O QUE SE PASSA NA POLÍTICA BRASILEIRA HOJE?
A prensa de Lula em Dilma
Editorial
Gilberto Carvalho,
ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência, cumpriu mais uma vez seu papel
de fiel porta-voz do ex-presidente Lula
ao atacar publicamente o ajuste fiscal que está sendo executado pelo governo de
Dilma Rousseff. Conhecido por seu trânsito nos movimentos sociais e nos
sindicatos, Carvalho criticou a
presidente sem nenhum constrangimento durante encontro com sindicalistas no
último dia 16.
Gilberto Carvalho - ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República nos governos Lula e Dilma - fiel porta-voz do ex-presidente |
"Eu tenho vergonha de dizer: nós erramos",
discursou Carvalho, utilizando o pronome pessoal "nós" de acordo com
a peculiar gramática lulista, que dá a impressão de incluir no discurso aquele
que fala, quando, na verdade, atribui toda a responsabilidade do dito
"erro" a terceiros - no caso, um governo a que Carvalho e sua turma já
não servem. Logo, a "vergonha" à qual o ex-ministro se refere é
apenas de Dilma, e não dos lulistas.
Como se sabe, Lula
está em campanha para salvar-se a si mesmo. Além de elevar o tom nas
conversas mais recentes com Dilma - consta que chegou a gritar com sua criatura
e estapear a mesa em uma de suas últimas reuniões -, o potentado petista resolveu atiçar a militância dita
"social" contra o ajuste fiscal. Com isso, Lula pretende descolar
sua imagem de uma presidente cada vez mais isolada, empunhando a bandeira da
defesa dos trabalhadores em meio à crise.
O ajuste não é um
capricho, como sabem todos aqueles com um mínimo de bom senso. Trata-se de um sacrifício necessário para
reconstruir uma economia danificada pela irresponsabilidade fiscal do
lulopetismo. Dilma parece ter entendido, decerto a contragosto, que o País
não suportaria mais quatro anos de tolerância com a inflação e de rombos nas
contas públicas. Pois justamente no
momento em que ela mais precisa do apoio de sua base, a começar pelo seu
próprio partido e pelo seu mentor [Lula], o que ela deles recebe é uma
hostilidade crescente.
Lula, claro, não se expõe pessoalmente. Fala por interpostas
pessoas, como Gilberto Carvalho, que passou todo o primeiro mandato de Dilma
atazanando-a com os recados do chefe. E o agora ex-ministro cobrou de Dilma que
reconheça a dívida que tem com Lula e com o PT.
"Nós tivemos uma eleição que só foi ganha pela luta de
vocês, pela luta da nossa militância. Aqueles 3 milhões de votos que nos
salvaram, nós sabemos que foram graças à luta da militância. E a gente, quando
acabou a eleição, em vez de chamar o pessoal para discutir - 'olha pessoal,
vamos fazer um programa para valer, popular' -, nós esquecemos", disse o
ex-ministro. Para Carvalho, portanto,
Dilma tem contas a acertar com essa militância.
"Levou um mês para ser chamada a CUT lá no Palácio (do
Planalto). Um mês para o MST ser chamado lá no Palácio. E viemos com um pacote
que só penalizou o lado dos trabalhadores, sem nenhuma comunicação. Devo dizer
que fiquei muito triste com isso. Esse foi um erro imperdoável que nós
cometemos. Não tem como negar. Porque assim você não faz alianças
estratégicas", declarou Carvalho, expondo a grande insatisfação dos
lulistas com a perda de espaço no governo dilmista.
Os sindicalistas se queixaram a Carvalho de que está cada
vez mais difícil mobilizar trabalhadores para defender o governo nas ruas, em
razão das dificuldades criadas pelo ajuste. O ex-ministro respondeu que Dilma
já entendeu o "erro" que cometeu ao não ceder às demandas dos movimentos
sociais e afirmou acreditar que "a lição foi aprendida".
