Há algo mais profundo em risco!
As civilizações também morrem:
poucos aceitam que a próxima cultura a sumir
pode ser a ocidental
Hilário Franco
Junior*
Egito faraônico, Mesopotâmia, Grécia e Roma antigas,
astecas, incas e maias.
Todos lembram das culturas que sumiram, mas poucos
aceitam que o
Ocidente pode estar caminhando a passos largos para
isso
![]() |
O Reino Unido decide deixar a União Europeia, cortando o próprio "galho" que a sustenta! |
Para
os contemporâneos de qualquer época é sempre difícil fazer balanços, falta a
indispensável perspectiva histórica que só o tempo fornecerá. Mas a insatisfação e a inquietude do mundo
ocidental são hoje bem palpáveis. Em quase todos os países a maioria da população está descontente,
deseja mudanças, por isso:
* opta
pelo Brexit [saída do Reino Unido da
Comunidade Europeia],
* elege Trump [nos Estados Unidos],
* flerta com os extremismos [como em vários países da
Europa onde partidos radicais de direita e xenófobos vem conquistando mais
espaço e poder].
Ao
mesmo tempo, o medo de reformas é
inegável: no recente referendo italiano, dos 58% que votaram “não” à
reforma constitucional, metade sequer sabia claramente o que rejeitava. Na
Europa e nos Estados Unidos da América (EUA) os povos buscam um passado
idealizado, na América Latina um futuro que nunca chega.
Em todo o Ocidente um grupo soi-disant [que se autoproclama] bem-pensante critica os populismos, sem
reconhecer sua participação na emergência deles. Nas últimas décadas ele
quis acreditar que poderia obter a inclusão social dos desfavorecidos, nacionais
ou estrangeiros, por meio de decretos, patrulhamentos comportamentais e
discursos agressivos e censórios, justificados por uma suposta superioridade
moral. Essa doutrina do politicamente
correto, autoritarismo de boas intenções, não poderia deixar, mais cedo ou mais
tarde, de gerar reações na maioria silenciosa, que tem dificuldade em
aceitar um multiculturalismo cujos benefícios ainda estão por provar, e que lhe
é impingido com ardor por uma minoria engajada. Por não perceber isso, é que houve estupefação diante dos 59 milhões de
votos de personagem tão inculto, truculento, misógino, homofóbico e racista
como Trump.
A divisão ocidental é
profunda, a democracia tal como a conhecemos, advertiu Obama recentemente, pode estar em vias de extinção. E de fato,
a cada nova eleição ou referendo com estreita vantagem do vencedor o resultado
tem sido o aprofundamento das cisões.
Foi assim com a escolha de Dilma, Trump, Rajoy, os referendos do Brexit e de
Renzi. No dia seguinte a este último, o editorial do La Repubblica diagnosticou um
país em “clima de guerra civil sem armas”. A necessidade de rever as regras
da democracia é óbvia, porém trata-se de vaca sagrada que ninguém quer tocar
mesmo morrendo de fome diante dela.
A França é bom exemplo:
nenhum governo consegue fazer as reformas estruturais necessárias, pois a cada
decisão importante “a rua se manifesta”, alguma fração da sociedade questiona fortemente,
ocorrem manifestações e contramanifestações que comprometem a harmonia social. A democracia
representativa é posta em causa, porém a democracia
direta defendida por alguns e que foi viável nas pequenas cidades-Estado
da Grécia antiga, não o é nos Estados modernos de dezenas ou centenas de
milhões de cidadãos.
Na
Europa do sul, alguns partidos advogam o não pagamento da dívida externa,
“imoralidade” que sufoca suas economias e o padrão de vida de seus povos, sem
reconhecer a imoralidade de tomar algo e não devolver, sem admitir que os gastos eleitoreiros dos governos (isso também não é
populismo?) geram a dívida. Contudo os
governantes são reflexo de seus cidadãos. E estes querem mais direitos que
obrigações, todos vivem mais tempo e não pretendem trabalhar mais, todos exigem
serviços públicos gratuitos de qualidade e impostos baixos: que paguem hoje os
credores estrangeiros e amanhã as próximas gerações nacionais.
Em toda parte o discurso
predominante acusa as elites de todos os males,
sem perceber que o problema é exatamente o inverso – FALTAM VERDADEIRAS ELITES,
literalmente entendidas como “os melhores,
os mais qualificados” de uma
comunidade, de uma nação. Como carecem verdadeiros homens de Estado, cultos e corajosos, seus pobres substitutos limitam-se a
aprofundar a velha política romana do “pão e circo”:
a)
O PÃO, mais do que conquistado pelo
bíblico “suor do rosto”, é fornecido pelo Estado sob a forma de inúmeras
alocações sociais e, no futuro, se a ideia em estudo em vários países vingar,
um “rendimento universal” pago desde o nascimento a todo cidadão sem
necessidade de contrapartida!
b) O
CIRCO é estimulado por programas de
auditório, reality shows, imprensa cor-de-rosa, competições esportivas, redes
sociais.
Os
avanços do tempo presente não são sociais, políticos, éticos, culturais, são TECNOLÓGICOS,
e várias vezes estes comprometem aqueles: qualquer
indivíduo se sente em condições de opinar sobre tudo, de divulgar meias
mentiras e mentiras inteiras, de recrutar terroristas, e pode fazê-lo em escala
global.
Egito
faraônico, Mesopotâmia, Grécia e Roma antigas, astecas, incas e maias. Todos
lembram destas civilizações brilhantes que desapareceram, poucos talvez aceitem
que a civilização ocidental pode estar caminhando a passos largos para isso. A trajetória é semelhante à daquelas:
* interesses de pequenos grupos sobrepostos aos do todo;
* apatia que redunda em retração cultural, demográfica e econômica;
* penetração, admitida numa fase, sujeitada noutra, de povos com outros
comportamentos, valores, idiomas, religiões.
A
necessidade de o Ocidente se autorreformar em profundidade é urgente, embora
não se deva colocar nisso muita ilusão, como advertiu Tomás More exatos 500 anos atrás, na sua Utopia: “reconheço de boa vontade que existem na
república utopiana muitas coisas que eu desejaria ver nas nossas terras, coisas
que desejo, mais do que espero”.
*
HILÁRIO FRANCO JÚNIOR é professor do Departamento de História
da Universidade de São Paulo (USP) e autor de A Idade Média, Nascimento do Ocidente (Brasiliense).
Comentários
Postar um comentário