O Império solitário
O MUNDO SEGUNDO DONALD TRUMP
Michael Klare*
“A AMÉRICA PRIMEIRO!”
Martelado por Trump, o slogan sugere que esta será sua
política externa. Uma mistura de unilateralismo – desdenho pelos acordos
internacionais –, brutalidade – aumento dos orçamentos militares – e
mercantilismo – subordinação dos demais objetivos ao interesse comercial
norte-americano.
E uma boa dose de imprevisibilidade…
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DONALD TRUMP |
É
difícil saber precisamente com o que vai se parecer a política externa de Donald
Trump. O próximo presidente dos Estados Unidos não detalhou suas intenções nem
em documentos escritos nem em discursos. Muitos lhe atribuem uma postura pouco
informada ou incoerente, alimentada por manchetes da imprensa e por sua
experiência como homem de negócios. Algumas entrevistas ou propostas de
campanha e, mais recentemente, a escolha dos membros de sua administração
permitem enxergar a questão com um pouco mais de clareza. Trump tem uma visão, talvez não muito amadurecida, mas relativamente
coerente, do mundo e do lugar que seu país ocupa. Ela contrasta com a da
maioria dos especialistas e líderes políticos respeitados de Washington.
Estes,
como qualquer um que more na capital pode perceber, veem círculos concêntricos
que se espalham a partir da Casa Branca. O
Canadá, o Reino Unido e os outros aliados anglófonos se situam num primeiro
anel; os outros membros da
Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o Japão, a Coreia do Sul e
Israel, num segundo; os parceiros econômicos e militares de longa data,
como Taiwan, Filipinas e Arábia Saudita,
num terceiro, e assim por diante. Na parte de fora desse sistema de
relações de dependência, encontram-se os rivais
e adversários: a Rússia, a China, o Irã e a Coreia do Norte.
Durante décadas, a política externa norte-americana procurou reforçar os laços
com e entre os países amigos, e enfraquecer ou isolar os excluídos. Por vezes,
isso implica entrar em guerra para proteger aliados periféricos por medo, real
ou imaginário, de que os aliados mais próximos se encontrem em perigo.
Trump, que nunca passou por
muito tempo em Washington, não partilha dessa visão comum a republicanos e
democratas.
Homem de negócios nova-iorquino com interesses no mundo inteiro, ele é estranho a toda essa concepção
estruturada que atribui papéis definidos aos aliados, amigos e inimigos.
Aproxima-se, portanto, da abordagem de Rex
Tillerson, o líder da ExxonMobil
que acaba de ser escolhido conselheiro de Estado. Os dois homens percebem o mundo como uma vasta selva onde a concorrência
é a regra e onde as oportunidades e perigos podem se apresentar em todos os
lugares, independentemente da lealdade dos países envolvidos ou de sua
hostilidade presumida em relação a Washington.
De
acordo com essa ótica, os Estados Unidos
não são o centro de uma família de países dependentes que eles teriam por
missão proteger, mas um dos poderes que lutam para assegurar posições e lucros
num tabuleiro planetário concorrencial. Assim, segundo essa concepção, o
objetivo da política externa é promover seus interesses e, consequentemente,
contrapor-se àqueles que buscariam garantir para si uma vantagem à sua custa. Cada país será, portanto, avaliado
segundo sua contribuição para os interesses norte-americanos, e Trump espera utilizar os instrumentos de
que dispõe para recompensar os parceiros e castigar os adversários. Os
primeiros podem esperar ser recebidos pela Casa Branca e obter propostas de
acordos comerciais vantajosos. Os segundos deverão pagar direitos alfandegários
desencorajadores, resignarem-se a ser diplomaticamente isolados e, em caso de
provocações consideradas inadmissíveis, sofrer uma intervenção armada.
