O PAPA DA CARNE
Juan Arias
Jornal “El
País” – Espanha
23-01-2017
Por que o papa Francisco é diferente?
Por que às vezes gosta mais dos agnósticos e até dos
ateus
do que de muitos católicos conservadores?
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PAPA FRANCISCO Beijando uma criança durante uma das Audiências Gerais da Quarta-feira |
A
resposta aparece na recente entrevista
concedida a este jornal [vale a pena
lê-la, clique aqui].
Quem, como este jornalista, conheceu
sete papas, pode notar a diferença entre Francisco e a maioria dos pontífices
da era moderna.
Até os menos conservadores
foram papas espirituais, que tinham medo da carne, do tangível, do que está
próximo.
Eram o messias do espírito e dos bons.
Para
os novos fariseus do poder eclesiástico, Francisco não é papa. Demasiado
corporal e da rua.
O papa Francisco, ao
contrário, é um papa que não se ofende com a corporeidade. Por isso é um papa que beija e abraça e, além disso,
de verdade.
Sua obsessão, como aparece na
entrevista, é mostrar que o cristianismo
é proximidade. O Deus cristão é o da encarnação.
“Proximidade é tocar, tocar no próximo a
carne de Cristo”, disse aos jornalistas do El País.
Essa é a diferença entre o
burocrata e o pastor. O primeiro conta o número de ovelhas, o segundo cuida delas, dá de
comer e beber e se preocupa quando elas ficam doentes.
Francisco
citou [o Evangelho Segundo] Mateus 25,
em sua entrevista, uma passagem na qual está resumida a força do cristianismo:
“Tive fome, estive preso, estive doente”.
Todo o resto, de acordo com o Papa, pode ser pura beneficência.
Isso explica por que
Francisco pede aos sacerdotes que acolham:
*
os divorciados,
*
os gays,
*
as mulheres que abortaram.
Não
faz filosofia ou teologia. Interessa
para ele mais as pessoas com suas dores e pecados que as leis frias do Direito
Canônico.
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PAPA FRANCISCO Recendo um afago carinhoso de um jovem deficiente físico e mental |
Também
disse na entrevista que seu único modelo
é o dos Evangelhos. E neles, Jesus não afastava nem as prostitutas nem os
leprosos, físicos ou simbólicos. Era
duro, isso sim, com a hipocrisia.
Já
existe no Vaticano quem sussurra que espera que seu sucessor “volte a ser
papa”. Para os novos fariseus do poder
eclesiástico, Francisco não é papa. Demasiado corporal e da rua.
A Igreja durante séculos
esteve mais interessada nos que respiravam saúde e poder do que nos frágeis do
mundo.
Como
Cardeal de Buenos Aires, uma senhora confessou orgulhosa que, cada vez que
encontrava um mendigo, “dava uma esmola”. Francisco perguntou: “A senhor joga no chão as moedas ou coloca
nas mãos dele e toca nele?”.
Aos bispos, aqui no Brasil,
lembrou que eles não deviam andar por aí como príncipes, mas “com cheiro de
ovelha”.
Quando
[o papa] Pio XII descia da Basílica
de São Pedro para se encontrar com os peregrinos que beijavam suas mãos, assim
que voltava aos seus aposentos pedia correndo álcool para desinfetar as mãos.
Voltar
para os papas anteriores para quem o toque, a carne, o concreto era apenas
pecado?
Melhor Francisco, que se
confessa pecador e talvez por isso se entenda melhor com os que tropeçam do que
com os que são puros.
“Não vim para ajudar os saudáveis, mas os
doentes. Não vim para chamar os justos, mas os pecadores” (Mc 2,17).
Francisco está quebrando
tabus reacionários na Igreja que pareciam petrificados para sempre.
Nenhum
papa anterior teria se atrevido a dizer, como ele, que quando alguém se encontra com alguém no caminho, não pergunta se
acredita em Deus, mas se faz algo pelos outros.
A dele é a religião do
próximo com quem compartilha alegrias e lágrimas, vitórias e também tropeços.
Não
é pouco.
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