Como enfrentar o DESESPERO?
Desespero: aquém da serenidade
Anselm Grün*
O desespero é “o erro absoluto”, pois ele destrói a
relação do
homem com Deus e consigo mesmo
Desespero
– assim dizem os filósofos – é a reação afetiva à falta de alternativa que
experimentamos. O filósofo alemão Josef Pieper chama o desespero de “antecipação da não realização”. É
quando eu desisto de mim mesmo. Não acredito mais em realizações. Nada faz
sentido, não há remédio. Não vejo sentido em minha vida. E não tenho esperanças
de que ela, um dia, possa vir a melhorar.
Desespero é sempre
desesperança.
Isso
se exprime também pela palavra latina desperatio
– a falta de esperança. A atmosfera desesperançosa envolve a pessoa como um
todo. Para ela, não há solução para nada. Tudo é sombrio. Não há esperança de
que haja algum sentido ou melhoria no que quer que seja. A pessoa se sente numa
situação desesperadora, quando simplesmente não enxerga mais saída, quando
todos os esforços parecem ser inúteis. Ela não sabe por onde deveria começar
para que algo se modificasse.
O desespero se expressa
através de um grande abatimento. A sensação é de paralisia. E, às vezes, o desespero também se assemelha à depressão. Passa-se a ver tudo, através
da lente obscurecida do desespero, que não avista mais esperança em lugar
algum. Desespero é a opressiva sensação
de impasse e resignação. Não há sentido em nada. Não há motivo para nada.
Não há esperança. Não há uma vida plena de propósito.
Sören
Kierkegaard, o filósofo de religião dinamarquês, escreveu sobre o desespero e,
ao mesmo tempo, observou sobretudo o desespero em si mesmo. Ele o denomina “doença até a morte”. Para ele, o desespero é “o erro absoluto”, pois
ele destrói a relação do homem com Deus e consigo mesmo.
A
teologia estabelece a diferença
entre o desespero-fraqueza, expresso na incapacidade de aceitar a si
mesmo e de confiar na vida, e o desespero-desafio, na medida em que,
não querendo ser quem verdadeiramente sou, demonstro ostensivamente meu
pseudo-heroísmo: Porque duvido de Deus,
coloco-me no lugar dele, ajo como se tivesse tudo sob controle, porém, esse
desespero me leva à ruína, porque em algum momento acabo encontrando as minhas
limitações humanas.
O
desespero é o sentimento de ausência de perspectivas e de desesperança. E onde não há esperança, há morte,
assombro, desalento. Eu me desespero comigo mesmo. Penso que nunca na vida
conseguirei melhorar, que jamais terei em minhas mãos as rédeas de minha
própria vida. No início esse desespero ainda se manifesta através das lágrimas.
Mas, em algum momento, ele interrompe o fluxo de lágrimas. Resta apenas o vão
desespero: toda a esperança que eu ainda tinha nas coisas se desfez em pedaços.
Friedrich
Nietzsche aprofundou-se no sentimento de desespero. Ele acredita que o desespero consigo mesmo ou com a vida
pode muitas vezes se tornar justamente o trampolim necessário para se ter uma
experiência profunda. E essa profunda experiência ele chama de mística. A
ele é atribuída a frase: “Onde a saudade
e o desespero se acasalam, há mística”.
Quando
não fico paralisado no desespero nem o
omito, mas o admito, e ao mesmo tempo uno
a ele a minha saudade, então justamente a tensão entre saudade e desespero me leva a Deus, não ao Deus que
eu gostaria de ser, mas ao inconcebível Deus que eu, em meio ao meu desespero,
posso supor como realização de meu mais profundo anseio.
*
ANSELM GRÜN é monge beneditino, doutor em Teologia,
nascido em 1945, vive na Abadia de Münsterschwarzach (Alemanha), e é guia de
meditação. Inspira-se na tradição monástica e cristã; recorre também à
Psicologia, uma vez que tem formação nessa área. Por ter a habilidade de falar
com clareza e expressar aquilo que muitos não conseguem formular em palavras, é
um autor traduzido e lido em várias línguas. Seus livros já venderam milhões de
exemplares mundo afora, inclusive aqui, no Brasil.
Traduzido do alemão por Bianca Wandt.
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