Salvação já
Brasil está se tornando mais plural sob
o prisma religioso
Otavio Frias
Filho
Pesquisa
Datafolha publicada no Natal reitera
que o Brasil está se tornando um país
mais plural sob o prisma religioso. Em 1994,
quando 75% se declaravam católicos,
os evangélicos eram 14%. Agora, católicos são 50% e evangélicos
29%, enquanto outras denominações
menores cresceram. A parcela que
afirma não ter religião (descrentes somados aos que não seguem nenhum credo
coletivo), de 5% em 94, subiu para 14%.
Como
acontece quase sempre, o nacional é manifestação de algum processo
internacional mais amplo, dado que o evangelismo cresce há décadas na maioria
dos países em desenvolvimento, e de modo notável na América Latina, onde se
nutre do sedimento cristão depositado em séculos de catolicismo. Recente
pesquisa (do Instituto Pew, de 2014)
indicou que 19% dos latino-americanos se
consideram evangélicos.
O
leitor de Max Weber é levado a
perguntar se estaria em curso conexão semelhante à descrita em "A Ética Protestante e o Espírito do
Capitalismo" (1904/5), ensaio do sociólogo alemão sobre o calvinismo,
variante radical da Reforma, o cisma na Europa cristã que em outubro de 2017
completará 500 anos. Vale recapitular os principais passos no desdobramento,
algo sinuoso, do esquema explicativo de Weber.
A
maior divergência teológica dos calvinistas era que acreditavam a sério na
predestinação, ou seja, sendo Deus onisciente, há de conhecer de antemão quem
está destinado à salvação e à danação eternas. O católico pode negociar
calmamente a própria salvação, melhorando seu placar por meio de boas obras e
obtendo, do padre, a absolvição regular dos pecados. O protestante, não. Tal
constatação acarreta um súbito terror, um desatino, uma urgência que estão na
raiz da ruptura luterana.
Para mitigar a angústia,
formulou-se a ideia protestante da vocação, ou seja, a marca inescrutável da
graça divina, único caminho para a salvação, estaria estampada num estilo de
vida, ao
mesmo tempo frugal e produtivo, expresso na dedicação disciplinada a um
trabalho útil, não para a existência eterna, mas para a terrena.
Não por acaso, esse estilo é
apropriado para colocar em ação as engrenagens do capitalismo:
* Organização metódica,
* trabalho e poupança,
* cálculo racional do
interesse próprio,
* até a especialização
moderna estariam encapsulados na vocação calvinista.
De
forma oblíqua, o propósito de Weber era
criticar interpretações mecanicistas da história, entre elas o marxismo.
Sem
discordar do primado da instância
material sobre a simbólica na
conformação dos fenômenos sociais, Weber ressaltava como são quase
inextricáveis as mediações entre essas duas dimensões (enfatizando uma
complexidade metodológica que Marx professava, talvez sem praticar). Especula-se que o confucionismo, também
estudado, aliás, por Weber, estaria em simbiose similar com a revolução
capitalista em curso na China.
Pode-se
pensar algo parecido para a América Latina?
Ao
leitor interessado fica a sugestão de recorrer aos trabalhos dos sociólogos David Martin e Ricardo Mariano; enquanto o britânico acredita na validade parcial
do esquema weberiano no contexto latino-americano, o brasileiro a refuta, ressaltando as diferenças entre o
calvinismo e a versão hoje predominante, o pentecostalismo, que abrange, em
suas numerosas dissidências, 22% da população brasileira [cf.: Neopentecostais: sociologia do novo
pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 1999].
Um
dos movimentos periódicos de retorno às origens, típicos da religião, o pentecostalismo surgiu nos Estados Unidos
no final do século 19 e desde então despacha, impulsionadas pela pujança
norte-americana, ondas de missionários mundo afora. Trata-se de vertente mística, que celebra a festa de Pentecostes (Atos
2), quando o Espírito Santo teria
outorgado aos discípulos de Cristo poderes mágicos de cura e glossolalia (falar
línguas).
Ao mesmo tempo, seu enfoque
é pragmático, voltado à consecução de objetivos tangíveis como prosperidade,
saúde e família. Muitas dessas denominações se estruturam como empresas dedicadas a
arrecadar e investir gigantescas quantias extraídas a título de dízimo,
estendendo tentáculos a uma vasta gama de negócios, à TV e à política (na atual Câmara dos Deputados, por exemplo,
37% se dizem evangélicos).
Seria simplificador, porém,
creditar todo esse processo apenas à manipulação. O pentecostalismo também
compele a disciplinas que funcionam como alavanca de ascensão social, enquanto
a estrutura das igrejas, sobretudo nas amplas regiões abandonadas pelo poder
público, serve como rede de autoajuda.
E
quanto ao consumismo, talvez os calvinistas fossem menos ascéticos se vivessem
numa sociedade afluente como a nossa. Sua salvação, afinal, já era a deste
mundo.
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