O discurso de Trump, o que esperar?
As convicções na porta da Casa Branca.
Três especialistas opinam sobre o discurso
de Trump durante sua posse
Matías Ferrari
Página/12
Buenos
Aires, Argentina
21-01-2017
“Ele não pensa em uma mudança profunda”
Ernesto Semán
Professor
de História na Universidade de Richmond (Virgínia, Estados Unidos)
A
última coisa que Trump imagina, antes e depois das eleições, é uma mudança
profunda. O que parece ter construído, e seu discurso de posse confirma, é uma
vasta aliança social e política, porém precária, a partir da qual irá renovar (e não alterar) a legitimidade
de alguns elementos centrais da sociedade norte-americana:
* a distribuição desigual de
renda a nível social;
* a percepção de fortes
hierarquias de ordem, especialmente, mas não estritamente, raciais;
* e a influência maciça do
dinheiro como o elemento decisivo no processo político.
É um projeto extremamente conservador,
mas que inclui muitos aspectos do olhar econômico liberal que dominou a gestão
de Obama. Minha impressão, visto o discurso, é que as tensões se concentrarão, especialmente no começo do mandato,
entre ele e o Partido Republicano, e as chances que ele tenha de manter essa
vasta aliança social e ao mesmo tempo implementar as reformas que ele imagina.
Quanto
à frase dita por Trump sobre o quão oneroso é para os Estados Unidos
"subsidiar exércitos de outros países", ela deve ser relida quando
terminarem as eleições na França e
na Alemanha, para que os Estados
Unidos vejam qual é a sua margem para manobra. De qualquer forma, as relações com a Rússia demandavam dos
Estados Unidos uma reacomodação do papel (e do orçamento) da OTAN,
independente do presidente. Hillary Clinton também tinha planos (um pouco
diferentes) sobre o assunto.
Trump
tem sido muito eficaz em detectar o momento político que lhe oportuniza ser
líder: o simples ato de denunciar as elites como oligarquias, ou seja, como um
grupo que detém o poder de alguma forma ilegítima e sem a capacidade de
representar um interesse geral presumível, demonstra isso. Ele se ergue, muito
simbolicamente, enfrentando isso, contra candidatos republicanos e contra
Hillary Clinton, que despendem muito mais dinheiro do que ele. Ler o clima geral é provavelmente a chave
para a política democrática, além de ser o que o Partido Democrata mais
teve dificuldades de enxergar: a enorme
demanda por alguém que pudesse denunciar aqueles que gerenciam o destino do
país. Utilizando desse fundamento, Trump tenta reconverter em novas bases a
legitimidade de muitas das políticas que esses grupos representam. O nacionalismo, nesse sentido, é também uma forma de aproximar a população
do processo de tomada de decisões sobre assuntos que lhes dizem respeito.
A
recuperação da produtividade que ele anunciou, por outro lado, parece bastante
possível. Também é muito possível (quase necessário) intensificar a
produtividade da economia norte-americana aumentando a desigualdade, ou seja,
que a base do problema, que fez Trump emergir, continue existindo.
Contra
tanta raiva existente sobre o populismo de Trump, pela forma em que
supostamente ataca a institucionalidade e a continuidade da gestão, deveríamos
recordar que tanto a sua campanha quanto
o seu governo, que começou ontem, estão
justamente construídos sobre instituições ancestralmente liberais e a
continuidade mais profunda das elites norte-americanas, começando pelo elogio à riqueza e à primazia dos direitos de propriedade
privada sobre qualquer outro elemento da vida social.
“Um país profundamente dividido”
Ernesto Calvo
Professor
de Ciência Política na Universidade de Maryland, Estados Unidos
![]() |
ERNESTO CALVO |
Os
Estados Unidos são hoje um país profundamente dividido. Dividido de maneira
econômica, social, política e territorial. Nas
últimas três décadas, os recursos econômicos das suas elites e, portanto, a
influência política das mesmas, aumentou exorbitantemente. Ao mesmo tempo, as classes médias e baixas viram sua renda
estagnar e sua participação econômica no produto bruto retroceder. A “política de ressentimento”, como tem sido chamada,
tem tanto bases econômicas, quanto políticas e culturais. Suas bases estão
construídas com a desigualdade econômica que tomou de assalto os Estados Unidos
a partir dos anos 80.