Essa pressão explícita, vocalizada um dia depois do maior
protesto popular realizado contra Dilma até agora e em meio ao esfarelamento da
base governista no Congresso, deixa claro que a prioridade de Lula no momento não é socorrer a presidente. O
ex-presidente e candidatíssimo a voltar ao cargo em 2018 está mais interessado
em fazer seus eleitores acreditarem que o atual aperto nos cintos resulta não
da necessidade de reorganizar a economia, após anos de esbórnia, mas da recusa
da presidente em lhe dar ouvidos sobre como deveria governar.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Notas e Informações – Domingo, 22 de março de 2015 – Pg. A3 –
Internet: clique aqui.
A gravidade da crise
Marcos Nobre*
Se o sistema político
tentar se blindar contra as polarizações existentes nas ruas, situação pode
atingir cores ainda mais dramáticas, diz filósofo
![]() |
Marcos Nobre - Professor de Filosofia da UNICAMP |
O sistema político
entrou em pane. A franja parlamentar que se costuma chamar de oposição,
liderada pelo PSDB, foi inteiramente
atropelada pela oposição que foi às ruas. O
PT não lidera o governo que elegeu. O PMDB
se divide hoje em três ou quatro ajuntamentos que não se entendem e operam de
maneira independente e descoordenada. O PP
simplesmente implodiu e os escombros serão recolhidos por algum cacique
regional e pelo PSD, que tem dois
ministros e uma bancada na Câmara que só costuma entregar metade de seus votos
ao governo. Isso para falar apenas dos maiores partidos do País.
Qualquer governo
nunca é rocha sólida, é sempre cheio de furos e fraturas por onde se infiltram
viscosidades várias. Acontece que está difícil de ver a rocha. Os centros
de comando se multiplicaram e estão operando de maneira bastante independente.
Só a política econômica parece estar sob relativo controle, ainda que sob
permanente ataque de todos os lados. De qualquer maneira, é um controle de tipo
motoniveladora e tesoura e não efetiva coordenação.
Uma situação como essa não pode e não deve ser caracterizada
apenas como uma crise. É uma crise muito grave, que pode levar o País a uma
situação de paralisia ou de regressão por um longo período. É a primeira grande crise em situação de
estabilidade da história recente do País.
A estabilidade que se teve nos 20 anos que vão desde o impeachment de Collor até junho de 2013
foi pontuada por momentos de crise. Mas,
em termos de gravidade, nenhuma crise chega perto da que se vive agora, com a
conjunção de:
·
crise de governabilidade,
·
crise econômica,
·
crise hídrica e de energia,
·
crise do sistema partidário.
A crise do sistema
partidário é sintoma do fosso entre sistema político e sociedade. Essa
crise de representação esteve no centro das revoltas de junho, onde forças
políticas opostas ocuparam a mesma rua ao mesmo tempo. A polarização da eleição
presidencial de 2014 refletiu, ainda que de maneira limitada, um princípio de
organização dessas polarizações sociais reais, que estavam até ali bloqueadas
pelo sistema político. Mas essa
polarização não se consubstanciou em bancadas de situação e de oposição
correspondentes, não encontrou expressão adequada no interior do sistema
político.
O pouco mais pouco menos da metade do eleitorado que votou
em Dilma Rousseff não se sente representado pela megamaioria de apoio ao
governo, que embute a verdadeira, real e efetiva oposição ao próprio governo. O
mesmo vale para o pouco mais pouco menos da metade do eleitorado que não votou
em Dilma Rousseff: não se sente representado pela franja oposicionista, que não
tem nenhum outro projeto a não ser manter o condomínio do mesmo jeito, só
mudando o síndico. O único político
(de oposição, ressalte-se) que ousou
tomar um microfone na Avenida Paulista em 15 de março foi impedido de falar
pelas vaias.