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REX TILLERSON Líder da maior companhia de petróleo norte-americana a ExxonMobil comandará a política externa pragmática e oportunista dos Estados Unidos na era Trump |
Para
se manter nesse caminho livre de qualquer apego a grandes princípios, Trump rodeou-se de uma equipe capaz de
recompensar a colaboração com arranjos interessantes (Tillerson, no Departamento de Estado) ou empregar a
força contra inimigos designados (o general Michael
Flynn, como conselheiro de segurança nacional, e o general James Mattis, na Secretaria de Defesa). A fim de assegurar a credibilidade de uma
eventual opção militar, ele recomendou uma expansão maciça das Forças Armadas
– em particular da Marinha, a mais bem adaptada às demonstrações de força e
operações de grande impacto.[1]
Como
se dará a transformação em música dessa partitura nas diversas regiões do
mundo? É preciso começar pelo Oriente Médio e pela guerra contra a Organização
do Estado Islâmico (OEI). Com efeito, desde
o início, Trump afirmou que seu objetivo número um seria “destruir a OEI” e
esmagar qualquer outra manifestação do “terrorismo do islã radical”. “Tão
logo eu assuma o cargo”, declarou em 7 de setembro de 2016, na Filadélfia,
“convidarei meus generais a submeterem a mim em trinta dias um plano para
vencer e destruir a OEI.”[2]
Em
larga medida, a guerra dos Estados Unidos contra esse grupo é percebida como um
problema de política interna. A
determinação de destruí-lo deve-se muito ao medo de atentados em solo
norte-americano e à hostilidade geralmente inspirada pelo “islã radical”.
Esse combate, anunciou Trump, não terá meias medidas: todos os recursos de que
o Exército disponha serão consagrados a uma impiedosa campanha de aniquilação;
se pais e civis associados à OEI pagarem o preço, pior para eles.
A
frágil lua de mel com a Rússia
Ainda
que esse enfrentamento envolva sobretudo o Exército, ele comporta importantes
implicações diplomáticas. Em primeiro lugar, é preciso informar a quem Washington deverá pedir que contribua para a
erradicação da OEI. É nesse quadro que Trump
imagina uma possível aliança com Vladimir Putin. “Não seria legal se juntar
com a Rússia para esmagar a OEI?”, perguntou em 25 de julho de 2016, num
comício na Carolina do Norte.[3] Ele
sugeriu também uma retomada das relações com Damasco: “Não gosto muito de
Al-Assad, mas ele mata a OEI”, declarou no segundo debate televisionado que
o colocou diante de Hillary Clinton, em 9 de outubro de 2016. Em contrapartida, os presidentes russo e
sírio poderiam obter algumas vantagens: para o primeiro, o reconhecimento
de fato da anexação da Crimeia pela Rússia e a suspensão das sanções; para o
segundo, a interrupção de qualquer assistência aos rebeldes que lutam contra
seu regime.
Trump
sem dúvida tentará fazer arranjos desse tipo com os outros atores importantes
da região. Pode-se imaginar, por
exemplo, um acordo rápido com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, com os
turcos aumentando sua pressão sobre a OEI em troca de um menor apoio
norte-americano aos curdos da Síria – que, até o momento, se mostram a
força mais eficaz na ofensiva terrestre contra os jihadistas. Erdogan foi um
dos primeiros chefes de Estado a felicitar Trump após sua vitória, e os dois
homens teriam tratado de um reforço na cooperação contra o “terrorismo”. É igualmente concebível que Trump facilite
a extradição do religioso turco exilado Fethullah Gulen, considerado por Ancara
o responsável pelo golpe de Estado abortado em julho de 2016.[4]
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VLADIMIR PUTIN Vamos ver até onde irá a lua de mel entre Trump e o líder russo |
Em
contrapartida, as relações de Washington com a Arábia Saudita correm o risco de
sofrer com a intensificação da ofensiva norte-americana contra a OEI. Seus
dirigentes, como os da Arábia Saudita, são sunitas, como a maior parte das
possíveis futuras vítimas de bombardeios aéreos contra as posições da
organização. Simetricamente, as forças que combatem a OEI em campo incluem uma
proporção elevada de xiitas, quer se trate, no Iraque, das milícias apoiadas
pelo Irã ou, na Síria, dos alauitas e de seus aliados. Aos olhos de Riad, a sobrevivência do regime de Al-Assad significa o
triunfo do Irã, seu principal rival no Golfo. Uma rápida degradação da
relação entre Estados Unidos e Arábia Saudita parece cada vez mais provável
quando se pensa que Trump deve insistir
em fazer o país pagar um alto preço pela proteção que recebe. “Os Estados
do Golfo não têm outra coisa senão dinheiro”, lançou, num desses resumos
antropológicos nos quais é mestre, em um comício de 6 de dezembro. “Já nós não
o temos; temos é US$ 20 trilhões em dívidas…”
As desventuras de Riad não
são necessariamente um alento ao Irã, que, à primeira vista, tem muito a temer
com a posse de Trump na Casa Branca. Ao longo de sua campanha, este sempre qualificou o
acordo com Teerã sobre energia nuclear – oficialmente chamado de “plano global
de ação conjunta” – de “pior acordo de toda a história”. E prometeu
“desmantelá-lo”. O general Flynn, novo
conselheiro de segurança nacional, é tido como um adversário intratável do Irã
e sem dúvida fará pressão sobre ele para que mantenha seu engajamento.[5] No
entanto, a prioridade em esmagar o mais rápido possível a OEI poderia
prevalecer sobre a vontade de aplicar sanções ao Irã. Além disso, o acordo
nuclear conta como signatários a França, a Alemanha, o Reino Unido, a China e a
Rússia, que não manifestaram nenhum desejo de rediscuti-lo.
