COMO ENFRENTAR TANTA CORRUPÇÃO? - PROPOSTAS
O problema é o processo
Sérgio
Fernando Moro e Antônio Cesar Bochenek*
Ou mudamos o sistema
de Justiça Criminal ou afundaremos em esquemas criminosos
A denominada Operação Lava Jato revelou provas,
ainda pendentes de exame definitivo pelo Judiciário, da aparente existência de
um esquema criminoso de corrupção e lavagem de dinheiro de dimensões
gigantescas. Se confirmados os fatos,
tratar-se-á do maior escândalo criminal já descoberto no Brasil. As
consequências são assustadoras.
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Sérgio Fernando Moro - Juiz Federal encarregado, em Curitiba (PR), pelo julgamento dos denunciados e investigados na "Operação Lava Jato" Foto: Gil Ferreira / Agência Brasil |
A Petrobrás sofreu
danos econômicos severos, ilustrados pelo pagamento de propinas milionárias a
antigos dirigentes e pelo superfaturamento bilionário de obras. Além dos
danos imediatos, a empresa sofreu grave impacto em sua credibilidade. A própria
economia brasileira, carente de investimentos, sofre consequências, com várias
empresas fornecedoras da Petrobras envolvidas no esquema criminoso.
Mais preocupante
ainda a possibilidade de que o esquema criminoso tenha servido ao financiamento
de agentes e partidos políticos, colocando sob suspeição o funcionamento do
regime democrático. Embora se acredite que, com o apoio das instituições
democráticas e da população em geral, tais problemas restem ao final superados,
inclusive com o fortalecimento da democracia e da economia brasileiras, a grande questão a ser colocada é como se
chegou a esse ponto de deterioração, no qual a descoberta e a repressão de
crimes de corrupção geraram tantos efeitos colaterais negativos?
Uma das respostas é
que o sistema de Justiça Criminal, aqui incluído Polícia, Ministério Público
e Judiciário, não tem sido
suficientemente eficiente contra crimes desta natureza. Como resultado, os
problemas tendem a crescer, tornando a sua resolução, pelo acúmulo, cada vez
mais custosa.
A ineficiência é ilustrada pela perpetuação na vida pública de agentes que se sucedem nos mais diversos
escândalos criminais. Não deveria ser tão difícil condená-los ao ostracismo.
Parte da solução passa pelo incremento
da eficiência da Justiça criminal. Sem dúvida com o respeito aos direitos
fundamentais dos investigados e acusados, mas é necessário um choque para que
os bons exemplos de eficiência não fiquem dependentes de voluntariedade e
circunstâncias.
Sem embargo de propostas de alterações do Direito Penal, o problema principal é óbvio e reside no
processo. Não adianta ter boas leis penais se a sua aplicação é deficiente,
morosa e errática. No Brasil, contam-se
como exceções processos contra crimes de corrupção e lavagem que alcançaram
bons resultados. Em regra, os processos duram décadas para ao final ser
reconhecida alguma nulidade arcana ou a prescrição pelo excesso de tempo
transcorrido. Nesse contexto, qualquer proposta de mudança deve incluir medida
para reparar a demora excessiva do processo penal.
A melhor solução é a
de atribuir à sentença condenatória, para crimes graves em concreto, como
grandes desvios de dinheiro público, uma eficácia imediata, independente do
cabimento de recursos. A proposição não viola a presunção de inocência.
Esta, um escudo contra punições prematuras, impede a imposição da prisão, salvo
excepcionalmente, antes do julgamento. Mas não é esse o caso da proposta que
ora se defende, de que, para crimes graves em concreto, seja imposta a prisão
como regra a partir do primeiro julgamento, ainda que cabíveis recursos. Nos
Estados Unidos e na República francesa, dois dos berços históricos da presunção
de inocência, a regra, após o primeiro julgamento, é a prisão, sendo a
liberdade na fase de recurso excepcional.
Não se ignora, por evidente, a possibilidade do erro
judiciário e de eventual reforma do julgado, motivo pelo qual se propõe
igualmente que as Cortes recursais possam, como exceção, suspender a eficácia
da condenação criminal quando presente, por exemplo, plausibilidade do recurso.
Mas a exceção não invalida a proposição. O problema da legislação atual é o de
supor como geral o erro judiciário e, como consequência, retirar toda eficácia
da sentença judicial, transformando-a em mera opinião, sem força nem vigor. No
Brasil, chegou-se ao extremo de também retirar-se a eficácia imediata do
acórdão condenatório dos Tribunais, exigindo-se um trânsito em julgado que,
pela generosidade de recursos, constitui muitas vezes uma miragem distante. Na
prática, isso estimula recursos, quando não se tem razão, eterniza o processo e
gera impunidade.