Um outro efeito decisivo do junho de 2013 pode ser visto na Operação
Lava Jato. Foi a conjunção do clamor das ruas com uma longa preparação
de órgãos judiciais e de investigação que conseguiu superar os bloqueios
escandalosos que o sistema político impôs a operações anteriores de mesma
magnitude. Em 2010, por exemplo, o Superior Tribunal de Justiça bloqueou a Operação
Castelo de Areia, precursora da atual Lava Jato. Com isso, foi adiada em cinco anos a nossa “Operação
Mãos Limpas”, aquela que mudou para sempre a política da Itália nos anos
1990. Foi perdida mais uma chance de alçar o modo de operação do sistema
político a um novo e superior patamar, em um momento econômico ainda
relativamente favorável àquela altura.
Diante do risco muito concreto de enfrentarem não apenas o
fim de suas carreiras políticas, mas a prisão, grupos inteiros dentro dos
partidos se organizaram com o objetivo único e primordial da autodefesa,
fragmentando ainda mais um sistema já perto do inadministrável. Situação que é
um obstáculo quase intransponível a qualquer projeto de reorganização do
sistema político com base em acordos estritamente partidários. Porque o aprofundamento das investigações
da Lava Jato vai ter o efeito de
desorganizar ainda mais um cenário partidário já muito desarrumado.
Do lado da sociedade,
o efeito pode ser o do crescimento de uma negação abstrata da política, de uma
rejeição da política enquanto tal. É o caldo de cultura perfeito para a
formação de um despolitizado “que se
vayan todos”, nos moldes da Argentina de 2001. Esse abismo está posto
diante do País e não pode ser ignorado.
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Cid Gomes - ex-ministro da Educação: Discursa e ataca parlamentares "achacadores" no Congresso Nacional Brasília (DF), 18 de março de 2015 |
CENÁRIO POSSÍVEL – REORGANIZAÇÃO POLÍTICA
Qualquer reconstrução da governabilidade nos moldes
tradicionais do peemedebismo do sistema político - ou, para lembrar o eufemismo
que ficou consagrado, o “presidencialismo de coalizão” - vai ser bombardeada
por quatro longos anos pelas ruas e pelo oportunismo partidário cabível. Mesmo
que a desvalorização do câmbio acabe tendo efeitos econômicos positivos no
horizonte de um ou dois anos. Mas pode ser que um governo assim consiga
sobreviver.
Ocorre que uma reorganização como essa não depende apenas do
governo, mas também da oposição. Do contrário, a crise não vai sequer se
estabilizar. A reorganização nesses moldes depende de um balé coreografado
entre governo e forças que se disponham a liderar uma frente oposicionista efetiva, que dê voz real à oposição presente na
sociedade. Para que isso aconteça, forças partidárias de oposição terão de
se perfilar no sentido das ruas, sem recuar nem mesmo diante da bandeira do impeachment, por exemplo - que até agora
não foi aceita de maneira inequívoca por nenhuma liderança política de peso. O
fato de a maioria dos que foram às ruas no dia 15 de março não ser favorável ao
impeachment não significa que o tema
saia da pauta.
Congregando o conjunto das forças de oposição presentes nas
ruas em toda a sua diversidade, uma frente como essa teria o potencial de
atrair uma bancada parlamentar representativa, capaz de expressar no interior
sistema político a real polarização existente na sociedade entre situação e
oposição, e não a encenação patética a que se assiste há quase dez anos. De
qualquer maneira, se seguida, essa linha de ação teria de ser executada de
maneira hábil e cuidadosa, dado o rechaço generalizado da política e dos
políticos que emergiu desde junho de 2013.
CENÁRIO INDESEJÁVEL – DUAS POSSIBILIDADES
Não sendo esse o caminho trilhado, pelo menos duas outras
possibilidades se abrem.
Na primeira delas,
o sistema partidário continua desconectado das diferentes forças sociais que
irromperam desde 2013. Nesse caso, o
sistema político uma vez mais dará as costas às ruas, em toda a diversidade
de aspirações presentes nos diferentes protestos. As forças que sustentam o
movimento pelo impeachment vão
recrudescer e buscar em outsiders do
sistema político a expressão de sua insatisfação de base. Essa é a alternativa Joaquim Barbosa, comparável
a uma experiência como a de Silvio Berlusconi na Itália. Depois da “Operação
Mãos Limpas” e da ausência de uma efetiva reorganização estrutural, o sistema
político italiano entrou em colapso e o rechaço generalizado da política e dos
políticos só encontrou expressão em Berlusconi.