As
relações entre Washington e Moscou podem melhorar desde os primeiros dias da
administração Trump. O novo presidente
expressou várias vezes sua admiração por Putin e propôs encontrá-lo com o
objetivo de melhorar relações bilaterais atualmente muito degradadas. Após
uma conversa entre os dois, o Kremlin informou que eles haviam entrado em
acordo para “normalizar as relações e levar adiante uma cooperação construtiva
com base no maior leque possível de questões”.[6] A escolha
de Tillerson como secretário de Estado se explica em parte pelas boas relações
que o chefe da Exxon estabeleceu há muito tempo com Moscou por ocasião de
joint ventures entre a companhia petrolífera e as empresas russas que atuam no
Ártico e na Ilha Sacalina. No entanto, seria imprudente prever uma lua de mel sustentável
nas relações norte-americano-russas. A preocupação principal do presidente
eleito é promover os interesses dos Estados Unidos, o que, na cabeça dele,
exclui qualquer acordo passível de ser interpretado como uma renúncia à sua
posição hegemônica.
De
resto, Trump está determinado a reforçar
o Exército, ainda que só o orçamento das forças navais corresponda ao dobro do
total das despesas militares russas. Essa intenção não exerce nenhum
encanto sobre Putin. E, se algumas das coisas preconizadas pelo próximo
presidente dos Estados Unidos, como o reforço da Marinha, parecem dirigidas
principalmente contra a China, outros
projetos podem deixar a Rússia em estado de alerta. Em particular o de
modernizar a frota norte-americana de bombardeiros estratégicos e adquirir um
“sistema de última geração de mísseis defensivos”. Tais iniciativas
inquietam Moscou sobremaneira, porque a Rússia conta principalmente com seu
armamento nuclear para dissuadir qualquer ação militar do Ocidente contra ela.
Aliás, em seu discurso anual sobre o estado da nação, em 1º de dezembro, Putin
não dissimulou sua preocupação: “Gostaria
de ressaltar que tentativas de romper a paridade estratégica são extremamente
perigosas e podem levar a uma catástrofe planetária”.[7]
Desinteresse
pela Europa
Em
toda a campanha, Trump acusou os chineses de terem recorrido a práticas
comerciais injustas em detrimento dos Estados Unidos e insultarem o presidente
Barack Obama ao dar início à construção de uma base militar no Mar da China
Meridional. “Os chineses zombam de nós”,
declarou a jornalistas do New York Times
em 26 de março. “Eles não têm nenhum
respeito por nosso país e nenhum respeito por nosso presidente.”
O
novo ocupante da Casa Branca prevê, assim, que as relações com Pequim vão se
tornar tensas. Isso poderia desembocar num conflito armado? Quando lhe
perguntaram se usaria a força para expulsar os chineses de suas bases no Mar da
China Meridional, ele respondeu: “Talvez… Mas
temos um grande poder econômico sobre a China: o poder do comércio”. Sem
entrar em detalhes, sugeriu que preferia usar os direitos alfandegários e
outros mecanismos comerciais. Sua ligação telefônica para a presidenta de
Taiwan, Tsai Ing-wen – primeira
conversa conhecida entre um presidente norte-americano, ou um presidente
eleito, e um dirigente daquele país depois do rompimento de relações
diplomáticas com a ilha em 1979 –, pode ser interpretada no mesmo sentido: uma
ameaça de escalada a fim de convidar Pequim a aceitar certas exigências.