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Antônio Cesar Bochenek - Juiz Federal Presidente da Associação dos Juízes Federais do Brasil (AJUFE) Foto: AJUFE |
A AJUFE – Associação
dos Juízes Federais do Brasil apresentará, em breve, proposição nesse sentido
ao Congresso Nacional. O projeto de lei foi previamente aprovado pela
ENCCLA – Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de dinheiro no
ano de 2014, em grupo de trabalho que contou com membros dos três Poderes.
Pelo projeto, o
recurso contra a condenação por crimes graves em concreto não impedirá, como
regra, a prisão. Permite ainda o projeto que o juiz leve em consideração,
para a imposição ou não da prisão, fatos relevantes para a sociedade e para a
vítima como ter sido ou não recuperado integralmente o produto do crime ou
terem sido ou não reparados os danos dele decorrente. Exige-se ainda alguma
cautelaridade para a prisão, mas não como antes do julgamento.
Não se trata aqui de competir com as proposições apresentadas
pelo Governo Federal ou pelo Ministério Público, mas contribuir, usando a
experiência da magistratura, com a apresentação de projeto que pode mudar
significativamente, para melhor, a Justiça.
O Brasil vive momento
peculiar. A crise decorrente do escândalo criminal assusta. Traz
insegurança e ansiedade. Mas ela também oferece a oportunidade de mudança e de
superação. Se a crise nos ensina algo, é
que ou mudamos de verdade nosso sistema de Justiça Criminal, para romper com
sua crônica ineficiência, ou afundaremos cada vez mais em esquemas criminosos
que prejudicam a economia, corrompem a democracia e nos envergonham como País.
*
Sergio Fernando Moro, juiz federal responsável pela Operação Lava Jato, e Antônio Cesar Bochenek, juiz federal,
Presidente da Associação dos Juízes Federais (AJUFE).
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Espaço aberto – Domingo, 29 de março de 2015 – Pg. A2 – Internet:
clique aqui.
Inflação e corrupções
Roberto Romano*
Convenhamos, temos no
Brasil a deflação da vergonha na cara
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Roberto Romano - Filósofo e Professor da UNICAMP |
"A corrupção é
senhora idosa que age em toda parte." A frase é verdadeira, mas
incompleta. A provecta [experiente] ladrona não age sozinha. Ela foi superada
por trêfegas [astutas] meninas que renovam as técnicas de assalto. Se a avozinha subtraía milhões, as netas
embolsam bilhões. Ocorre com a rapinagem algo análogo à inflação. Elias Canetti, em Massa e Poder (Inflação e
massa), mostra a ruína ética trazida pela moeda apodrecida. As peças
metálicas, nas mãos dos trabalhadores, davam um sentimento dignificador. Se o
corpo é gratificado, a alma sente segurança. Na confiabilidade da moeda reside
a sua marca principal.
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Editora: Companhia das Letras (2005) |
As notas impressas diminuem o peso do dinheiro. A inflação humilha quem vive de salário.
Com ela "nada mais é seguro, nada permanece no mesmo local durante uma
hora; mas em virtude da inflação o homem
diminui. Ele mesmo, ou o que ele foi, é nada; o milhão, que ele sempre
desejou ter, também é nada. Todos o possuem. Mas cada um é nada". Milhões
não compram pão, empregos somem, o ressentimento exaspera. Conclusão de Canetti: os nazistas agiram contra os
judeus como num processo inflacionário. "Primeiro eles (os judeus) foram atacados como maus e
perigosos, inimigos; depois foram cada vez mais desvalorizados; como já não se
tinha judeus em número suficiente, eles foram coletados nos países vencidos; e,
no final, eles eram vistos literalmente como insetos que podiam ser
exterminados aos milhões." Os fanáticos de Goebbels "dificilmente
poderiam ter chegado tão longe, se poucos anos antes não tivessem passado por
uma inflação na qual o marco valia um bilionésimo do valor original. E foi esta
inflação como fenômeno de massa que eles descarregaram sobre os judeus".
A nossa política está
em via de unir dois sistemas inflacionários. O primeiro é a degradação
da moeda. Quem tem mais de 30 anos recorda os anos Sarney e Collor. O
Brasil namorou o fascismo, persistente em suas entranhas históricas. Recordo os
"fiscais do Sarney" que invadiam supermercados com bandeiras do País,
prendiam gerentes, ameaçavam funcionários. Tais linchamentos surgiram com o
descontrole monetário. Agora vem a
inflação do mercado corrupto. Muitos líderes políticos estão unidos aos
assaltos, antes cifrados em milhões. Atingimos o patamar dos bilhões.
