REFORMAS NO VATICANO: ÚLTIMAS MEDIDAS
Novos
estatutos econômicos do Vaticano:
nem vencedores e nem vencidos
Andrea
Tornielli
Vatican
Insider
04-03-2015
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Vaticano - em destaque: a Basílica e Praça de São Pedro |
Os novos estatutos
que regularizam as atividades da Secretaria de Estado, do Conselho para a Economia e do Revisor Geral, publicados ontem no
sítio da Santa Sé, deram origem a diferentes
leituras.
A primeira é a
que reconhece nestes textos uma vitória substancial do cardeal australiano George Pell, prefeito da Secretaria para a Economia: os poderes
de seu dicastério são, efetivamente, consideráveis, tanto em relação às
faculdades de vigilância e controle, como em relação à administração do
pessoal. Na realidade, ninguém imaginava que o purpurado, chamado de “ranger” e
inclusive “czar” das finanças vaticanas, visse diminuídos radicalmente seus
poderes a 12 meses de sua nomeação.
A segunda leitura
é a que percebe nos novos estatutos uma derrota para o purpurado [cardeal George Pell] e seus
colaboradores, pois no documento aprovado pelo Papa Francisco se revoga a passagem da gestão dos imóveis
vaticanos, estabelecida em julho de 2014, da Apsa (Administração do Patrimônio da Santa Sé) à Secretaria para a Economia. E parece
evidente a vontade de manter certa distância entre a vigilância, o controle dos
gastos e a administração de pessoal e dos bens (movéis ou imóveis) que o
próprio Pell teria desejado incluir na segunda seção da Secretaria, definida
como “administrativa”. Inclusive em vista do nascimento do VAM (Vatican Asset Management),
uma estrutura autônoma que se
encarregará da gestão de todos os investimentos e que, segundo o projeto que
se está estudando, seria dirigida pelo presidente do IOR [banco do Vaticano] Jean-Baptiste de Franssu, homem de
confiança do próprio cardeal Pell.
Ao ler os novos estatutos, promulgados “ad experimentum”, razão pela qual poderão ser modificados ou
ajustados (e por este motivo é impossível dar um parecer definitivo sobre a
configuração da cúpula das estruturas econômico-administrativas vaticanas),
compreende-se que a Secretaria para a
Economia, apesar de contar com novos poderes, não será um “superdicastério” que
se ocupará de tudo, acima de todos. Pode-se concluir que após os nove meses
de “gestação” dos novos estatutos no seio da mesma Secretaria, durante o último
período surgiu um confronto interno (às vezes áspero) que trouxe como resultado
um trabalho colegial, com vários organismos, instituições e pessoas que
contribuíram com seus conselhos, sugestões e observações. Neste sentido, tanto a primeira como a segunda
interpretação parecem fora de lugar: com a promulgação dos novos estatutos
não há vencedores e nem vencidos. A única coisa que existe é a intenção de
construir, para além das pessoas, um sistema de “check and balances” capaz de funcionar e de oferecer uma maior transparência e racionalização dos
gastos. Um dado pouco difundido dos novos estatutos é a maior autonomia em relação às iniciativas
da Secretaria para a Economia da qual parece gozar o Governatorado da Cidade do
Vaticano, submetido como o restante das instituições e organismos da Santa
Sé ao poder de vigilância do novo dicastério dirigido por Pell, porém mais livre em relação à administração de
pessoal e dos recursos.
Desde os últimos meses de 2014, alguns apresentaram a
contraposição interna como o enfrentamento entre duas mentalidades: a
anglo-saxão, encarnada por Pell e sua intenção de introduzir no Vaticano as
regras da boa administração e da transparência, que nem sempre foram aplicadas;
e a dos curiais italianos, que se oporiam a estas regras da boa administração,
rememorando com nostalgia, em alguns casos, as operações opacas do passado mais
ou menos recente. O que é certo é que, nos últimos tempos, os meios de
comunicação retomaram e insistiram nas histórias pouco edificantes e claras
relacionadas ao IOR, Apsa e, em geral, com certa gestão “à italiana”. Porém
esta representação da realidade é muito restrita. Não se deve esquecer que nas
últimas décadas houve eclesiásticos não italianos em postos centrais para a
administração das finanças do Vaticano, como o bispo Paul Marcinkus ou o
cardeal Edmund Casimir Szoka. Seria, pois, redutivo, considerar qualquer
objeção à criação do “superdicastério” como uma resistência às regras da boa
administração.
Com os três novos estatutos, Francisco demonstra querer
continuar, com decisão, pelo caminho da transparência, valendo-se da ajuda de
novos e velhos colaboradores em uma Cúria colegial, na qual o papel da Secretaria de Estado continua
sendo preponderante.
Traduzido do italiano pelo Cepat. Para acessar a versão original
deste artigo, clique aqui.
Fonte: Instituto
Humanitas Unisinos – Notícias – Quinta-feira, 5 de março de 2015 –
Internet: clique aqui.
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