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XI JINPING Presidente da China comparece pela primeira vez ao Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça, e defende a globalização! São os novos tempos da era Donald Trump! |
No
entanto, Trump não ignora que em algumas
questões essenciais vai precisar da colaboração dos dirigentes chineses. Em
particular no caso da Coreia do Norte – uma das questões prementes da segurança
nacional que ele deverá enfrentar a partir de sua posse. Ainda que muito
isolados internacionalmente, os
dirigentes norte-coreanos parecem ter tido sucesso em expandir seu arsenal
nuclear e desenvolver mísseis balísticos capazes de atingir o Japão ou os
territórios norte-americanos do Pacífico. Os chineses, que parecem temer o
colapso do regime de Kim Jong-un (passível de precipitar tanto o afluxo no
norte da China de centenas de milhares de refugiados como a unificação da
Coreia sob tutela norte-americana), lhe fornecem por enquanto um apoio material
decisivo. Se Trump espera forçar Pyongyang
a congelar seu programa nuclear, vai precisar que Pequim continue a reduzir seu
comércio com a Coreia do Norte. “A China deveria resolver esse problema
para nós”, soltou durante seu primeiro debate com Hillary Clinton. Mas um
arranjo como esse implicará negociações com Pequim e, portanto, concessões
mútuas.
A
maneira pela qual o futuro presidente parece vislumbrar as relações com a
Europa e a Otan desvela nitidamente a separação entre suas concepções e as de
seus predecessores. Enquanto estes viam na Aliança Atlântica a pedra angular da
política de segurança norte-americana e a Europa como um baluarte da ordem
liberal, ele volta as costas a essa postura. A seus olhos, a Otan se mostrou ineficaz na guerra mais importante dos
tempos atuais, aquela travada contra o “terrorismo islâmico radical”. E a
Europa, como entidade política, lhe parece desprovida da capacidade prática de
colaborar para a defesa dos interesses vitais dos Estados Unidos. Ela merece assim menos atenção que
potências como a Rússia e a China, mais ativas no grande jogo mundial.
Em
conversa telefônica com o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, em 18 de novembro de 2016, contudo, Trump teria
reafirmado a “importância persistente” da Otan; mas, depois, não forneceu
nenhuma confirmação. E nenhuma de suas
indicações para cargos militares de responsabilidade parece assinalar uma
paixão particular pelo teatro de operações europeu. O interesse que a
Aliança Atlântica inspira no próximo morador da Casa Branca parece se resumir a
duas preocupações: impor aos membros uma contribuição financeira suplementar
para a defesa comum e exigir que eles se consagrem prioritariamente à guerra
contra a OEI. As outras questões, como a defesa do “flanco oriental” europeu
contra um eventual ataque russo, aparentemente não chamam atenção de Trump, que
parece pensar que, no tabuleiro mundial, a Europa constitui apenas um foco
secundário de tensão. Sendo assim, ele
só vai se preocupar com ela se interesses essenciais forem ali ameaçados.
Isso, afinal, resume bem a linha de conduta do próximo presidente. “A América primeiro”, e todos os outros
países apreciados em função de um único critério: eles representam um trunfo ou
um obstáculo para a realização dos objetivos norte-americanos fundamentais?
*
MICHAEL KLARE é professor na Hampshire College, em Amherst
(Estados Unidos), e autor de The Race for
What’s Left. The Global Scramble for
the World’s Last Resources [Corrida pelo que sobrou. A disputa global pelos
últimos recursos do mundo], Metropolitan Books, Nova York, 2012.
N O T A S
1) Cf.
“Transcript of Donald Trump’s speech on national security in Philadelphia”
[Transcrição do discurso de Donald Trump sobre segurança nacional na
Filadélfia], The Hill, 7 set. 2016.
2) Ibidem.
3) “Trump says
he would consider alliance with Russia over Islamic State” [Trump diz que
consideraria uma aliança com a Rússia sobre o Estado Islâmico], Reuters, 25 jul. 2016.
4) “Trump,
Turkey’s Erdogan discuss boosting ties, fighting terrorism: Sources” [Trump e
Erdogan, da Turquia, discutem estreitar laços, lutando contra o terrorismo:
Fontes], Reuters, 9 nov. 2016.
5) Cf. Matthew
Rosenberg, Mark Mazzetti e Eric Schmitt, “In Trump’s security pick, Michael
Flynn, ‘sharp elbows’ and no dissent” [Na escolha de Trump para a segurança,
Michael Flynn, “dentes cerrados” e nenhuma dissidência], The New York Times, 3 dez. 2016.
6) Neil
MacFarquhar, “Putin and Trump talk on phone and agree to improve ties, Kremlin
says” [Putin e Trump falam ao telefone e concordam em fortalecer laços, diz o
Kremlin], The New York Times, 14 nov.
2016.
7) Andrew
Higgins, “A subdued Vladimir Putin calls for ‘mutually beneficial’ ties with
U.S.” [Um Vladimir Putin submisso pede laços “mutuamente benéficos” com os
EUA], The New York Times, 1º dez.
2016.
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