Quantos, de verdade, estão desempregados?
Desemprego ampliado no Brasil é de 21,2%,
quase o dobro da taxa oficial
Alexa Salomão
Pesquisa do Credit Suisse soma aos desempregados as
pessoas que desistiram de procurar trabalho ou vivem de bicos; Brasil ficou com
o sexto maior porcentual entre 31 nações e à frente de países com renda
semelhante
A
deterioração do mercado de trabalho no Brasil é muito mais profunda do que
indicam as pesquisas tradicionais. Segundo estudo comparativo do banco Credit
Suisse, o Brasil está entre os
recordistas globais do chamado desemprego ampliado. O levantamento indica
que o Brasil tem a sexta maior taxa de desemprego ampliado entre 31 países
desenvolvidos e emergentes que foram avaliados.
Em
síntese, a taxa de desemprego
tradicional considera apenas quem procura trabalho e não encontra. A taxa de desemprego ampliada usa uma métrica mais
complexa:
* inclui quem faz bico por falta de opção e
* trabalha menos do que poderia ou
* desistiu de procurar trabalho – sofre do chamado desalento.
De
acordo com os dados mais recentes, do terceiro trimestre de 2016, a taxa de desemprego ampliada do Brasil
bateu em 21,2% – quase o dobro do desemprego oficial, que nesse período
alcançou 11,8%. Por esse critério, perto
de 23 milhões de brasileiros estariam desempregados ou subutilizados. [Uma verdadeira catástrofe social e econômica em nosso país!]
Numa
comparação internacional, a taxa de desemprego ampliado do Brasil está bem
acima da média dos países analisados, que é de 16,1%. Também fica acima da taxa de países com renda
comparável a do Brasil, como México
(18,3%) e Turquia (15,9%). O Brasil
está atrás apenas de países profundamente afetados pela crise internacional: Grécia (o recordista, com 31,2% de
desemprego ampliado), Espanha
(29,75%), Itália (24,6%), Croácia (24,6%) e Chipre (23,8%).
Esta
é a primeira vez que um levantamento do gênero inclui o Brasil e isso só foi
possível porque agora há dados disponíveis no organismo oficial responsável por
acompanhar o mercado de trabalho, o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE). Desde novembro do
ano passado, o IBGE oferece informações complementares sobre a subutilização da
força de trabalho.
Foi
com base nessas novas estatísticas que o banco organizou o levantamento. “Os
novos indicadores oficiais permitem uma visão mais abrangente sobre a realidade
do mercado de trabalho brasileiro e uma comparação internacional”, diz Leonardo
Fonseca, economista do Credit Suisse
que coordenou o estudo.
Concreto
O paulistano Tiago de Oliveira Souza, 32
anos, é um exemplo da sutileza da nova estatística. Ele não engrossa a taxa de
desemprego tradicional, pois tem uma ocupação: é motorista do Uber. Mas preenche os requisitos para compor a taxa de
desemprego ampliado porque é subutilizado. Souza trabalha menos horas do que
poderia. “Tento fazer 8 horas por dia, mas nem sempre consigo, porque tem
concorrência. A demanda oscila, tudo é muito imprevisível”, diz.
Tiago
também está numa atividade abaixo de suas qualificações. Fala, lê e escreve em
inglês com facilidade. Tem, na sua definição, nível “intermediário avançado”.
Apenas 5% dos brasileiros têm esse domínio do idioma. De 2004 a 2014, foi
metalúrgico na Mercedes-Benz Caminhões, em São Bernardo do Campo (SP). Foi de
montador a inspetor de qualidade.
Aderiu
a um programa de demissão voluntária pois achou que poderia fazer carreira em
outra atividade. Ocorre que, naquele momento, a crise chegou e as suas
possibilidades foram se estreitando. Souza, que toca guitarra e violão, foi ser
vendedor numa loja de instrumentos musicais, mas não se adaptou. “As metas eram
altas e as vendas caíam”, diz. Decidiu, então, trabalhar num bar de jazz, na
Vila Madalena. “Em maio do ano passado, o bar não resistiu e fechou”, diz ele.
Por
quatro meses, distribuiu currículos, sem sucesso. Sobrou ser motorista. “O Uber era para complementar renda e virou
atividade principal. Ainda bem que eu tenho isso.”
O
economista Sérgio Firpo, professor e pesquisador do Insper, lembra que há
muitos critérios para medir o desemprego. Historicamente, o desemprego do IBGE
foi inferior ao do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos
Socioeconômicos (Dieese). “O que importa é que haja padronização”, diz Firpo.
Nesse caso, o desemprego ampliado é um
refinamento nas estatísticas que aperfeiçoa a análise do mercado de trabalho.
Produtividade
O
relatório do banco Credit Suisse
sobre a macroeconomia brasileira traz um dado preocupante: setores considerados mais produtivos demitem mais do que os menos
produtivos. Essa dinâmica vai puxar para baixo a produtividade do trabalho
no Brasil, que já está muito aquém do adequado, e levar a uma mudança
estrutural para pior. “Isso vai fazer
com o que Brasil cresça menos no médio e no longo prazos”, diz Leonardo
Fonseca, economista do banco que coordenou o relatório.
Segundo
Fonseca, a análise mais acurada das demissões deixa claro que setores de alta produtividade, como
imobiliário, intermediação financeira e serviços de informação, foram mais
ágeis em se ajustar à recessão. “Setores mais produtivos demitiram mais
gente”, diz.
Nos
setores menos eficientes da economia, o que se vê é o inverso. As demissões
foram graduais. Em alguns casos, como administração, saúde e educação pública,
os cortes nem foram feitos.
O
relatório destaca que setores mais produtivos têm uma participação menor no
mercado de trabalho e, portanto, menor influência no comportamento do emprego.
No
entanto, os setores mais eficientes fazem enorme diferença sobre a capacidade
da economia como um todo crescer. Um
número menor de pessoas em áreas mais produtivas e um número maior em áreas
menos produtivas puxa para baixo a produtividade total. “Isso indica que a atual recessão vai ter um
impacto permanente sobre a capacidade de o País crescer no futuro”, diz
Fonseca.
Comentários
Postar um comentário