POR UM SÍNODO QUE SAIBA OLHAR PARA TRÁS E PARA FRENTE
Um Sínodo não autorreferencial:
por uma Igreja “ante et
retro oculata” [1]
Andrea Grillo [2]
"A
via régia da simplicidade divina e a via da mais inaudita ilusão correm
paralelas na história da teologia, em todos os tempos e em todos os
desenvolvimentos, separadas apenas pela espessura de um fio de cabelo."
Karl Barth
Karl Barth
![]() |
Papa Francisco faz pronunciamento numa das sessões do Sínodo Extraordinário sobre a Família 7 de outubro de 2014 |
Em um dos posts deste blog, dedicado
ao tema "Matrimônio e família,
depois do Sínodo", é proposta uma leitura do Sínodo à luz
da obra de Walter Kasper. A análise é bastante pertinente e traz à tona uma série
de questões de fundo, sobre as quais é bom se deter na reflexão.
No curso de sua longa história, o
matrimônio despertou as mais diversas formas de "discurso eclesial".
De um lado, a partir das fontes bíblicas da tradição judaico-cristã, a
experiência matrimonial forneceu grande parte do imaginário de base para
estruturar e articular a relação entre Deus e o seu povo, entre Cristo e a sua Igreja.
Todas as figuras da relação com o Esposo –
a fidelidade e a infidelidade, a compreensão e a incompreensão, a proximidade e
a distância, a honra e a desonra, a espera e o esquecimento, a vigília e o sono
– marcaram a representação "nupcial" do Senhor e da sua
"assembleia", da sua "sinagoga" e da sua
"Igreja".
Esse imaginário bíblico e depois patrístico marcou profundamente a tradição teológica, espiritual, ministerial e litúrgica.
De outro lado, gradualmente,
formou-se o repertório de uma reflexão dogmática e disciplinar sobre a união de
homem e mulher, que, da Idade Média em diante, se especializou em uma
preciosa análise das condições subjetivas e das modalidades de implementação do
sacramento, da sua natureza e da sua eficácia, da sua validade e da sua
nulidade.
Essa abordagem aprofundou as lógicas do vínculo objetivo e as da consciência subjetiva, colaborando não só com a construção da cultura moral e canônica da Igreja, mas gerando também uma cultura europeia inteira dos direitos do sujeito e do primado do "foro interno".
1. Místicas nupciais e disciplina canônica
Poderíamos quase dizer, com um pequeno, mas precioso exagero, que o primeiro filão, quente e analógico, nas últimas décadas, pôde chegar facilmente a fenômenos de superaquecimento, até a fusão mística. Enquanto o segundo destino, mais frio e analítico, levou, não raramente, a formas de verdadeiro supercongelamento, tendo em anexo paralisia, coação a repetir e graves incomunicabilidades.
Em
particular, devemos observar como, nos últimos tempos, foi-se criando uma
situação paradoxal. Aconteceu, de fato, que uma espécie de "santa
aliança" entre a primeira e a segunda frente da reflexão gerou um
"saber sobre o matrimônio", que, ao mesmo tempo, se apresentou como
quente demais e fria demais, acabando por ser também morna demais.
Em
outras palavras, com isso se propõe, não sem razão, uma forte ênfase da
"mística nupcial" interna à revelação cristã em geral, para depois,
porém, obter daí – e, muitas vezes, sub-repticiamente – diretas ou desenvoltas
consequências no plano estritamente jurídico e disciplinar.Como se uma leitura "nupcial" da realidade revelada pudesse pretender, imediatamente, dar origem a consequências normativas unívocas e absolutamente invariáveis sobre a realidade histórica. Como se um maximalismo da mística se casasse tão facilmente com um maximalismo do direito.
2. Um defeito de tradição
Aqui nos encontramos diante de um verdadeiro "defeito de tradição". Precisamente essas acelerações – esses exagerados reaquecimentos místicos e esses resfriamentos jurídicos rápidos demais – apoiam-se sobre uma incompreensão grave do objeto/sujeito da própria tradição.
