MANOBRAS DE BASTIDORES - IMPUNIDADE À VISTA?
Governo planeja pacote para socorrer empreiteiras
suspeitas
Andreza Matais,
Débora Bergamasco e Murilo Rodrigues Alves
Intensificação de
liberação de verbas federais e acordos com controladoria integram estratégia do
Planalto
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Edifício-sede da Controladoria Geral da União em Brasília - DF |
Numa tentativa de socorrer empreiteiras acusadas de envolvimento
no esquema de corrupção na Petrobrás, o governo tomará uma série de iniciativas
com potencial para acalmar os empresários presos na Operação Lava Jato. O
esforço passa por:
·
liberar
empréstimos de bancos públicos e
·
verbas
orçamentárias, além de
·
acelerar
acordos de leniência* via Controladoria-Geral da
União [CGU], seguindo discurso da presidente Dilma Rousseff de que empresas
não podem ser punidas, mas, sim, seus malfeitores.
Uma das primeiras iniciativas será financeira. O governo começou a liberar recursos
orçamentários para pagar obras já finalizadas pelas empreiteiras da Lava Jato.
Para a Odebrecht, o governo pagou R$
37,1 milhões no dia 23 de janeiro. A Queiroz
Galvão, também acusada de participar do “clube da propina”, recebeu R$
124,25 milhões entre janeiro e fevereiro. A Engevix, que tem seu vice-presidente preso na superintendência da
Polícia Federal em Curitiba, outros R$ 2,2 milhões. Os valores constam do Siafi, sistema de registro de
pagamentos do governo federal, e foram levantados pela liderança do DEM no
Senado a pedido do Estado.
A sobrevida às empresas, na estratégia do governo, será
garantida, ainda, com a liberação de
empréstimos do BNDES e do Banco do Brasil [BB] já solicitados pelas
empresas da Lava Jato, mas que estão paralisados desde o ano passado. São os
chamados “empréstimos-ponte”, usados
para solucionar problemas urgentes de caixa das empresas. O novo presidente da
Petrobrás, Aldemir Bendine, também
foi escalado para garantir a retomada dos pagamentos dos contratos com a
petroleira.
Valores
Quando ainda ocupava a presidência do BB, Bendine se reuniu
com outros bancos para calcular a dívida
das empreiteiras investigadas com bancos públicos e privados. Estima-se um rombo de R$ 130 bilhões. O número
teria sido comunicado ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e a
procuradores da Lava Jato. O BB e a Febraban disseram que não comentariam sobre
a reunião. A assessoria de Janot negou o encontro com Bendine. O cálculo foi feito porque o governo se
preocupou com o impacto da operação no sistema financeiro nacional. O medo
era de que os bancos tivessem que arcar com os calotes caso as empresas fossem
declaradas inidôneas. Isso impediria que pudessem ser contratadas pelo setor
público.
A Lava Jato atingiu dezenas de empreiteiras. Onze
empresários da UTC/Constran, Camargo Corrêa, OAS, Mendes Junior, Engevix e
Galvão Engenharia estão presos desde 14 de novembro na Superintendência da
Polícia Federal em Curitiba.
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Luís Inácio Adams - Ministro da Advocacia-Geral da União |
Leniência
A insistência do
governo para que a CGU faça o acordo de leniência com as empresas da Lava Jato
em lugar do Ministério Público Federal também agrada às empresas. O acordo
é proposto pelas empresas, mas caberá à CGU aceitar ou não as condições
impostas. No fim do ano passado, a CGU tentou fazer um acordo com a SBM
Offshore, empresa holandesa acusada de pagar propina em troca de contratos com
a Petrobrás. Não houve acordo porque a controladoria defendeu que a multa fosse
na casa do bilhão, valor equivalente ao prejuízo calculado pela então
presidente da Petrobrás, Graça Foster. A SBM queria pagar R$ 400 milhões.
O ministro da Advocacia-Geral da União, Luís Inácio Adams, defende que o valor da multa seja “real”. “Qual
o valor a ser ressarcido? O Ministério Público estipula o deles, mas é real? A
Petrobrás vai fazer o dela. Como a empresa vai ressarcir? Temos que achar uma
base comum”, afirma. Além da negociação
sobre a multa, o acordo de leniência pela CGU evita que as empreiteiras sejam
impedidas pela Justiça de receber incentivos, subsídios e empréstimos da
administração pública.
Declaração da presidente Dilma Rousseff em defesa das
empresas também teria tido o efeito de tranquilizar os investigados. “Iremos
tratar as empresas tentando, principalmente, considerar que é necessário criar
emprego e gerar renda”, disse ela há pouco mais de uma semana.
*
Acordo de leniência é o acordo celebrado entre a
Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE) - que atua em nome da União - e
pessoas físicas ou jurídicas autoras de infração contra a ordem econômica, que
permite ao infrator colaborar nas investigações, no próprio processo
administrativo e apresentar provas inéditas e suficientes para a condenação dos
demais envolvidos na suposta infração. Em contrapartida, o agente tem os
seguintes benefícios: extinção da ação punitiva da administração pública, ou
redução da penalidade imposta pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica
(CADE). O acordo de leniência, com origem no Direito norte americano, é o
mecanismo de manutenção da ordem concorrencial com o escopo de coibir a prática
de infração à ordem econômica (Fonte:
JusBrasil).
