Um país a inventar
É preciso pensar em construir, em vez de só
demolir
José de Souza
Martins*
O Brasil não é isso que está aí. A obra e a vida dos
intelectuais, dos cientistas e dos trabalhadores podem trazer de volta os
anseios de construir, em vez de só demolir
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Manifestações que não promovem nenhuma mudança nem propõem algo construtivo e diferente ao País! |
Num
momento como este, de graves tensões políticas, sociais e econômicas, que
propõem a passagem de ano fora dos marcos da tradição e do costume, nós nos
defrontamos com um abismo de incertezas, impróprias para o rito das travessias
simbólicas que dão sentido à vida com esperança.
No
balanço do ano civil que acabou, há débitos enormes que dificilmente serão
pagos no ano que começa. Perdemos a
compostura política e perdemos o sentido da honra na política, basicamente
porque a perdemos de vista e chegamos ao absurdo de achar que a política é um
estorvo, que seria melhor acabar com ela.
Sem política
as sociedades não existem nem podem existir.
Confundimos
política com políticos.
Este
foi mais um ano de perdas para o Brasil. Nossa
grande perda foi a do autoaniquilamento do Partido dos Trabalhadores, que
arrastou consigo boa parte do nosso sistema partidário. Porque, mais do que
a imensa maioria dos partidos políticos brasileiros, o PT nasceu para cumprir uma função histórica que nenhum outro poderia
cumprir. Ele poderia ter sido o grande canal de expressão daquela parcela
da população que a história condenara ao silêncio. Mas partidarizou sem politizar, incluiu sem democratizar, anexou os
diferentes sem gestar o direito à diferença. O PT foi vitimado pelos equívocos e ambições das facções de militantes mais
escravas da ideologia do que ativistas do historicamente possível. Sucumbiu
à incapacidade de consumar a ruptura histórica que alardeara em sua ascensão ao
poder. Revelou-se igual aos partidos que
abomina. Negou-se, mergulhando na conciliação com o crônico conformismo da
história política brasileira. Optou pela
mera hegemonia, mais para desfrutar do que para governar. Para opor-se ao
PSDB, que equivocadamente elegeu como inimigo seu e dos pobres, ainda que formados
ambos da mesma matéria-prima social-democrática, associou-se à direita e ao oligarquismo retrógrado. O qual, com essa aliança, se fortaleceu
para, no final, cuspir do casulo do poder o parasita oportunista e ingênuo, o
PT.
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O PT partidarizou sem politizar, incluiu sem democratizar, anexou os diferentes sem gestar o direito à diferença, deixou-se dominar pela hegemonia e sede de poder, enfim, não ajudou a mudar o Brasil! |
Seu
suposto socialismo, sem referências teóricas consistentes, não levou em conta
que o mandato da transformação política só é legítimo em resposta a carências
radicais. Um país carente, como este, que, no entanto, já não tem carências
radicais, tem se movido ficticiamente com base nas motivações superficiais das
frases feitas, da imitação e da mímica. Os atores se repetem, como se viu na
retórica de ambulante que caracterizou tanto a melancólica defesa petista do
mandato de Dilma Rousseff quanto a recente oposição ao iníquo e enganador
projeto de reforma da previdência. Mais
para acusar do que para propor. Tudo igual à fragilidade da retórica do atual
governo na apresentação de suas reformas econômicas sem conteúdos sociais.
As
épocas não terminam no fim do ano. Terminam na difusa consciência de que algo
se perde e acaba e de que algo não muito claro começa. Um longo ano
desconhecido começou nas manifestações de rua de 2013 e ainda não terminou nem
terminará tão cedo. Talvez encontre seu término em 31 de dezembro de 2018. Só
então poderemos falar em ano novo, no sentido histórico de um tempo novo. Até
lá continuaremos nesse ano longo e inconcluso que estamos vivendo, o ano
cinzento e sem fim, o ano da incerteza. Muita
coisa foi demolida ao longo desse ano de mais de mil dias, muita gente que se
achava poderosa caiu e ainda não se deu conta da queda. Uma presidente da
República teve o mandato cassado, um poderoso presidente da Câmara está preso,
um poderosíssimo presidente do Senado e do Congresso teve as prerrogativas de
poder castradas, reduzidas à metade. Gente
que se achava acima da lei foi e está sendo presa, investigada, julgada,
condenada. Ricos e poderosos na cadeia podem ser um sinal demarcatório de uma
nova e inesperada era. Há uma convulsão nas instituições até aqui
subjugadas pelo oligarquismo e o poder pessoal dos régulos de província. Resta saber o que colocaremos no lugar, que
novo Brasil vamos inventar, com qual matéria-prima.
Não há, na
situação atual, nenhum sinal de consciência e de criatividade política, apenas
cópia e repetição, muito imaginário e nenhuma imaginação.
Nem na rua.
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Há muita gente boa e trabalhadora fazendo muito pelo nosso País, infelizmente são pessoas que aparecem pouco e nem sempre são valorizadas! |
Desde
2013, somos apenas contra. Não somos a favor de nada. Tanto antes da queda de
Dilma Rousseff quanto depois da ascensão de Temer, somos contra. Os grupos apenas
mudam de lado. Não percebemos que o
sistema partidário derreteu, que, na prática, já não há partidos políticos.
Há figuras residuais que substituem os partidos, ocos de utopia, doutrina e
projeto histórico. Os partidos já não
protagonizam a política. Os grupos de interesse usurparam-lhes as funções.
Tanto nas ruas quanto no Congresso Nacional, quanto no Poder Executivo e mesmo
no Judiciário, as funções institucionais foram substituídas pelos demolidores.
Há exceções que, no entanto, não geram protagonismo de renovação. Nas ruas, os quebradores de portas e
vidraças, os apedrejadores, os queimadores de ônibus, tanto de esquerda quanto
de direita, não têm um projeto de nação. São apenas contra. Não têm ideias,
têm apenas raiva. Em todas essas manifestações, o Brasil que sobra é o Brasil
arcaico. O Brasil cujo futuro é prisioneiro do passado.
Seria
decepcionante, nesta hora litúrgica, se o País se ativesse aos aspectos mais
irracionais da história de agora. O
Brasil não é isso que está aí. Ele é sobretudo o que não se vê, mas se faz.
Infelizmente, a corrupção e os oportunismos da política, as vulgaridades, têm
mais visibilidade do que a obra e a vida dos intelectuais, dos artistas, dos
poetas, dos cientistas e dos próprios trabalhadores. No entanto são essas vidas
e essas obras que no silêncio que lhes é próprio dizem que estamos vivos. Em 2016, brasileiros fizeram poesia,
incrementaram as artes, colocaram nossa ciência em destaque, universidades como
a USP estão no topo da lista das congêneres latino-americanas, ainda que haja
quem queira demoli-las ou minimizá-las com critérios de botequim de esquina.
* JOSÉ
DE SOUZA MARTINS, sociólogo, membro do Conselho Superior
da FAPESP e da Academia Paulista de Letras.
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