Humilhação e desespero, trazidos pela crise da moeda, surgem em plano profundo.
O ressentimento contra as instituições
representativas e democráticas, a desvalorização experimentada pela cidadania
ante os corruptos, conduz a massa aos primitivos desejos de um ditador que
salve a Pátria, um benefactor.
Milhões de pessoas, no golpe de 1964, apoiaram o veto à
subversão e à corrupção. Os pretensos subversivos foram torturados, mortos,
exilados, cassados. Mas retornaram à sociedade. Os corruptos continuam nas instituições de Estado porque garantem o
acesso dos governos às regiões dominadas. Oligarcas que garantiram os donos
do poder continuam no regime civil. Eles dominam a Nova República com José Sarney, visto ao lado da
presidente Rousseff quando ela recordava aos manifestantes do 15 de Março sua
luta contra a ditadura. Só faltou à chefe de Estado dirigir o dedo indicador
rumo ao fidalgo (Lula o considera um "homem
incomum") que, na cadeira próxima, tudo ouvia sorrindo. Ele [Sarney] presidiu
a Arena, "o maior partido do Ocidente", segundo Francelino Pereira.
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Boitempo Editorial (2012) |
Mas não somos campeões mundiais de corrupção. Já na França do século 19, diz um autor
hoje pouco lido, a pilhagem do Estado se
dava em grande e pequena escala. "As relações entre a Câmara dos
Deputados e o governo eram multiplicadas sob os tratos entre diferentes
administrações e diferentes empresários. (…) A Câmara coloca nas costas do
Estado os gastos maiores e garante às aristocracias especuladoras e financeiras
o maná de ouro. Todos recordam os escândalos na Câmara dos Deputados quando se
descobriu, por acaso, que todos os membros da maioria, inclusive uma parte dos
ministros, eram acionistas das empresas, a quem eles conferiam a seguir, como
legisladores, a execução das estradas de ferro, tudo por conta do Estado".
De te fabula narratur… Mas ainda não
atingimos o ponto descrito por Marx
em As Lutas de Classes na França.
A reforma política,
uma quimera, tem como pressupostos a lei do lobby e a democratização dos partidos. Sem a primeira parlamentares
encobrem, com a autoridade do cargo, atos em defesa de anônimos interesses
econômicos, sociais, culturais, religiosos. E sem democracia interna nos
partidos os corruptos continuam intocados. Na atual forma partidária,
dirigentes ficam nos cargos por décadas. Dominam alianças, candidaturas e, last but not least, os cofres. Roberto Macedo escreveu neste espaço, e
muito bem, sobre as emendas parlamentares que sugam os cofres públicos. S.
Exas. aumentaram de modo pantagruélico o Fundo
Partidário. Sem renovação dos dirigentes e controle dos partidos pelos
afiliados, sem eleições primárias, a
dinheirama oficial reforça a ditadura partidária dos oligarcas.
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Ícone Editora (2011...) |
Quais são as
diferenças entre tiranos e bons governantes? A pergunta é de Jean Bodin em Os Seis Livros da República. "Um busca manter os governados em
paz e união; outro os divide para os arruinar e engordar os confiscos. Um
aprecia ser visto às vezes e ouvido pelos dirigidos; outro deles se esconde,
como inimigos. Um prefere o amor dos governados; outro, o medo. Um só teme
pelos liderados; outro tem medo deles. Um pede impostos na quantia mínima e
para a necessidade pública; outro chupa o sangue, rói os ossos, suga o tutano dos
governados para os enfraquecer. Um procura as melhores pessoas de bem para
empregar nos cargos públicos; outro só emprega no governo os piores ladrões,
para deles se servir como esponjas."
Pelos critérios
clássicos da ética e do direito, não vivemos em democracia plena, mas no
tirânico regime em que o poder é benéfico para os que legislam em causa própria.
Falei das inflações monetárias e da corrupção. Convenhamos, temos no Brasil a
deflação da vergonha na cara.
*
Roberto Romano é professor da Unicamp e autor, entre outras
obras, de Razão de Estado e outros
estados da razão (Editora Perspectiva).
Fonte: O Estado de S. Paulo – Espaço aberto –
Domingo, 29 de março de 2015 – Pg. A2 – Internet: clique aqui.
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