É o matrimônio como tal que, nessa passagem, corre o risco
de ser incompreendido, ou por excesso de idealização, ou por excesso de
administração. As palavras com as que falamos
sobre isso e as categorias com que pensamos e "sentimos" isso não
respeitam a sua lógica delicada e a sua trama complexa. E essa tendência não
faz bem para a tradição, porque é incapaz de relançá-la e de renovar a sua
linguagem e o seu estilo.
O que nos diz, de fato, a longa tradição antiga, medieval
e do início da modernidade? Que o matrimônio,
justamente como sacramento, não é apenas uma "reconstrução" ou uma
"transfiguração" da antropologia em nível teológico, mas é uma plena
assunção tanto do nível natural, quanto do nível institucional ao nível
sacramental.
Cada
"elevação", por si só, pressupõe peso e fadiga. São precisamente as
diferenças entre esses três níveis (natural, institucional e sacramental)
que permitiram ler esse sacramento nupcial como "último" e como
"primeiro" em relação a todos os outros.
Do
ponto de vista do "sinal", foi fácil reconhecê-lo como primeiro, mas,
do ponto de vista da causa, foi igualmente fácil retrocedê-lo ao "último
lugar". E ele pode ser reconhecido como primeiro apenas se dele não forem
removidos o fardo humano e a estrutura complexa.
3. O primeiro e o último dos sacramentos
Acredito
que foi justamente essa grande complexidade de níveis, do qual o matrimônio
precisa estruturalmente, que fez dele o sacramento maior, mas também o menor. Grande no fato de significar, como nenhum
outro, a união entre Cristo e Igreja, mas pequeno na sua concreta e falível
possibilidade de realizá-la.
Essa é
a diferença estrutural que o superaquecimento místico e o congelamento jurídico
– com argumentações opostas, mas agora convergentes – correm o risco de remover
perigosamente. Tais lógicas redutivas – mas redutivas, atenção, por excesso –
esquecem-se, quase inevitavelmente, da diferença
que permanece entre abordagem mística e relação operativa com respeito ao
matrimônio.
Se as
analogias, belas e elegantes, tornam-se princípios de determinação da
consciência alheia, as místicas
transformam-se facilmente em formas de obscurantismo ou de negação do outro e
do seu direito. Vice-versa, se as lógicas dos direitos e dos deveres não
conseguem sequer nomear laços dignos desse nome, então todo o sistema das
garantias do sujeito – hoje tão cuidadosamente desenvolvido – se transforma na
quase certeza da inacessibilidade, para nenhum homem e para nenhuma mulher, de
uma autêntica esfera da comunhão de vida.
Eis,
então, reconduzido ao seu ponto geometral, o constrangimento que estamos
vivendo nestes tempos, embora oportunos, de avaliação e de um maior
relançamento do caminho sinodal: a
pretensão de fazer valer os princípios gerais de relações teológicas como
imediatas e evidentes soluções antropológicas ou, vice-versa, a pretensão,
igualmente arriscada, de que a ponderação humana dos direitos, dos direitos e
dos interesses possa se tornar, como que por milagre, verdade revelada e
desígnio do Pai.
4. A indissolubilidade e a herança medieval
Uma
pergunta se impõe, radical e modestamente: é mais correto conservar a unidade
do amor conjugal em uma espécie de caixa-forte denominada indissolubilidade,
mas da qual a todos é conhecida a combinação capaz de torná-la inconsistente;
ou não seria melhor confiar a comunhão de vida do casal a um tabernáculo
transparente, capaz de acolher também a história e as crises dos sujeitos que
nele habitam?
O enrijecimento sobre uma noção
medieval de "indissolubilidade" é um modo de assegurar à Igreja uma
autêntica fidelidade ao depositum fidei, ou
apenas uma tela para lhe oferecer a reconfortante aparência de tal
continuidade?![]() |
Karl Barth - teólogo suíço protestante (1886-1968) |
Como Karl Barth escreveu
certa vez, "a via régia da simplicidade divina e a via da mais inaudita
ilusão correm paralelas na história da teologia, em todos os tempos e em todos
os desenvolvimentos, separadas apenas pela espessura de um fio de cabelo".
