O QUE SE PASSA ENTRE OS JOVENS UNIVERSITÁRIOS???
Ritual de moagem
José de Souza
Martins*
Veteranos exacerbam
para os calouros seu desdém pela ordem e regulamentos vivendo poder que não têm
e autoridade que carecem
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Universitários celebram a lógica autodestrutiva das bebedeiras |
As celebrações inaugurais de anos letivos nas universidades,
entre as quais o trote é a mais notória, tem funções sociais indiscutíveis,
apesar da compreensível onda de apreensão e crítica em face da violência que as
vem caracterizando. Um simples arrolamento do que nelas acontece já indica que são um modo, frequentemente tortuoso,
de quebrar o liame entre a nova geração da classe média e a geração de seus
pais. Mas também entre os que deixam a adolescência e se defrontam com as
instituições que definirão a teia de enquadramentos que os fará adultos, cidadãos
e profissionais. Dois conflitos lançam o jovem ingressante da universidade numa
relação de desacordo com seu passado recente e de descontentamento com seu
futuro próximo, no próprio limiar desse novo tempo de sua vida. Trotes de calouros e celebrações de
veteranos são expressões rituais desse curto tempo da vida de um jovem
universitário, que a realidade social condena a viver as incertezas do
provisório e a tocar a vida entre parênteses, entre o que já não é e o que
ainda não se tornou. Esse é o tempo da angústia de toda transição.
Já não são crianças e ainda não são adultos, um privilégio e
um fardo para os que têm a adolescência
prolongada pelo mero ingresso na universidade. Não é estranho, portanto, que muitos se comportem como imaturos,
embora a maioria consiga agir com a sabedoria própria dos que têm esperança e
não se deixe abater pelas adversidades próprias dessa idade da incerteza.
Desafiar,
desrespeitar e destruir são formas negativas de encontrar rumo numa
sociedade que se propõe às novas gerações como um monturo de carências morais,
de bastardias políticas e de desrespeito à figura referencial, ainda que
meramente doutrinária, do cidadão e da pessoa de bem. Nesses ritos de passagem
uma geração exercita-se ritualmente na iniciação nas misérias do contemporâneo,
exacerbando o que de pior há no mundo que lhes chega ao horizonte. E desse modo
apresentando-o aos recém-chegados, seus companheiros de idade e de
pós-adolescência.
Mas há modos
civilizados e incivilizados de fazer essa passagem. O trote, tal como o conhecemos, é o modo incivilizado de introduzir
os calouros na sociedade transitória e precária da vida de aluno da
universidade. A via do deboche, da humilhação do outro, pode ser também
indicativa de que os praticantes desses trotes perfilham e aplaudem o que há de
pior na sociedade em que vivemos. Não
apenas ironizam, mas de fato acreditam que o mundo deveria ser assim. No
elenco dos trotes e festas inaugurais deste início de ano letivo destaco alguns
que expressam a selvageria da mentalidade reacionária e ultradireitista dos que
nesse agir mostram-se continuadores da
cultura do capitão do mato. Os calouros de arquitetura da Universidade Federal da Bahia foram
recebidos por um boneco enforcado, negro, recoberto com seus nomes. O negro
vitimado pelo tronco e pela chibata ainda pena no imaginário de gente que, 127
anos depois da Abolição, pensa como pensava o senhor de escravos. Na Universidade Federal de São Carlos, em
São Paulo, as calouras foram leiloadas
no “leilão dos bixos”, tendo que declarar publicamente atributos e
preferências de natureza íntima, tornando-se apadrinhadas de quem as
arrematasse. A mesma mentalidade escravista do mercado de cativos do Valongo
persiste e insiste. A mentalidade do
pelourinho está no centro da cultura do trote. Tivemos mais de um século
para aprender a respeitar as diferenças como legítimo direito de cada um e ainda há entre nós quem insista em tratar o
outro como peça e mercadoria.
Nessas “cerimônias”, os veteranos exacerbam para os calouros
seu desdém pela ordem e pelos regulamentos, vivendo o poder que não têm e a
autoridade de que carecem e na universidade é assegurada unicamente pelo
trabalho intelectual sério e pela sequência de teses e concursos que, ao longo
de uma vida mal paga e mal reconhecida, qualificam os docentes e diferenciam
quem ensina de quem aprende. Desdém que
se enraíza na prática dos novos alunos, muitos dos quais e cada vez mais tratam
hoje seus professores como tratam em casa suas empregadas domésticas e como
seus bisavós tratavam os escravos.
