QUEM DEVE SER SACERDOTE?
Aquele que a Igreja escolhe e não quem quer!
José María
Castillo
Teólogo
espanhol
Religión
Digital
29-01-2017
“Muitos se tornam padres para ter um nível de vida
melhor,
dignidade ou categoria”
ORDENAÇÃO DE PRESBÍTEROS (PADRES) Momento do canto da Ladainha de Todos os Santos |
Do
jeito que as coisas aconteceram, no momento em que vivemos, o futuro da Igreja dá o que pensar.
Porque dá a impressão de que a Igreja,
assim como está organizada e como
funciona, tem cada dia menos presença na sociedade, menos influxo na vida das
pessoas e, portanto, um futuro bastante problemático e muito incerto.
Cada
dia há menos sacerdotes, cada semana ficamos sabendo de conventos que fecharam
para se transformarem em hotéis, residências ou monumentos meio arruinados. A progressiva diminuição nas práticas
sacramentais é alarmante. Mais da metade das paróquias católicas de todo o
mundo não tem pároco ou o tem apenas nominalmente, mas não de fato. [Contudo, há uma enorme concentração de padres em alguns
centros urbanos mais desenvolvidos e abastados! A carência se dá mais no
interior, zonas rurais e regiões mais pobres das periferias urbanas!]
Há
poucos dias, o Papa Francisco dizia em uma entrevista: “O clericalismo é o pior mal que a Igreja pode ter, quando o pastor se
torna um funcionário”. E é verdade
que há padres que entraram no seminário ou foram a um convento, porque não
queriam passar a vida como uns “Zé Ninguém” que não têm nenhuma importância
na vida. Isto acontece mais do que imaginamos.
Mas,
embora se trate de pessoas generosas e decentes, como não vão acabar sendo meros “funcionários” indivíduos que, para cumprir
com suas obrigações, têm que ir de um lado para o outro, sempre com pressa, sem
poder atender de maneira tranquila a ninguém? E conste que me limito a
recordar apenas esta causa de que na Igreja haja tantos “clérigos
funcionários”.
Não
quero entrar na raiz profunda do problema, que não é outra senão a quantidade de indivíduos que se fazem
padres porque, no fundo, o que querem é ter um nível de vida, uma dignidade
ou uma categoria que não correspondem nem com o projeto de vida que nos é
apresentado pelo Evangelho, nem com o que deles espera e necessita a Igreja.
Além
disso – e isto é o mais importante –, é
a Igreja uma mera empresa de “serviços religiosos”? Como pode a Igreja ser
isso se pretende manter viva a memória de Jesus
de Nazaré, que foi assassinado pelos
homens do sacerdócio e do Templo, os
mais estritos representantes dos “serviços religiosos”? [Interessante observar, o quanto o sacerdócio cristão atual acabou
se assemelhando ao sacerdócio levítico do Antigo Israel: mais preocupado com o
culto, com as rubricas e a forma do que com a misericórdia e a justiça!]
Já
sei que estas perguntas nos trazem um problema que a teologia cristã não
resolveu. Mas, há coisas que a Igreja tinha muito claro, em tempos já muito
distantes, e que hoje seria muito bom recuperar. Refiro-me concretamente a dois
assuntos capitais: a “vocação” ao ministério pastoral e a “perpetuidade” deste ministério.
A
VOCAÇÃO
Entende-se
por “vocação” um “chamamento”, um chamado. Por isso dizemos que vai ao seminário ou entra no noviciado quem se sente
“chamado” para isso. Mas, chamado por quem? Há séculos se vem dizendo que o
bispo “ordena sacerdote” a quem é “chamado por Deus”. Mas é claro que ocorreria
a qualquer um perguntar: e por que será que agora ocorre a Deus chamar menos
pessoas precisamente nos países mais necessitados de bons párocos, teólogos,
etc.? Não. Hoje, não há quem acredite no
fato de que a vocação é um chamado de Deus. Então...?
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YVES CONGAR (1904-1995) Frade dominicano francês, considerado um dos maiores eclesiólogos do século XX, escolhido Cardeal pelo Papa João Paulo II, em 1994. |
O
melhor historiador da teologia da Igreja, Yves
Congar, publicou em 1966 um memorável estudo (Ordinations “invictus,
coactus”, de l'Eglise antique au canon 214. Revue
des Sciences Philosophiques et Théologiques 50, p. 169-197) documentado até
o último detalhe, no qual ficou demonstrado que a Igreja, desde as suas origens até o século XIII, não ordenava
(sacerdote ou bispo) quem queria ser ordenado e alcançar a dignidade que isso
levava consigo, mas a quem não queria.
A vocação não era vista como
um chamamento de Deus, mas da comunidade cristã, que escolhia e nomeava a quem a assembleia considerava o mais
capacitado para o cargo. É o que se vinha fazendo nas primeiras “igrejas”
já desde a missão de Paulo e Barnabé, que designavam “votando com a mão
levantada” – cheirotonésantes – (At
14,23) os ministros de cada comunidade.
Será que não chegou a hora
de modificar a atual legislação canônica, para recuperar as surpreendentes
intuições organizativas que a Igreja viveu nas suas origens?
A
PERPETUIDADE
Desde
a Idade Média tardia vem se repetindo na teologia que o sacramento da ordem “imprime caráter”, um “sinal espiritual e indelével”, que marca o sujeito para sempre (Concílio de Trento, sessão VII, cânon 9.
DH 1609). O concílio não pretendeu, neste caso, definir uma “doutrina ou dogma
de fé”. Porque o tema do “caráter” foi
introduzido na teologia pelos escolásticos do século XII. E, em definitiva,
a única coisa que se via como certa é
que há três sacramentos – batismo, confirmação e ordem –, que só podem ser administrados uma vez na vida, ou
seja, são irrepetíveis, como indica o citado cânon de Trento.
O
importante aqui é saber que durante o primeiro milênio a Igreja ensinou e
praticou de maneira insistente o que repetiram e exigiram os concílios e
sínodos de toda a Europa. A saber: os
clérigos, inclusive os bispos, que cometiam determinadas faltas ou escândalos
(detalhados pelos concílios), eram:
* expulsos do clero,
* eram privados do ministério,
* perdiam os poderes conferidos pela ordenação sacerdotal e, em
consequência,
* ficavam reduzidos à condição de leigos.
Este
critério se repetiu tantas vezes, durante mais de 10 séculos, que a Igreja se comportava, naqueles tempos,
como qualquer outra instituição que se propõe ser exemplar. Os
responsáveis, que não são exemplares, não são transferidos para outras cidades
ou trancados em um convento. Eram postos com os pés na rua. E que se busquem a
vida, como qualquer outro funcionário, que não cumpre com suas obrigações.
Se
a Igreja quer realmente acabar com os clérigos funcionários e
com os clérigos
escandalosos não pode depender dos juízes e tribunais civis. A própria Igreja deve tirar a chamada
“dignidade sacerdotal” aos “inescrupulosos”, aos “espertinhos”, aos
“aproveitadores”, que se servem da fé em Deus, da memória de Jesus e de seu
Evangelho, para desfrutar de um respeito ou de uma dignidade que, na realidade,
não tem nem merecem.
Traduzido do espanhol por André Langer. Acesse a versão original
deste artigo, clicando aqui.
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