A segunda e mais
improvável possibilidade é a formação de uma frente ampla em torno de uma
reorganização do sistema político em novos moldes. A improbabilidade dessa via
é tanto maior quanto mais profunda é a incompreensão do significado do junho de
2013. A raiva social liberada ali, a agressividade cotidiana entre vizinhos,
colegas de trabalho e mesmo em círculos de amigos não vai voltar para a garrafa
só porque se alcançou um novo acordo com o PMDB - qual PMDB, aliás -, ou porque
a franja oposicionista resolveu “estudar a possibilidade” de pedido de impeachment.
Ainda não é suficientemente clara a consciência da gravidade da crise
atual. Nem ficou ainda evidente que nenhuma força partidária irá se beneficiar
do caos.
Se se quiser uma imagem: ainda não ficou claro que a
situação se assemelha a uma conjunção do momento pós-impeachment de Collor com o início do segundo mandato de Fernando Henrique
Cardoso, em 1999.
Mas é apenas uma imagem. Porque, ao contrário desses dois
outros momentos, hoje não se pode falar sequer em acordos estritamente
partidários, dada a fragilidade em que se encontram os partidos. E a construção
de um real programa de governo teria de se dar em bases que não sejam ditadas
nem dirigidas por nenhuma força política em particular, mas resultado de um
efetivo acordo negociado. Para não falar no fato de que o país que viveu vinte anos de relativa estabilidade, os padrões de
vida melhoraram e as expectativas de diminuição de desigualdades, efetivação de
direitos e de melhoria dos serviços públicos fincaram raízes profundas na
sociedade.
Importa ter claro que essas possibilidades hoje visíveis evidentemente
não se equivalem nem significam uma efetiva superação da crise. Se o sistema
político uma vez mais optar por se blindar contra as polarizações existentes
nas ruas o resultado será o prolongamento da crise por outros meios, em versões
até mais dramáticas, inclusive.
Porque o pior da
crise ainda está por vir:
·
A [Operação] Lava
Jato ainda não fez todo o estrago que tem para fazer.
·
A recessão econômica ainda não mostrou seus
dentes.
·
O desemprego ainda não chegou a seu pior momento
·
nem a inflação atingiu seu pico destrutivo.
·
Os racionamentos de água e de energia ainda não
se tornaram oficiais.
·
Os protestos de rua ainda não são cotidianos.
A longa e paquidérmica redemocratização brasileira, de 1979
a 2013, foi feita com base em um grande acordo que teve pelo menos três
momentos. A década de 1980 foi
marcada pela formação de um “Centrão”
político para a superação do autoritarismo, uma garantia contra o risco de
“guinadas bruscas” do quadro político. Na década
de 1990, esse Centrão foi dirigido e direcionado para a produção de uma estabilização econômica e
política, superando a paralisia e o caos da década anterior. Na década de 2000, sem alterar essa mesma
lógica de gerenciamento do sistema político, a estabilização alcançada foi
posta a serviço de uma melhoria geral dos padrões de vida sem aumento das
desigualdades.
A crise atual mostra a obsolescência desse acordão típico da
redemocratização e a necessidade de uma democratização da democracia, de uma
efetiva democratização do sistema político.
O ambiente para isso é ruim, evidentemente. Mas é o que se
tem.
Qualquer realinhamento tem de ser feito quanto antes. Não se
pode esperar que a múltipla crise que enfrentamos atinja seu momento mais
destruidor. Do contrário, o que se verá é uma situação de caos social,
econômico e político como só a década de 1980 foi capaz de produzir.
*
Marcos Nobre é professor de Filosofia da Universidade
Estadual de Campinas (UNICAMP) e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e
Planejamento (CEBRAP).
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Suplemento ALIÁS – Domingo, 22 de março de 2015 – Pg. E2 –
Internet: clique aqui.
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