historicamente relacionada ao Partido dos Trabalhadores [PT],
a Central Única dos Trabalhadores participou das greves sindicais dos anos 80
no Grande ABC, principalmente no município de São Bernardo do Campo. É característica
da Central Única dos Trabalhadores, sua tendência em oposição ao chamado
"Velho Sindicalismo" praticando com Getúlio Dornelles Vargas do
Partido Trabalhista Brasileiro [PTB], considerado a integração entre os
sindicatos e o Ministério do Trabalho, baseado na Carta del Lavoro da Itália
Fascista, reivindicando o Novo Sindicalismo independente do Governo Federal,
completando-se em 1º de Maio de 2008 (30 anos) democrático e socialista (Fonte: Wikipédia).
[ 4 ] MST = Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra é um movimento
político-social brasileiro que busca a reforma agrária. Teve origem na oposição
ao modelo de reforma agrária imposto pelo regime militar, principalmente nos
anos 1970, que priorizava a colonização de terras devolutas em regiões remotas,
com objetivo de exportação de excedentes populacionais e integração
estratégica. Contrariamente a este modelo, o MST busca fundamentalmente a
redistribuição das terras improdutivas. É um grupo de fazendeiros que dividem
seus lotes de terras com os mais pobres, e também dividem parte de seu lucro
mensal. Questões do trabalhador do campo, cujo objetivo é principalmente à luta
pela realização da reforma agrária no Brasil. O MST teve origem na década de
1980, defendendo que a expansão da fronteira agrícola, os megaprojetos — dos
quais as barragens são o exemplo típico — e a mecanização da agricultura
contribuíram para eliminar as pequenas e médias unidades de produção agrícola e
concentrar a propriedade da terra (Fonte: Wikipédia).
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Suplemento ALIÁS – Domingo, 15 de março de 2015 – Pgs. E2-E3 –
Internet: clique aqui.
A crise será longa
Sergio Fausto*
Não há solução rápida
para a crise atual,
pois ela é grave, profunda e complexa.
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Detalhe do rosto de uma manifestante em atos ocorridos domingo, 15 de março de 2015 |
Na política,
entrelaçam-se três crises simultâneas: de governo, que se expressa na rápida
queda da aprovação da presidente e nas seguidas derrotas do Executivo no
Congresso; do sistema político, acentuada pelo escândalo da Petrobrás, uma
novela que ainda terá muitos capítulos; e do bloco de poder que deu sustentação
aos governos petistas, agora que não há mais recursos do Tesouro para contentar
a todos e os confrontos internos, aguçados pelas delações premiadas, se
intensificam.
Na economia,
sobrepõem-se ajustes necessários na inflação, nas contas públicas, nas contas
externas e em distorções tributárias e regulatórias pioradas nos últimos anos.
Com a confiança a zero e sem tempo para recuperá-la gradualmente, o governo tem
de fazer grande parte dos ajustes ao mesmo tempo (corte de despesas, elevação
de juros e tributos, tarifaço de energia, etc.), o que acentua a recessão e
torna mais difícil o ajuste fiscal, indispensável à recuperação da confiança. Além de complexas em si mesmas, as crises
política e econômica alimentam-se mutuamente.
Sem solução rápida à vista, o País terá de operar em modo de
crise por um período longo. Na hipótese mais otimista, a gestão política e as
variáveis macroeconômicas melhoram ao longo de 2015, abrindo perspectiva mais
favorável para o País a partir 2016. As chances de que prevaleça esse cenário [mais
positivo] se têm reduzido a cada dia, à medida que se expõe:
·
o tamanho da fratura na base aliada,
·
se avolumam revelações
sobre a extensão do esquema de corrupção nas empresas estatais,
·
surgem resistências
na sociedade ao ajuste fiscal e
·
crescem
os danos da crise econômica no emprego e na renda da população.
Governar bem nesse quadro exigiria de quem tem o comando do
País - a Presidência e seu núcleo duro - uma capacidade política muito superior
à que demonstrou até aqui.
