Padres estão sendo assassinados no México
Outro assassinato a Padre no México levanta questões de
segurança
Jan-Albert
Hootsen
Revista
“AMERICA” – Estados Unidos
17-01-2017
“Toda a questão do crime organizado é resultado de uma
espécie
de doença social”
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DOM RAÚL VERA - BISPO DE SALTILLO - MÉXICO |
O bispo Raúl Vera escolheu suas palavras
com cuidado, tentando não levantar a voz com raiva.
"Nós, do sacerdócio,
somos parte da sociedade; estamos tão expostos como todo mundo", disse o bispo de Saltillo,
uma cidade no estado de Coahuila, ao norte do México. "É triste ver como todos os setores da
sociedade tornaram-se alvo da violência, e nós não somos exceção."
O
Bispo Vera, um dos maiores e mais respeitados defensores dos direitos humanos
do México, tinha acabado de dar um sermão entusiasmado em sua habitual missa do
meio-dia de domingo, no dia 15 de janeiro, na catedral de Saltillo, após o
assassinato do Rev. Joaquín Hernández
Sifuentes. O corpo do sacerdote de 42 anos foi encontrado sem vida em 12 de
janeiro, mais de uma semana depois de seu desaparecimento, no dia 3 de janeiro.
"Toda a questão do
crime organizado é resultado de uma espécie de doença social", disse o bispo Vera após a
missa em Saltillo. "Há mais
insegurança a cada dia e os jovens estão buscando maneiras de dar as costas
para a sociedade."
A
vítima desapareceu pouco depois de celebrar uma missa de Ano Novo na sua
paróquia, Sagrado Coração de Jesus, no bairro de classe média La Aurora. O
Padre Hernández sairia de férias, mas amigos e colegas ficaram preocupados por
ele não estar respondendo ao celular. De acordo com uma declaração da diocese
de Saltillo, um frade visitou seus aposentos na paróquia e percebeu que Padre
Hernández não estava lá, mas sua mala e alguns outros itens pessoais ainda
permaneciam na residência.
Autoridades
mais tarde revelaram à mídia mexicana que a
vítima tinha sido espancada e estrangulada até a morte depois de uma briga na
paróquia com dois homens desconhecidos, que foram vistos por testemunhas indo
embora no carro do padre Hernández. Um porta-voz do escritório do
procurador-geral do estado de Coahuila disse à America que dois suspeitos foram presos, mas se recusou a dar mais
detalhes, visto que a investigação ainda está em andamento. O bispo Vera
declarou à America que a diocese
estava aguardando por mais informações das autoridades locais sobre o crime.
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Quadro com a fotografia de Pe. Joaquín Hernández Sifuentes quando ordenado por D. Vera Catedral de Saltillo - México |
O
assassinato chocou a comunidade católica de Saltillo. No dia 16 de janeiro,
centenas de fiéis e quase 100 membros do clero local compareceram à Catedral de
Saltillo para prestar suas últimas homenagens ao padre Hernández. Ainda mais
pessoas já haviam ido ao seu velório no dia anterior, no seminário diocesano,
nos arredores de Saltillo.
O assassinato do padre
Hernández é mais um golpe para uma Igreja que se sente cada vez mais sitiada, em um país onde estima-se
que mais de 100.000 pessoas tenham falecido nos últimos anos em uma onda
implacável de violência criminal. Grande parte dessa violência começou em 2006,
quando o governo do presidente Felipe Calderón começou a colocar os militares
contra poderosos grupos do crime organizado. Os membros do clero não ficaram
isentos. Desde que o sucessor de
Calderón, o presidente Enrique Peña Nieto, tomou posse em 2012, pelo menos 16
padres foram assassinados.
Com
três sacerdotes e quatro catequistas assassinados, 2016 foi um ano
particularmente ruim para a Igreja no México. "O México é atualmente o lugar mais perigoso para o clero nas
Américas", disse Bernardo Barranco, um sociólogo e um dos mais
conceituados analistas da Igreja no país.
Em setembro passado, dois padres foram
sequestrados, torturados e baleados no estado de Veracruz, a leste da costa
do Golfo. De acordo com as autoridades estaduais, eles foram vítimas de roubo.
Dois suspeitos foram presos pouco depois.
No mesmo mês, um padre
também foi sequestrado e baleado, no estado central de Michoacán, possivelmente
depois de uma discussão com dois suspeitos.
Outro religioso foi sequestrado e torturado por agressores desconhecidos em
novembro, em Veracruz, mas sobreviveu.
Parte
da violência parece ser motivada pelo trabalho do clero. Em 2013, um padre foi
atacado no norte do estado de Tamaulipas, um dos estados mais violentos do
país, depois de ter supostamente se recusado a celebrar uma missa para membros
do crime organizado.
A maioria dos ataques, no
entanto, parecem seguir o padrão mais geral de um aumento da violência criminal
em âmbito nacional e um desgaste do sistema de justiça, após anos de guerra declarada
entre o Estado e o crime organizado. Como a violência já exauriu muitas
comunidades e levou uma geração de jovens mexicanos a acostumar-se com a
impunidade e o derrame de sangue, os
padres não são mais intocáveis.
"Eu não acredito que
nós sejamos alvos diretos. Este é mais um resultado da situação
generalizada", disse José David Rosales, reitor do seminário de Saltillo e amigo
pessoal do Padre Joaquín Hernández. "Nós
somos tão vulneráveis quanto qualquer um."
"A figura do sacerdote
foi dessacralizada", concordou Barranco. "A
violência atingiu a Igreja."
Prevenir
ou combater a violência específica contra o clero, no entanto, é difícil. Em
resposta ao assassinato do padre Hernández, a Diocese de Saltillo instruiu seus
padres, através de uma circular, a não viajarem sozinhos ou à noite, enquanto
outras medidas ainda estão sendo consideradas, disse o Bispo Vera. No passado,
Vera e outros líderes católicos no México rejeitaram medidas como a contratação
de equipes de segurança para os padres, e continuam rejeitando-as agora.
Barranco
acredita que contratar equipes de segurança para proteger os sacerdotes seria
um erro. "Seria dar à Igreja uma espécie de status excepcional",
disse ele, "o que não é o que ela precisa. A única solução real é criar laços mais fortes com a sociedade".
O
Bispo Raúl Vera concorda. "O que
precisamos fazer é erradicar a violência enquanto doença. Precisamos ser uma
Igreja mais ativista, [para] reforçar a evangelização", afirmou.
"A sociedade foi abandonada pela
política e pela economia; e não pode ser abandonada pela Igreja também."
Traduzido do inglês por Luísa Flores Somavilla. A versão original encontra-se, clicando aqui.
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