Esperar que a misericórdia de Deus já
esteja totalmente contida na doutrina e na disciplina que soubemos construir
nos últimos 800 anos em torno do matrimônio corre o risco de ser uma presunção
que, facilmente, pode se inverter em desespero.
Cultivar
a esperança significa, ao contrário, manter-se distante desses dois excessos:
não presumir que já se resolveu teoricamente um problema que é objetivamente
novo e não pensar que o novo problema não pode encontrar resposta com base em
uma doutrina capaz de ser traduzida, transcrita e repensada, ao mesmo tempo,
fiel e criativamente.
O matrimônio "não pode ser dissolvido": a doutrina da indissolubilidade é a forma clássica com
que essa palavra de Jesus foi
traduzida e transmitida. Mas as consequências disciplinares dessa forma de tradução
e a sua própria adequação à palavra de Jesus não são, de fato, dados
irreformáveis.
Nesse espaço realmente aberto à
solicitude eclesial, o próximo Sínodo poderá se mover com audaz prudência e com
justificada clarividência. A serviço de uma ecclesia que queira ser, realmente, ante et retro oculata.
5. A nulidade retroativa?
A fuga da autorreferencialidade e a
busca da "aproximação" são as duas reivindicações principais desse
evento eclesial [3]. O tema "matrimonial" não casualmente está no
centro dessa "inclinação": o matrimônio é remedium concupiscentiae [solução/remédio à concupiscência/luxúria], porque, pela
sua vocação, remedia o encurvamento de
cada sujeito sobre si mesmo. O matrimônio é o sacramento "não
autorreferencial" por excelência.
Por
isso, ao mesmo tempo, o matrimônio é um radical "fazer-se próximo",
aproximar-se. Talvez por causa desse "aproximar-se" constitutivo, ele
seja, entre todos os sacramentos, o mais explícito e também o mais
aproximativo.
Reconhecendo
na mais radical "proximidade" o sinal de uma graça, a tradição eclesial
deduz toda a dificuldade dos homens e das mulheres – de ontem como de hoje – a
viver "não autorreferencialmente".O Sínodo é chamado a defender, com coragem, essa "aproximação" que o matrimônio realiza, fugindo, no entanto, da tentação de uma "retrorreferencialidade", assim como resulta das inúmeras propostas de "ampliação" dos capítulos de nulidade ou de simplificação dos procedimentos do processo canônico.
6. A doutrina não é um monólito
Continua sendo fundamental, em minha
opinião, salvaguardar a abordagem mais correta. Podemos inferi-la bem a partir
deste belo testemunho, que nos é restituído pela entrevista
concedida pelo Papa Francisco à revista La Civiltà Cattolica. Cito
aqui uma passagem decisiva:
O papa neste momento se levanta e vai buscar o breviário na sua
escrivaninha. É um breviário em latim, já gasto pelo uso. E o abre no Ofício das Leituras da Feria sexta, isto é, sexta-feira da XXVII
semana. Ele me lê uma passagem tirada do Commonitórium Primum de São Vicente de Lérins: ita
étiam christiánae religiónis dogma sequátur has decet proféctuum leges, ut
annis scílicet consolidétur, dilatétur témpore, sublimétur aetáte ("Mesmo o dogma da
religião cristã deve seguir estas leis de aperfeiçoamento. Progride,
consolidando-se com os anos, desenvolvendo-se com o tempo, aprofundando-se com
a idade").
