Heresias ainda existem!
“A pior heresia é usar Deus para ganhar poder”
Entrevista
com Bruno Cadoré
Mestre
da Ordem dos Pregadores (Frades Dominicanos)
Andrés
Beltramo Álvarez
Vatican
Insider
18-01-2017
Reflexões do superior geral da Ordem dos Pregadores, os
Dominicanos,
que concluem esta semana em Roma um jubileu pelos oito
séculos
de sua fundação com um Congresso Missionário
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FREI BRUNO CADORÉ |
“A pior heresia é colocar na
boca de Deus algo que ele jamais disse”. Em síntese: usar
Deus para ganhar poder, para impor-se sobre os outros. Quando isso
acontece, deve-se denunciar. Esta é uma das reflexões do mestre da Ordem dos
Pregadores, frei Bruno Cadoré, em uma conversa com jornalistas. Os dominicanos
encerram esta semana seu jubileu especial, a 800 anos da sua fundação por São Domingos de Gusmão.
“Enviados a pregar o
Evangelho” é
o tema do Congresso Missionário que se iniciou na terça-feira, 17 de janeiro, e
se estenderá até o dia de hoje (21 de janeiro). Hoje, os participantes terão a
oportunidade de participar de uma missa especial celebrada pelo Papa Francisco
na Basílica de São João de Latrão de Roma. O encontro reservou espaço para
temas como “migrantes”, “povos originários”, “diálogo inter-religioso e ecumênico”, “justiça, paz e cuidado da Terra”, “apostolado nas prisões”, “apostolado da saúde” e “comunicação”.
Eis
a entrevista.
Após
oito séculos de vida, ainda tem sentido ser dominicano?
Fr. Bruno Cadoré: O sentido é converter-nos
em uma família da pregação e dar o desejo à Igreja de ser esta família; isto
tem sentido.
O
senhor assinalou que hoje é muito difícil propor a mensagem cristã como uma
“boa notícia”. Por quê?
Fr. Bruno Cadoré:
Porque a
linguagem das culturas modernas está muito distante da linguagem da fé como
estamos habituados. Nós falamos da gratuidade, da gratidão, do receber. Na
cultura moderna fala-se mais em tomar, comprar, dos gastos, do dinheiro. A
linguagem não é a mesma, mas quando há
dois idiomas diferentes é muito importante fazê-los dialogar para atingir uma
linguagem comum. Para isso, o encontro é fundamental. O encontro exige dos
cristãos darem-se conta de que a cultura
cristã não é óbvia para todos. Facilmente temos essa ideia. Lembro quando
dava aulas de bioética para estudantes de Medicina; quis falar-lhes do
sofrimento e citei Jó, mas ninguém o conhecia. Eu pensava que todos o
conheciam. A cultura cristã deve seguir
pelos caminhos da humanidade para escutá-la.
A
crise da vida religiosa na atualidade surge de certa incapacidade de dialogar
com estas diferentes linguagens?
Fr. Bruno Cadoré:
Existem
muitas razões para esta “crise”. A
verdadeira crise da vida religiosa é colocar o mundo em crise; essa é a sua
missão. Não quer dizer fazer desordens, mas dizer ao mundo que aquilo que parece estar muito bem organizado, talvez
pudesse ser ordenado de maneira diferente. A propriedade, as relações, a
fraternidade, a inclusão de todos. Então, a
crise da vida religiosa pode vir quando já não sabemos como fazer isso. Neste
momento pensamos mais em nossas estruturas, em nossas organizações e não no
sistema. Devemos pensar mais de forma sistêmica. A vida religiosa é uma escolha
interior, mas também coletiva, pública. E esta escolha serve para entrar em diálogo com o mundo, não para ser
escondida. Para colocar o mundo em crise.
A
crise na vida religiosa é vista apenas na diminuição de vocações ou existem
outros elementos que devem ser levados em conta?
Fr. Bruno Cadoré:
Para mim, o
mais importante é evitar a crise de se fechar ao diálogo com o mundo. As
vocações são variáveis. Tivemos muitos frades, poucos frades, um pouco mais, um
pouco menos, não importa. A Bíblia diz
que não se deve contar, que os números não são importantes. A crise da vida
religiosa se daria, também, se na Igreja católica não se pudesse entender que a vida religiosa é um serviço específico e
não uma reserva de potencialidade. Um sinal específico de fraternidade, de alegria, de gratuidade.
Os
dominicanos aderiram concretamente ao desafio proposto pelo Papa Francisco de
estar perto dos migrantes e refugiados?
Fr. Bruno Cadoré:
Neste mundo
o dinheiro viaja com muita facilidade, as pessoas não. Para nosso congresso,
algumas pessoas do Sul do mundo não conseguiram seu visto para participar. É
muito fácil fazer esta comparação. Existem muitos irmãos dominicanos cujas
famílias são migrantes ou diretamente refugiadas. Por exemplo, na República
Centro-Africana. Para eles, a realidade dos refugiados não é dos outros. Os que
sofrem dificuldades têm um destino comum conosco. Nossas religiosas no Iraque perderam todas as suas casas, os conventos.
Estão buscando como viver, assim como as pessoas comuns. A situação dos
migrantes e refugiados é muito importante no mundo todo. Estamos tratando de
ver como acolher estas pessoas na Europa e envolver-nos no espaço político,
para ajudar os nossos países a não
produzir mais refugiados, a não usá-los, a não crescer nas costas deles.
Ajudar a pensar a política e as pessoas com competência. Na Itália, França e
outros países europeus, cada comunidade nacional fez um projeto para acolher
estas pessoas, inclusive abrimos algum convento vazio para isso, por exemplo,
em Pisa. Isso é o normal.
Há
800 anos atrás, São Domingos lutava contra as heresias. Em tempos de diálogo
inter-religioso, é válido falar disso?
Fr. Bruno Cadoré:
Não se usa
facilmente (esse termo), mas devemos esclarecer que a heresia é colocar algo na boca de Deus que ele nunca disse ou fez.
Quando alguém coloca na boca de Deus coisas que ele não faz, é preciso dizê-lo.
Este é o ensinamento de Jesus. Ele mesmo disse: “Vocês dizem que este é o poder
de Deus, a vontade de Deus, mas isso não é verdade”. Quando começou a fazê-lo,
alguns replicaram: “devemos matá-lo”.
Qual
é hoje a heresia que mais o preocupa?
Fr. Bruno Cadoré:
A pior heresia é usar Deus para exercer poder sobre
os outros.
Isso é uma tentação de todos, é a tentação mais importante que Jesus queria
combater. Não se pode usar Deus.
É
o terrorismo que assassina em nome de Deus?
Fr. Bruno Cadoré:
Todas as
formas que usam Deus para justificar um poder humano sobre os outros seres
humanos. Existem muitas maneiras de fazer isso. O terrorismo com armas é uma
delas, mas também a ideologia do liberalismo
absoluto, dizendo que não existe
outro sistema possível para a nossa sociedade.
Traduzido do espanhol por André Langer. Para acessar a versão
original desta entrevista, clique aqui.
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