''Os divorciados em segunda união não deveriam mais ser um problema para a Igreja''
Entrevista
com Dom Jean-Paul Vesco
Bruno Bouvet e
Céline Hoyeau
La
Croix
02-03-2015
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Dom Jean-Paul Vesco - bispo e teólogo católico |
Em um livro publicado pelas edições Du Cerf, intitulado Tout amour véritable est indissoluble
[Todo amor verdadeiro é indissolúvel], Dom Jean-Paul Vesco, bispo de Orã, Argélia, afirma que a
Igreja pode mudar a disciplina sobre os divorciados em segunda união sem pôr em
discussão a doutrina sobre a indissolubilidade do matrimônio, mas, ao
contrário, para honrá-la ainda mais.
São raros os bispos que decidiram oferecer a sua
contribuição pública para o debate iniciado pelo Papa Francisco entre os dois
Sínodos sobre a família.
Eis a entrevista.
Por que escrever um livro sobre os
divorciados em segunda união?
D. Jean-Paul Vesco:
A disciplina da Igreja em relação aos divorciados em segunda união me fere e,
na verdade, me repugna há muito tempo, por causa da violência inútil que inflige às pessoas envolvidas, sem nenhuma distinção quanto à sua situação
individual. Eu também sofro pelo mal que essa disposição causa à imagem da
Igreja, porque é como um contratestemunho. Para mim, não se trata de pôr em
discussão a indissolubilidade do matrimônio sacramental. Este é a mais alta
realização do projeto de Deus para o homem e a mulher.
Creio, no entanto,
que a doutrina clássica sobre o matrimônio autoriza outra disciplina, em caso
de segunda união. A atual, que priva aqueles que se casam novamente do
sacramento da reconciliação e da eucaristia, não é respeitada por quase
ninguém. Conheço muito poucos pais, cujos filhos se divorciaram, que rezam para
que eles não se casem de novo. Algumas pessoas, por fidelidade ao primeiro
"sim" que pronunciaram, decidem não se casar. É uma ótima coisa que a
Igreja encoraje a escolha do celibato, porque é um sinal magnífico da indissolubilidade
do amor. Mas é uma vocação pessoal e não pode ser a única via imposta de fora.
Entrar em uma nova união depois do fracasso de um primeiro
matrimônio não significa renunciar ao apelo à santidade de todo batizado. Não
podem ser fechadas todas as portas depois de um primeiro casamento, sob o risco
de se absolutizar ou, melhor, de se ideologizar a indissolubilidade do
matrimônio. Em nome da
indissolubilidade, a Igreja não tem o poder de pedir que as pessoas que
contraíram uma segunda união fiel se separem.
Mas isso não corre o risco de
desencorajar todos aqueles que buscam permanecer fiéis à sua primeira união?
D. Jean-Paul Vesco:
A Igreja reconhece, no número 83 da Familiaris
consortio*,
que um matrimônio pode fracassar, que às vezes é melhor romper uma união e que
é possível ser inocente nessa ruptura. Ela também diz que é oportuno distinguir
as responsabilidades, mas não tira as consequências dessas distinções. E assimila a um adultério qualquer outra
relação depois do divórcio. Para mim, essas
palavras são terríveis. Uma doutrina de verdade não pode entrar em
contradição com a verdade das pessoas.
Tomando essa posição entre os dois
Sínodos sobre a família, o senhor não tem medo de aumentar a confusão e de
focar o debate apenas no problema dos divorciados em segunda união?
D. Jean-Paul Vesco:
Na realidade, esse livro nunca deveria ter sido escrito, porque há muito tempo a Igreja não deveria mais
tratar como adúlteras as pessoas que são fiéis há anos a uma segunda união,
em nome de Cristo. Os divorciados em segunda união não deveriam mais ser um
assunto para o Sínodo, que, de fato, tem muito outros temas importantes para
abordar. Tratemos disso rapidamente e passemos para a próxima questão.
Como bispo, o senhor não tem medo de
participar de uma forma de oposição na Igreja?
D. Jean-Paul Vesco:
O que eu temo é de ser instrumentalizado por aqueles que julgam a Igreja como
retrógrada. Eu estou totalmente inserido na Igreja. O que me repugna é vê-la prejudicada,
caricaturada sobre essa questão. Situo-me no debate aberto pelo próprio Papa
Francisco, com o convite de um questionário a todos os batizados. Para viver a
sinodalidade, ofereço elementos para o debate. O papa faz as perguntas, eu
respondo.
O que o senhor espera do próximo
Sínodo?
D. Jean-Paul Vesco:
Gostaria que a Igreja pudesse dar aos ministros da reconciliação a autorização
de permitir que certas pessoas possam enfrentar o seu passado, considerar as
razões da ruptura, examinar a sua responsabilidade, para poderem pedir perdão
por essa ruptura. Não um direito ao
perdão, mas um direito de poder pedir perdão.
Mas, ao mudar a disciplina, não é
posta em discussão a doutrina da Igreja?
D. Jean-Paul Vesco:
Ninguém põe em discussão a doutrina da indissolubilidade. As pessoas que sofrem
pelo fato de não poderem ter acesso à comunhão sofrem justamente porque
acreditam nela. Mas a indissolubilidade
não pode ser reduzida ao matrimônio sacramental. O sacramento é uma
consagração da indissolubilidade de um amor verdadeiro entre o homem e a
mulher. Esse amor é o sinal de uma realidade mais elevada e é infinitamente
forte e frágil. Que se caracterize esse sinal dizendo que só é possível se
casar uma vez, tudo bem. Mas, se não se
permite o acesso ao sacramento da reconciliação, então é uma doutrina que se
torna opressora e injusta. Mas eu acho que ela é justa. Portanto, é o nosso
modo de implementá-la que não o é. Eu também acredito que se possa mudar a
disciplina a sermos mais aderentes à doutrina. Se qualquer coisa, nas minhas
declarações, puser em jogo a essência da fé, me retratarei e pedirei perdão.
Mas que me expliquem isso, porque hoje eu não entendo.
* Exortação
Apostólica Familiaris Consortio de João
Paulo II, publicada aos 22 de novembro de 1981. Para lê-la, baixá-la ou
imprimi-la, basta clicar aqui.
Traduzido do francês por Moisés Sbardelotto. Para acessar esta entrevista em sua versão
original, clique aqui.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias
– Quinta-feira, 5 de março de 2015 – Internet: clique aqui.
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