E assim o papa prossegue: "São Vicente de Lérins faz a comparação entre o desenvolvimento biológico do homem e a
transmissão de uma época à outra do depositum fidei, que cresce e se consolida com o passar do tempo. Eis: a
compreensão do homem muda com o tempo, e assim também a consciência do homem se
aprofunda. Pensemos em quando a escravidão era aceita ou a pena de morte era
admitida sem problema algum. Portanto, cresce-se na compreensão da verdade. Os
exegetas e os teólogos ajudam a Igreja a amadurecer o próprio juízo. As outras
ciências e a sua evolução também ajudam a Igreja nesse crescimento na
compreensão. Existem normas e preceitos eclesiais secundários que, antigamente,
eram eficazes, mas que agora perderam valor ou significado. A visão da doutrina
da Igreja como um monólito a defender sem nuances é errada".
"Além disso, em cada época, o homem procura compreender e
exprimir melhor a si mesmo. E, portanto, o homem, com o tempo, muda o modo de
perceber a si mesmo: uma coisa é o homem que se exprime esculpindo a Nike (Vitória)
de Samotrácia,
outra a de Caravaggio, outra a de Chagall e outra ainda a de Dalí. As formas de expressão da verdade também podem ser multiformes,
e isso, ao contrário, é necessário para a transmissão da mensagem evangélica no
seu significado imutável" [4].
A imutabilidade do significado do
matrimônio não equivale a uma doutrina monolítica e a uma disciplina imutável.
Precisamos redescobrir que uma Igreja não só "retro" [para trás], mas também "ante oculata" [olhos para frente],
precisa de coragem. A coragem de
expressar de forma mais adequada a beleza da fidelidade, junto com a
compreensão da fraqueza, da dificuldade, da fragilidade. As categorias
clássicas já não são mais capazes de elasticidade, enquanto as novas ainda não
estão adequadamente experimentadas.
Mas,
nessa difícil transição, que precisa de uma sábia transcrição e de uma corajosa
tradução, estamos empenhados em dar à tradição novas palavras de fé e novas
formas de vida reconhecíveis. Sem fingimentos e sem atalhos. Isso nos pede o
Espírito, precisamente no nosso tempo. E pede justamente a nós.
Traduzido do italiano
por Moisés Sbardelotto. Para acessar
a versão original deste artigo, clique aqui.
N O T A S
[ 1 ] Teria
sido no ano de 1961 ou 1962, quando o Pe.
Yves Congar realizou em Paris uma conferência sobre o concílio
recém-anunciado, que ele citou uma frase de São Bernardo de Claraval que falava
de uma Ecclesia ante et retro oculata,
ou seja, “a Igreja que tem olhos na
frente e atrás”, locução provavelmente inspirada na visão do livro bíblico
do Apocalipse, capítulo 5, que fala do cordeiro degolado, mas que se mantém em
pé (ou seja: que morreu, mas ressuscitou) e que “tem sete chifres e se olhos
[isto é: que olha em todas as direções], que são os sete espíritos de Deus
enviados por toda a terra”. O Pe. Congar aplicava a sentença de São Bernardo no
sentido de que o futuro concílio [o Vaticano II], deveria olhar para trás, a
sua fonte primordial, Jesus e seu evangelho, e projetá-la para adiante, para o
futuro (Fonte: clique aqui).
[ 2 ] Andrea Grillo
é um teólogo italiano, professor do Pontifício
Ateneu Santo Anselmo, de Roma, do Instituto
Teológico Marchigiano, de Ancona, e do Instituto
de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua.
[ 3 ] Na
verdade, o número exato dos "placet" [aprovado] e dos "non
placet" [desaprovado], indicado escrupulosamente ao lado de cada número da
Relatio Synodi [documento final do
Sínodo Extraordinário sobre a Família ocorrido em outubro de 2014], assim como
aparece nas últimas páginas da publicação oficial do documento sinodal, é o
último ato do Sínodo extraordinário, mas talvez também seja o mais explícito. E
mais na forma do que no conteúdo.[ 4 ] Antonio Spadaro. Entrevista com o Papa Francisco. In: La Civiltà Cattolica 3918/III (2013), p. 449-477, 475s.
Fonte: Instituto Humanistas Unisinos – Notícias – Quinta-feira, 26 de março de 2015 – Internet: clique aqui.
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