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Política – Domingo, 1 de março de 2015 – Pg. A4 – Internet: clique
aqui.
Crise do fim do mundo
Eliane
Cantanhêde
O 15 de março* vem aí, com péssimas condições de tempo e
temperatura, o governo fazendo barbeiragens e a oposição instigando as
manifestações, mas desautorizando o "Fora, Dilma". E ironizando o
"Foi o FHC".
Na economia, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, acerta ao
entregar um superávit de R$ 21 bilhões
em janeiro, mas erra feio ao criticar e chamar de "brincadeira"
as desonerações feitas pela chefe Dilma Rousseff no primeiro mandato. Não se
cutuca a onça com vara curta.
E... o aumento de até
150% nos impostos da indústria vem numa hora de pânico do setor produtivo e
não é nada promissor para crescimento, inflação e empregos, que já começam a
tremelicar.
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Rodrigo Janot (à esquerda) - Procurador-Geral da República conversando com José Eduardo Cardozo (à direita) - Ministro da Justiça |
Na política, as ameaças ao procurador-geral da República,
Rodrigo Janot. Entraram na casa dele e isso virou justificativa para seu
encontro com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, um mês depois,
justamente às vésperas do anúncio da lista de políticos do PT e do PMDB na Lava
Jato. Pior: em 48 horas, o procurador
desiste da denúncia de políticos e segue pelo desvio de abrir inquérito.
Leia-se: jogar tudo para as calendas.
Janot pode estar
enveredando pelo pior dos caminhos: aquele que estanca um basta na
corrupção sistêmica, dá na impunidade dos responsáveis pela maior roubalheira
descoberta na República e, atenção, pode respingar na sua própria biografia.
Já o ministro da
Justiça se encontra com o advogado da UTC**, por acaso, ali na porta ao lado do seu
gabinete, diz "Oi!, como está você?" e vira as costas. Também recebe
a turma da Odebrecht e registra em
ata que vai ver direitinho como foi o pedido de dados na Suíça, o que pode
resultar em anulação de provas contra as empreiteiras. Depois se reúne com o
procurador à noite, numa semana decisiva, para discutir um arrombamento desses
que ocorrem às centenas, ou milhares, por dia.
Enquanto a política econômica dá um cavalo de pau, as
versões do governo para sua ação na Lava Jato parecem sem pé nem cabeça e a
sociedade se move, as investigações do esquemão na Petrobrás avançam. Só não se
sabe para onde.
Já eram esperadas as delações premiadas de dois executivos
da Camargo Corrêa, o presidente, Dalton Avancini, e o vice, Eduardo Leite (em choque com a própria
companhia), que devem reforçar a tese de cartel contra a de esquema político
para eternizar o PT no poder.
É o que o governo quer, mas não o que interessa à Odebrecht,
onde habitam os maiores amigos de Lula e Dilma no setor. A empresa é a única
que não tem nenhum executivo na cadeia e ficou fora da lista que vai pagar
multa de R$ 4,5 bilhões, porque seus meandros de financiamento de campanha são
muito mais complexos, não se encaixam nas investigações. Mas, se prevalecer a
confissão conjunta de "cartel", ela entra na dança.
É mais um choque de interesses, mas o foco continua sendo no
grande personagem das investigações: Ricardo
Pessoa, o homem bomba da UTC. Tudo depende agora do fator emocional.
Digamos que é uma questão de tempo.
Tem-se, assim, que a economia está como está, os ajustes são
amargos num momento já de tanta amargura, o PMDB acaba de ir à TV se descolando
do governo, cresce a sensação de que o
procurador-geral está nas mãos de Dilma e Cardozo e o desfecho da Lava Jato é
incerto, depois de tantas revelações escabrosas.
Pois é... e o 15 de março vem aí. Fernando Henrique Cardoso reuniu seus generais na sexta e o recado é: manifestações, sim; incitar o
impeachment, não. Lula também
reuniu sua tropa e avisou: se
necessário, põe nas ruas a "tropa do Stédile" (ou seja, MST e
movimentos sociais).
O que talvez os dos
dois lados não estejam entendendo é que, desta vez, não se trata de PT versus
PSDB. O momento é grave, a situação é complexa e a dinâmica é a de junho de 2013. As manifestações não são de
partidos, de governo ou de oposição. São principalmente contra Dilma, mas
contra todos eles.
* Para este
dia (15 de março de 2015), está
sendo feita uma convocação nas redes sociais para que se realizem protestos em
favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff em várias cidades do país.
** A UTC
Participações S.A. foi constituída em 1997, como Empresa Holding. Suas
principais controladas são a UTC
Engenharia, seu carro chefe, a CONSTRAN,
a UTC Exploração e Produção, a UTC Desenvolvimento Imobiliário, a UTC Defesa e a UTC Investimentos.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Política – Domingo, 1 de março de 2015 – Pg. A4 – Internet: clique
aqui.
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