Tudo leva a crer que
viveremos uma crise mais prolongada. A presidente Dilma deverá permanecer
no cargo para o qual foi legitimamente eleita, ainda que com o uso de mentiras,
que hoje lhe custam a autoridade moral para pedir sacrifícios ao País. O mais provável é não haver:
·
nem retomada do crescimento
·
nem colapso econômico,
·
nem fortalecimento significativo do governo
·
nem impeachment da presidente.
Para usar uma metáfora médica, o paciente sairá da UTI, mas não terá alta definitiva do hospital.
No máximo, irá para casa sob cuidados médicos.
Como a vida do País não pode parar, cabe refletir sobre a melhor maneira de conduzi-la nos próximos quatro
anos. Nessa estrada de traçado ainda indefinido há dois limites que não podem ser ultrapassados:
·
de um lado, o conchavo para salvar das punições cabíveis lideranças políticas,
empresas e empresários cujos malfeitos venham a ser comprovados;
·
de outro, a irresponsabilidade
do "quanto pior, melhor".
O PT martela na tecla de que punições às suas lideranças
causam dano à democracia. Já o governo defende a tese de que as principais
empresas sob investigação fazem parte do "patrimônio nacional" e, com
esse argumento, busca um acordo jurídico-político que as preserve de danos
econômicos maiores (e, se possível, contribua para que novos acordos de delação
premiada não sejam assinados).
A afirmação petista é falaciosa. Nela se toma a parte pelo
todo: o PT é parcela importante da
democracia brasileira, mas não é sua única nem sua melhor expressão (nenhum
dos partidos, nenhum movimento, nenhuma liderança tem a exclusividade desse
atributo). O lulopetismo precisa
aprender a ser parte não hegemônica da política brasileira. Esse duro
aprendizado, que contraria crenças arraigadas dentro do PT, é essencial para a
democracia e para o próprio partido.
Outro aprendizado fundamental diz respeito aos riscos
econômicos e penais decorrentes do conluio entre o Estado e empresas privadas,
com a intermediação de partidos. Na constituição desse imbróglio se combinaram
dois processos, que, embora com propósitos diferentes, acabaram por
associar-se: de um lado, uma política industrial que jogou quase todas as suas
fichas na formação de alianças entre empresas e bancos estatais, seus fundos de
pensão e algumas empresas privadas, para pôr em marcha um "novo modelo de
desenvolvimento"; de outro, a soldagem, com recursos públicos e privados,
legais e ilegais, de um bloco de forças sociais e políticas capaz de assegurar
a perpetuação do PT no governo.
Os resultados dessas duas escolhas feitas pelos governos
petistas e seus aliados se revelam agora desastrosos.
As imensas dificuldades que a Petrobrás enfrenta não são produto de uma
conspiração dedicada a debilitar a empresa e a indústria nacional, mas de uma
metódica sequência de erros de orientação estratégica e de gestão, além de
crimes, cometidos ao longo dos últimos 12 anos.
O ex-presidente da empresa José Sergio Gabrielli, em artigo recente, sacou do colete o
argumento do "risco sistêmico" para alertar sobre os efeitos
negativos em cadeia provenientes da virtual paralisia da Petrobrás. O artigo é
peça da estratégia do governo para justificar um amplo e geral acordo de
leniência com as empresas sob investigação. A preocupação com o "risco
sistêmico" é válida, ainda que o problema seja propositalmente dramatizado
por Gabrielli. Mas cabe perguntar se o "risco sistêmico" seria maior
do que o risco de um acordo de leniência que roube ao País a oportunidade de
avançar no combate ao capitalismo de
compadrio, ao patrimonialismo político e à partidarização do Estado.
Se soubermos construir um caminho à distância do conchavo e
do "quanto pior, melhor" e avançarmos rumo a uma forma econômica e
politicamente mais saudável de relação entre governo, empresas e partidos, os
quatro próximos anos não estarão perdidos.
*
Sergio Fausto é superintendente executivo do iFHC,
colaborador do Latin American Program do Baker Institute of Public Policy da
Rice University, é membro do Gacint-USP.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Espaço aberto – Sábado, 14 de março de 2015 – Pg. A2 – Internet:
clique aqui.
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