Um cardeal que fez a diferença por preocupar-se, de verdade, com o povo
Dom Paulo Evaristo Arns e o Brasil
Roberto Romano
Filósofo
e Professor de Ética – Unicamp
Sob seu impulso, a Igreja de São Paulo distribuía
esperança, fé, caridade
para todos
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DOM PAULO EVARISTO ARNS (1921-2017) Foi cardeal-arcebispo de São Paulo de 1970 a 1998 |
A
crise de nossa terra apresenta múltiplas faces, todas elas apavorantes para
quem reflete com prudência. O Brasil de
hoje é amálgama de violência, irresponsabilidade pública, desprezo pela vida na
política, economia, religião. O País, no momento, não pode ser visto como
território banhado pelo verdadeiro, belo ou bom. Ele seria mais bem descrito
como admirável horror. Desemprego,
insegurança jurídica acentuada, sobretudo para os “negativamente privilegiados”
(expressão de Max Weber), tudo falta
aqui, sobretudo e principalmente vergonha ética. Ouvimos e vemos o que
outrora era inaudível e afastado da visão. Vigora
o labirinto do anti-Estado, definido por Norberto Bobbio ao denunciar os
perigos trazidos à Itália pela corrupção política unida à Máfia.
O
Estado perde rapidamente o seu atributo essencial, a soberania sobre corpos e
mentes. Boa parte do território obedece a normas de facínoras oriundos do
Brasil ou do estrangeiro. Chegamos finalmente à pergunta proferida por Santo Agostinho: “Sem a justiça… os Estados não seriam apenas grandes quadrilhas? E uma
quadrilha não é um pequeno Estado?”. Sim, caro santo, o Brasil confirma o
diagnóstico. O roubo do erário e dos
cofres privados une políticos de todos os naipes aos bandoleiros do
narcotráfico. O cidadão é submetido aos oligarcas sem ter, como retorno,
sequer a garantia da vida.
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Livro com a tese de doutorado de D. Paulo Evaristo Arns |
No caso das penitenciárias, podemos e
devemos recordar erros não apenas do poder (?) civil, mas das próprias igrejas.
A católica tem muito a confessar sobre a
situação atual. No século 20 a maior diocese do País, talvez do mundo, era
dirigida por um homem de fé e coragem chamado Paulo Evaristo Arns. Além das qualidades cristãs, ele possuía uma
cultura acadêmica invejável. A prova está em seu doutoramento na Sorbonne: La technique du livre d’après Saint Jérôme [trad.:
A técnica do livro segundo São Jerônimo]. Antes e depois seguiu cursos em
universidades prestigiosas: Instituto de Pedagogia e Instituto de Altos Estudos
em Paris e também estágios na Alemanha, na Inglaterra, na Holanda, na Bélgica,
nos Estados Unidos e no Canadá. Ainda defendeu teses como Les Confessions de Saint Augustin dans l’oeuvre de Saint Bonaventure
[trad.: As Confissões de Santo Agostinho na obra de São Boaventura]. Toda a cultura haurida na Europa deu ao
cardeal Arns uma força analítica e de planejamento invulgar no Brasil. Ele
previu malefícios futuros para a nossa terra e tentou atenuá-los em tempo certo.
Na
Unicamp, onde recebeu o título de doutor
honoris causa, fui escolhido para a saudação oficial. Recordei traços de
sua carreira acadêmica que justificavam a honraria. Mas insisti sobre o perfil
humano do agraciado, a sua lucidez e coragem em defesa da livre imprensa, as
denúncias contra torturas e injustiças. No mesmo instante em que enumerava aos
colegas as virtudes de Evaristo Arns eu revia, no íntimo, aspectos da prisão
sofrida por mim e companheiros e o constante socorro do arcebispo paulistano. E
citei sua luta pela humanização dos
presídios nacionais, com a Pastoral Carcerária. A Igreja Católica de São
Paulo, sob o seu impulso, operou como imenso coração que distribuía esperança,
fé, caridade para todo o organismo nacional, eclesiástico ou civil.
Mas toda aquela misericórdia
foi perseguida sine ira et studio [trad.: sem cólera e favor – frase de Tácito, historiador e senador romano:
56-120] por João Paulo II, hoje
proclamado santo pelo Vaticano na sua costumeira Realpolitik. A diocese paulista foi esquartejada e
perdeu a força de resistência ao arbítrio. O pontífice (conferir a biografia escrita por Politi e Bernstein, Sua Santidade) arrancou as sementes evangélicas trazidas por Evaristo Arns. As
pastorais se retraíram à tepidez dos insensíveis (Apocalipse 3,16). Auxiliares de Arns foram afastados,
caso de frei Gilberto Gorgulho,
inteligência aguda da Ordem dos Pregadores. A gangrena burocrática dominou a formação de presbíteros e possíveis
bispos. A nova ordem eclesiástica afasta corações e mentes da verdadeira
cura d’almas (certa feita, dom Paulo me confidenciou que sua preocupação maior
era com o pastoreio), instalando novamente
o regime das sacristias mofadas e distantes dos males que infestam a sociedade.
O descompromisso com os pobres e os encarcerados passou a ser a norma da
hierarquia. Estava “fora de moda” lutar em favor de mudanças nas prisões. No sepultamento de Paulo Evaristo,
espremido contra as colunas da catedral, vi e ouvi jovens padres parolando e
rindo perto do féretro. O povo chorava, silente.
Após
defender generosamente o povo paulista e brasileiro, Arns e seus auxiliares
foram exilados pelos êmulos de João Paulo II. Tal sorte sofreu o referido frei
Gorgulho, decisivo na defesa da PUC e de seus docentes, na ditadura. “Poucos
sabem, mas a demissão da PUC-SP,
numa vala comum típica do capitalismo que justamente as instituições católicas
gostam de criticar, juntamente com centenas de outros professores, causou-lhe
profundo desgosto, sobretudo quando soube que o motivo alegado, mas que o
burocrata de plantão não teve coragem de lhe dizer, foi que “o seu tempo tinha passado” (Domingos Zamagna, www.ihu.unisinos.br/noticias?id=516761).
Enfraquecida a pastoral,
sobretudo a carcerária, São Paulo assistiu ao adensamento das organizações
criminosas nos presídios, sem que vozes éticas respeitadas relativizassem seus feitos. O tempo
de dom Paulo, Gilberto Gorgulho e demais profetas do Evangelho tinha passado.
No seu vácuo surgiu o pandemônio do qual a Igreja não pode alegar plena
inocência. Francisco, no trono de Pedro,
terá tempo para corrigir o desvio de rota praticado sob João Paulo II? Georges Bernanos, que esteve no Brasil
em dias sombrios, escreveu obras-primas sobre a tibieza católica. Recomendo o
terrível Sob o Sol de Satã (ed. É
Realizações, 2010), seguido de A
Impostura [sem edição no Brasil] e, sobretudo, de O Grande Medo dos Bem-Pensantes [sem edição no Brasil]. Os crentes são ali retratados por um
artista que descreve perfeitamente a Igreja e seus fiéis infiéis.
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