Nos
últimos trinta anos vimos também progressos significativos no que é chamado de “política da identidade”. Os direitos dos latinos, a comunidade
afro-americana, os imigrantes recentes,
a comunidade LGBT, todos ganharam um espaço cultural sem
precedentes. Mesmo que a economia seja cada vez mais desigual, a inclusão
social e cultural tem enchido de otimismo as comunidades historicamente
relegadas. Enquanto o presente é dos
ultrarricos, o futuro foi prometido a um Estados Unidos diverso, multicultural
e cosmopolita. O tronco do Trumpismo nos Estados Unidos, portanto, tem suas
bases sociais no ressentimento contra a crescente inclusão cultural das
minorias.
Nos
últimos trinta anos, temos visto também uma crescente diferenciação territorial
dos eleitores. O sul e o centro do país
estão cada vez mais republicanos. O nordeste
e o oeste, comprometidamente
democratas. Enquanto a riqueza é concentrada de maneira desmedida pelos ultrarricos,
particularmente sobre as suas costas, as mesmas costas com maior diversidade
social e cultural, o sul profundo e o centro-oeste se empobrecem social,
cultural e politicamente. Eles são a representação de um passado em que ambas
as costas querem se fazer de mortos. Estes
distritos do sul e do centro-oeste são os que dão a Trump uma agenda política.
Eles são a sua cabeça.
Há
150 anos, Abraham Lincoln pronunciava
um de seus discursos mais famosos, que afirmava que “uma casa dividida contra si mesma não poderia perdurar”. O
equilíbrio de poder entre o sul escravista e o norte "livre" havia
atingido o seu ponto de ruptura constitucional. Em 1856, tanto o sul quanto o
norte sabiam que o futuro pertencia a uma nação escravista ou a uma nação sem
escravos. A crise que divide hoje os Estados Unidos está longe de ter essa
profundidade constitucional, mas é igualmente insustentável. O trumpismo, assim como o cesarismo em
Gramsci, promete uma revolução cultural para manter a desigualdade e,
simultaneamente, devolver aos eleitores brancos o seu status cultural que fora
perdido. Não lhes promete dinheiro, mas respeito, o qual será redistribuído
a partir das minorias norte-americanas.
“Não lhe importa as reações”
Gabriel
Puricelli
Analista
Internacional do Laboratório de Políticas Públicas
Após
o discurso de ontem, se ele fosse membro da OTAN, estaria muito preocupado.
Ninguém menos do que o presidente dos Estados Unidos disse que seu país está
jogando fora dinheiro para proteger outros países que não retornam nada em
troca. As consequências podem ser complicadas para a União Europeia, que se
esvaece com o Brexit e enfrenta eleições, nas quais o projeto político dos
partidos democratas liberais e socialdemocratas, vigente desde o pós- guerra,
pode cambalear. Os aliados dos Estados
Unidos deveriam estar preocupados com a possibilidade de serem abandonados, e
aqueles que não são aliados, deveriam estar preparados para lidar com um
governo que não terá vontade de administrar tensões de maneira política
assim como todos os presidentes desde Richard Nixon em diante tiveram. No caso
da China, ontem ficou claro que as tensões bélicas no Mar da China Meridional e
no Estreito de Taiwan crescem, particularmente, a níveis de alerta quase
vermelho, embora não creia que isso tenha consequências globais.
Trump
expôs ontem um discurso tão radical quanto o que utilizou para a campanha. Ele
mostrou que não tem nenhum incentivo para moderá-lo, apesar das muitas
manifestações de desejo que, nesse sentido, foram expressas a partir de seu
triunfo. Ele não atenuou o tom em nenhum
aspecto, nem no protecionismo, nem na xenofobia, nem no que diz respeito aos
ataques contra as referências dos direitos civis. Demonstrou que não lhe
importa nada as reações que provoca. O caso mais eloquente foi quando disse que
acabou o momento dos políticos “sem ação”,
ou seja, que têm atitude de pura conversa fiada, em referência direta à
polêmica mantida com o ativista afro-americano e senador da Geórgia, John
Lewis.
Traduzido do espanhol por Henrique Denis Lucas. Acesse a versão
original, clicando aqui.
Comentários
Postar um comentário