2º Domingo do Tempo Comum – Ano Litúrgico A – Homilia
Evangelho:
João 1,29-34
Naquele tempo:
29 João viu Jesus aproximar-se dele e
disse: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.
30 Dele é que eu disse: Depois de mim
vem um homem que passou à minha frente, porque existia antes de mim.
31 Também eu não o conhecia, mas se eu
vim batizar com água, foi para que ele fosse manifestado a Israel».
32 E João deu testemunho, dizendo: «Eu
vi o Espírito descer, como uma pomba do céu, e permanecer sobre ele.
33 Também eu não o conhecia, mas aquele
que me enviou a batizar com água me disse: “Aquele sobre quem vires o Espírito
descer e permanecer, este é quem batiza com o Espírito Santo”.
34 Eu vi e dou testemunho: Este é o
Filho de Deus!»
JOSÉ ANTONIO
PAGOLA
FOME
DE ESPIRITUALIDADE
As
primeiras comunidades cristãs sabiam muito bem que «batizar-se» significa literalmente submergir-se na água, banhar-se ou
limpar-se. Por isso, diferenciavam muito bem o «batismo de água» que
ensinava o Batista nas águas do Jordão e o «batismo de Espírito Santo» que
recebiam de Jesus. O batismo de Jesus
não é um banho corporal que se recebe submergindo-se na água, mas um banho
interior no qual nos deixamos embeber e penetrar por seu Espírito, que se
converte dentro de nós em um manancial de vida nova e inconfundível.
Por
isso, os primeiros cristãos batizavam
invocando o nome de Jesus sobre cada batizado. Paulo de Tarso diz que os
cristãos estão batizados «em Cristo» e, por isso, devem sentir-se chamados a «viver em Cristo», animados por seu
Espírito, interiorizando sua experiência
de Deus e suas atitudes mais profundas.
Não
é difícil observar na sociedade moderna
sinais que manifestam uma fome profunda de espiritualidade. Está crescendo
o número de pessoas que buscam algo que lhes dê força interior para enfrentar a
vida de maneira diferente. É difícil viver uma vida que não aponta para meta
alguma. Não basta, tampouco, viver bem. A
existência acaba tornando-se insuportável quando tudo se reduz ao pragmatismo e
futilidade.
Outros
sentem necessidade de paz interior e
de segurança para fazer frente a
sentimentos de medo e de incerteza que nascem em seu interior. Há quem se sente mal por dentro:
feridos, maltratados pela vida, desvalidos, necessitados de cura interior.
São
cada vez mais aqueles que buscam algo que não seja tecnologia, ciência, nem
ideologia religiosa. Querem sentir-se de maneira diferente na vida. Necessitam experimentar uma espécie de
«salvação»; entrar em contato com o Mistério que intuem em seu interior.
Inquieta-nos
muito que vários pais não batizem mais os seus filhos. O que nos deve preocupar,
de fato, é que muitos e muitas saem de nossa Igreja sem ter ouvido falar do «batismo do Espírito» [não confundir
com o tal batismo no Espírito difundido por certos movimentos eclesiais e outras igrejas]
e sem ter podido experimentar Jesus como
fonte interior de vida.
É
um erro que no próprio interior da Igreja se esteja fomentando, com frequência,
uma espiritualidade que tende a marginalizar Jesus como algo irrelevante e de
pouca importância. Os que seguimos Jesus não podemos viver uma espiritualidade
séria, lúcida e responsável se não está inspirada por seu Espírito. Não há nada
mais importante que possamos oferecer hoje às pessoas que ajudá-las a se encontrarem interiormente com Jesus, nosso Mestre e Senhor.
COM
O FOGO DO ESPÍRITO
As
primeiras comunidades cristãs se preocuparam de diferenciar bem o batismo de João que submergia as
pessoas nas águas do Jordão e o batismo
de Jesus que comunicava o seu Espírito para limpar, renovar e transformar o
coração de seus seguidores. Sem esse Espírito de Jesus, a Igreja se apaga e se
extingue.
Somente o Espírito de Jesus
pode pôr mais verdade no cristianismo atual. Somente seu Espírito pode nos conduzir a
recuperar nossa verdadeira identidade, abandonando caminhos que nos desviam vez
ou outra do Evangelho. Somente esse Espírito pode nos dar luz e força para
empreender a renovação que necessita hoje a Igreja.
O
Papa Francisco sabe muito bem que o
maior obstáculo para pôr em marca uma nova etapa evangelizadora é a
mediocridade espiritual. Ele diz isso de modo claro. Deseja animar com
todas as suas forças uma etapa «mais ardente, alegre, generosa, audaciosa,
repleta de amor até o fim, e de vida contagiosa». Porém, tudo será insuficiente, «se não arde nos corações o fogo do Espírito».
Por
isso, busca para a Igreja de hoje
«evangelizadores com Espírito» que se abram sem medo à sua ação e encontrem
nesse Espírito Santo de Jesus «a força para anunciar a verdade do Evangelho com
audácia, em voz alta e em todo tempo e lugar, inclusive contra a corrente».
A
renovação que o Papa quer impulsionar no cristianismo atual não é possível
«quando a falta de uma espiritualidade
profunda se traduz em pessimismo, fatalismo e desconfiança», ou quando nos
leva a pensar que «nada pode mudar»
e, portanto, «é inútil esforçar-se»,
ou quando baixamos os braços definitivamente, «dominados por um descontentamento crônico ou por uma melancolia
profunda que seca a alma».
Francisco
adverte-nos que «às vezes perdemos o
entusiasmo ao esquecer que o Evangelho responde às necessidades mais profundas
das pessoas». No entanto, não é assim. O Papa expressa com força sua
convicção: «não é o mesmo ter conhecido Jesus e não conhecê-lo, não é o mesmo
caminhar com ele que caminhar tateante, não é o mesmo poder escutá-lo que
ignorar sua Palavra... não é o mesmo tratar de construir o mundo com seu
Evangelho que fazê-lo somente com a própria razão».
Tudo
isso temos de descobri-lo por experiência pessoal em Jesus. Do contrário, para
quem não o descobre, «logo lhe falta força e paixão; e uma pessoa que não está convencida, entusiasmada, segura, apaixonada,
não convence ninguém». Não estará aqui um dos principais obstáculos para
motivar a renovação desejada pelo Papa Francisco?
Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.
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