Matar não é solução!
“Não é pelo caos que vai se criar a reconstrução”
Ricardo Monezi*
Especialista comenta chacina de Campinas, interior de São
Paulo
Estamos
diante de um caso de distúrbio psicótico.
A forma como ele [o ex-marido que
assassinou a esposa, o filho e vários membros da família dela] se posiciona
no e-mail é típica de alguém em um
estado de sofrimento profundo, que não reflete só a questão pessoal, mas de
todo o entorno. Isso reforça algo que temos visto atualmente.
Muitas
vezes, há casos de psicopatia que são
afetados por eventos do dia a dia, e a pessoa fala de uma injustiça que vem
não de uma questão específica. Ela não
se sente perseguida por uma situação, mas por um sistema ou uma comunidade.
Uma coisa extremamente perigosa que estamos acompanhando na última década é o
que chamamos de “somação de estímulos”,
que consiste em uma determinada ação que
gera estresse, angústia, ansiedade, depressão. A pessoa vê outros estímulos
ao seu redor, que se somam ao primeiro, e passa a ver mais injustiças. O problema é que ela passa a olhar não só
para si, mas para todos os eventos e começa a ficar paranoica [com mania de tudo e todos estão contra ela].
Outro
ponto é a discussão de gênero [masculino x feminino], que vem se
tornando uma guerra no País. As pessoas não tentam entender que essa é uma
oportunidade para discutir a diversidade. O
ódio vai se somando a cada estímulo e o indivíduo se sente acuado. Uma
coisa clássica do paranoico é ter erros de julgamento, entrar em conflito.
Esses julgamentos podem ter aumentado a raiva dele. E a expressão máxima de uma loucura extrema é, para exterminar seus
problemas e da humanidade, eliminar outras pessoas. Assim, ele se torna um
antiexemplo por não tentar resolver uma questão de forma lúcida. Tivemos uma década violenta, com o ódio
sendo destilado, principalmente na internet. Vivemos uma conjuntura
delicada e não se sabe o que levou esse homem a esse ato de insanidade. Mas a situação dele e o País não vão mudar
na base da violência. Não é pelo caos que vai se gerar a reconstrução.
* RICARDO MONEZI
é especialista em medicina comportamental da UNIFESP (Universidade Federal de
São Paulo).
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