OS FRUTOS DO POPULISMO E AUTORITARISMO
O não defensor dos pobres
J. J. Gallagher
The Christian Science Monitor
Sob o governo Maduro,
70% das famílias poderão estar abaixo da linha de pobreza este ano
Andre Mendes, de pé sob um quente sol tropical observa com
atenção a rua congestionada à sua frente. Ele vigia a entrada de um complexo de
lojas e apartamentos, mas o que é oferecido lá dentro está fora do seu alcance.
Um hambúrguer na praça de alimentação deste shopping custa mais do que ele
ganha por dia como segurança. "Eu costumava comprar sem me preocupar.
Agora pergunto o preço antes, mesmo que seja um doce", disse.
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Nicolás Maduro - atual Presidente da Venezuela |
Diante da escalada da
inflação e da escassez de produtos
essenciais e remédios, um número cada vez maior de pessoas luta para suprir
suas necessidades básicas. Em qualquer
lugar entre um terço e metade da população vive hoje na pobreza, segundo
estudos divulgados nas últimas semanas. E as privações crescentes da classe
trabalhadora venezuelana pode indicar problemas mais adiante para o governo.
Dois anos depois da morte de Hugo Chávez, seus aliados lutam para manter o país unido frente aos
protestos e à queda dos índices de aprovação do governo. Chávez apresentou-se como defensor dos pobres durante seus 14 anos no
poder, canalizando bilhões de dólares do petróleo em programas sociais. À
medida que a pobreza diminuiu, a lealdade dessa camada da população por tanto
tempo ignorada aumentou. Mas o sucessor escolhido por Chávez, Nicolás Maduro, herdou uma economia
estagnada que piorou com a queda dos preços internacionais do petróleo.
A aprovação pública do governo caiu de 60% na época de
Chávez, em 2013, para apenas 23% em março. Com o aumento da pobreza, muitos
começam a questionar o que isso significará para o futuro do chavismo.
"Se a situação
piorar, o governo terá de encarar uma população com pouquíssimas oportunidades,
incluindo sua base política", disse Dimitris Pantoulas, analista político em Caracas.
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Prateleiras vazias em supermercado de Caracas, Venezuela |
As frustrações aumentaram nos últimos meses. O governo
instalou scanners de impressão digital nos mercados controlados pelo Estado
para monitorar as compras e mobilizou a Guarda Nacional para manter a ordem nos
supermercados e farmácias. As filas para comprar produtos difíceis de encontrar
com frequência vão até a rua. Muitos produtos subsidiados pelo governo acabam
nas mãos de comerciantes ilegais que os revendem a preços que poucos
trabalhadores podem pagar. "A festa
do petróleo acabou", diz Luis
Pedro España, sociólogo da Universidade
Católica Andres Bello, em Caracas, autor de recente estudo sobre a pobreza
e os programas sociais na Venezuela.
As receitas do petróleo permitiram a Chávez oferecer
alimentos, habitação, assistência médica e educação subsidiados para os pobres
do país. Com os preços do petróleo registrando a maior queda em cinco anos, a
Venezuela hoje está sem recursos e isso significa escassez e inflação, que oficialmente chegou a 197% nos primeiros dois meses do ano. Cerca
de 70% das famílias poderão viver abaixo da linha de pobreza este ano, segundo
pesquisa de Pedro España, a maior taxa já registrada desde que as estatísticas
sobre pobreza começaram a ser realizadas na década de 80.
Esses números abstratos se traduzem em problemas de fato
para os venezuelanos que já vivem no limite.
"Tudo está mais
caro. E mais difícil", diz Carolina
Alfaro, funcionária de uma lanchonete que ganha 5.600 bolívares por mês,
entre US$ 24 e US$ 36 às taxas do mercado negro. Mendes, o segurança, diz que
trabalha seis dias por semana para conseguir sobreviver. "Eu tinha ajuda do governo. Mas agora não.
Estou decepcionado."
Em 2013 a faixa da população da Venezuela vivendo na pobreza
aumentou quase sete pontos porcentuais, para 32%, de acordo com levantamento
anual da Comissão Econômica para a
América Latina e o Caribe (Cepal), em comparação com a média de 28% em toda
a América Latina.
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Luis Pedro España - sociólogo da Universidade Católica - Caracas |
A equipe de España concluiu que o número de famílias vivendo na pobreza na Venezuela subiu para 48% em
2014. E, segundo uma ONG local, a Provea,
suas análises mostraram que a Venezuela
provavelmente encerrará 2015 com o mesmo número de pobres que havia em 2001,
praticamente cancelando todos os avanços obtidos no governo Chávez.
A Venezuela ainda não chegou no fundo do poço. As coisas
"podem piorar", diz David
Smilde, analista do Washington Office
on Latin American, que vive no país latino. Ele diz que a inanição e a fome
extrema ainda não são os principais desafios.
Além disso, muitos venezuelanos pobres desfrutam hoje de um
padrão de vida melhor do que tinham antes de Chávez reformular o governo, diz
Smilde. A taxa de pobreza na Venezuela
era de 63% em 2003, durante o primeiro mandato de Chávez, e caiu para 25% em
2012, seu último ano no poder, com base em dados do Banco Mundial.
O governo tem espaço para sobreviver à turbulência
econômica, diz Mark Weisbrot,
codiretor do Centro de Pesquisa Política
e Econômica, com sede em Washington. "Se a tendência atual continuar,
o governo vai ter problemas, mas não há nenhuma razão para acreditar que eles
não farão as mudanças necessárias", afirmou Weisbrot.
Desde 2007, a Venezuela tomou dezenas de bilhões de dólares
emprestados da China para escorar suas finanças. E também reduziu os programas
de ajuda estrangeira criados por Chávez, como o Petrocaribe, com a venda de petróleo para nações caribenhas e da
América Central em condições preferenciais. O governo está discutindo também a
redução do subsídio à gasolina que custa ao país mais de US$ 15 bilhões por
ano.
Este mês a Assembleia Nacional concedeu poderes para Maduro
governar por decreto, pela segunda vez desde que ele assumiu o governo em 2013.
Estes poderes perdurarão durante todo o ano e muitos temem
que serão usados para reprimir os dissidentes políticos dentro do país.
Muitos venezuelanos
estão profundamente comprometidos com o chavismo, apesar das dificuldades
econômicas. "Se estamos numa situação ruim, porque voto no
governo?", questiona Jain Torrealba, pai de três filhos que ganha salário
mínimo como frentista. "Tenho de ter paciência com o sistema, pois não
vejo nenhuma outra solução...para mim, que sou pobre", afirmou.
Traduzido do inglês por Terezinha Martino.
Fonte: O Estado de S. Paulo – Internacional /
Visão Global – Domingo, 29 de março de 2015 – Pg. A19 – Internet: clique aqui.
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