A descontinuidade entre as gerações é um traço
característico da sociedade moderna, em grande parte porque os que vão chegando
têm como quadro de referência de sua socialização interferências de todo tipo,
estranhas à família e estranhas à escola. Elas são infiltradoras de
significações e até mesmo de uma lógica de vida completamente divorciada das
tradições de família e das tradições acadêmicas, que, mesmo não sendo
conservadoras, implicam o pressuposto da continuidade própria da produção do
conhecimento e de sua difusão. Se nos
ativermos à ciência, ela muda a vida e muda o mundo, mas muda no marco de um
essencial que permanece: cognitivo, ético, social, lógico. As revoluções
copernicanas no campo do conhecimento são menos frequentes do que se imagina e
do que até mesmo se pode querer. É
próprio da revolução científica a prudência, a regra, o critério, o método.
Evidência dessas interferências impróprias e invasivas e, ao
mesmo tempo, altamente significativas pode ser vista na foto, publicada pelos jornais, do grupo de estudantes da Unesp de Bauru que promovia uma disputa de
bebedeira [veja abaixo], de que resultaram vários rapazes e moças levados em coma para
hospitais, um deles morto depois de tomar 25 copos de vodca. A camiseta amarela que vestiam tinha no
dorso, bem ostensiva, a marca de conhecida cerveja, apoiadora do evento.
Bebida é para ser bebida, se muita ou pouca depende do bom senso de cada um, é
verdade. Mas a lógica da empresa que produz bebidas é a da quantidade que seus
clientes e patrocinados bebem e não a moderação. Moderação no beber é coisa de religião e não do fabricante de bebida.
São hipócritas e enganosas frases de propaganda como “beba com moderação”, “se
beber, não dirija”.
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De braços pra cima, estudante comemora após tomar outra dose - Festa de estudantes da UNESP-Bauru (Foto: Reprodução/TV Globo) |
A lógica autodestrutiva das festas de bebedeira está numa
inserção que o próprio estudante falecido havia feito na internet: “É melhor morrer de beber vodca do que
morrer de tédio”. Mesmo que seja brincadeira, há um conteúdo suicida nessa afirmação, confirmada pela descabida
morte de quem a fez. Caso extremo e trágico do ímpeto de ruptura que nas
celebrações inaugurais de ano letivo, à luz de outras ocorrências do mesmo gênero,
dos últimos anos, indica quanto uma
certa tendência à autodestruição está presente nessas festividades, na morte
própria e na morte do outro. É o tudo ou nada do radical descompromisso com
a sociedade atual, tanto importa viver
quanto morrer.
Por mais que a universidade seja o lugar por excelência de
formação dos agentes da inovação em todos os campos do conhecimento. Portanto,
como lugar da ordem que cria a desordem da mudança. Só que seus personagens
mais numerosos, os estudantes, são também personagens da crise de gerações.
Mesmo os mais conformados com o já existente, em algum grau foram socializados
pelos valores invasivos que, na sociedade de consumo, são sobretudo os valores do agora, do instante, e não os valores do sempre, do que permanece
e muda ao mesmo tempo. Os trotes e as celebrações inaugurais acabam se
tornando momentos rituais da absolutização
da recusa do existente. O que não tem como ganhar corpo em casa e na
família explode na universidade, entre nós positivamente regulada pelos valores
da liberdade. Porém, essa liberdade necessária é capturada pelas motivações e
impulsos da negação do que se é.
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Humberto Moura Fonseca - estudante de 23 anos que morreu de coma alcoólico em Bauru. Em seu perfil numa rede social ele adotava a frase de Vladimir Maiakovscki: "Melhor morrer de vodca que de tédio" |
A universidade é lugar e momento de ritos de passagem, em
que o adolescente se torna adulto, perde sua identidade difusa e constrói sua
identidade nova, aquela que dirá a todos quem ele é e será ao longo da vida. A sociedade de consumo e seus valores
corrosivos desconstroem o modo de ser, mas também a identidade possível dos que
estão chegando ao mundo adulto. Ao mesmo tempo, desconstroem o ser possível da identidade que poderiam ganhar se
mergulhassem no espírito da universidade.
*
José de Souza Martins é sociólogo. professor emérito da
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Autor, entre outros
livros, de Linchamentos - a Justiça Popular
no Brasil (Editora Contexto, 2015).
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Suplemento ALIÁS – Domingo, 8 de março de 2015 – Pg. E2 – Internet:
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