Uma Igreja encarnada no mundo
A velha guarda da Igreja Católica sacudida
por Papa Francisco
Joanna
Moorhead
Jornal “The
Guardian” – Londres (Inglaterra)
27-01-2017
O que Francisco fez é isto:
substituiu o catolicismo vinculado a regras,
tradicional, inflexível
por aquilo que podemos chamar de um cristianismo
instintivo
“A Igreja na fila para distribuir
preservativos”[1], dizem as manchetes.
Na verdade, essa fila nada tem a ver com camisinhas. As profilaxias em questão,
que poderiam ou não ser distribuídas em um projeto social levado a cabo sob os
auspícios de uma antiga ordem católica, são apenas o gatilho para uma disputa
que é mais importante do que o certo e o errado nos métodos contraceptivos,
tema com o qual a Igreja tem se debatido há mais de meio século.
O problema real em xeque, que resultou na saída do grão-mestre dos
Cavaleiros de Malta[2], é a
questão mais relevante de toda a Igreja Católica: Qual o jeito certo de representar o ensinamento de Cristo no mundo de
hoje?
Em
uma extremidade, temos Matthew Festing,
ex-leiloeiro de 67 anos, em seu traje vermelho claro com detalhes dourados. Ele
representa a Igreja Católica de
antigamente, a Igreja em que as
normas eram ditadas do alto e aceitas pelos que abaixo se encontravam. A
Igreja que ele amava, e que adoraria ainda fazer parte, era a Igreja da década
de 1950, no último alvoroço da instituição que foi suplantada pelo Vaticano II e pelo liberalismo dos anos 1960. Até
onde lhe diz respeito, a Igreja Católica é uma instituição imutável cujos
membros, uma vez casados, permanecem casados até a morte e que, caso queiram
limitar o tamanho da família, devem assim fazer empregando somente métodos
naturais de contracepção.
Na
outra extremidade, temos o homem que, nos últimos quatro anos, se tornou num rock star da política mundial: o Papa Francisco, jesuíta de 80 anos,
vestindo uma batina branca, surgido das
sombras para se tornar um dos líderes mundiais mais autênticos, respeitados e
impressionantes da nossa época.
“Eu gosto do papa”, disse uma muçulmana que
conheci recentemente. Ela gosta dele, o ama; o mundo gosta dele.
É dentro de
sua própria Igreja que os inimigos mortais do ex-Jorge Bergoglio o espreitam.
São
pessoas como o cardeal Raymond Leo Burke,
arquiconservador americano que se pôs ao lado de Festing com respeito à distribuição de preservativos e que se
tornou o ponto focal das esperanças dos fiéis que estão profundamente
consternados com o que consideram um liberalismo impossível do Papa Francisco.
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RAYMOND LEO BURKE Cardeal norte-americano arquiconservador que tem se oposto ao Papa Francisco |
No
ano passado, Francisco emitiu um documento chamado Amoris Laetitia [Exortação Apostólica Pós-Sinodal “A Alegria do Amor”], que deixou Burke e
seus aliados cambaleando: a eles, parece que o documento compromete o pecado
cardeal de deixar em aberto a questão
sobre se um católico divorciado e recasado pode receber novamente a Comunhão.
O
que Francisco parece dizer é: sejamos realistas; as pessoas se divorciam e se
casam o tempo todo, inclusive os católicos. Nem todos os católicos divorciados e recasados são o diabo encarnado.
Então, sim – eles (ou elas) podem muito
bem ter condições de comungar. Vamos deixar essa decisão a eles, depois de
uma conversa com um padre ou o bispo local?
Para
você e para mim, trata-se simplesmente
de uma pequena peça de senso comum eclesiástico, a emanar de um minúsculo
Estado soberano de onde, há bastante tempo, não saem muitos exemplos de senso
comum. Mas, para Burke e Festing, trata-se praticamente uma heresia.
Para
eles, regras são regras e não podem simplesmente ser quebradas. Um Burke incandescente tentou distrair
Francisco desafiando-o a definir exatamente o que ele quer dizer em Amoris Laetitia.
Até agora, Francisco fez
duas coisas:
1ª)
ignorou Burke, o que, sem dúvida,
irritou ainda mais o americano. A aproximação a Festing parecia um outro modo
de conseguir atacar Francisco, mas não deu certo.
2ª)
Francisco interveio, e Festing se viu
forçado a renunciar. O placar está 2 a 0 a favor da Argentina.
O
Vaticano é, como todo analista católico sabe, um viveiro de problemas,
escândalos e situações espinhosas. Mas o que importa aqui – o que realmente
importa – é que Francisco transformou a
Igreja Católica de um modo verdadeiramente fundamental, e a transformou
para sempre. É isso o que pessoas como Festing e Burke percebem, e é por isso
que estão acabando sem nada para desafiá-lo. Porque o que Francisco fez é isto: substituiu o catolicismo vinculado a
regras, tradicional, inflexível por aquilo que podemos chamar de um cristianismo instintivo.
Francisco
não se incomoda tanto com os regulamentos; preocupa-se
é com o tomar o caminho que ele crê que o homem/Deus que ele segue, Jesus
Cristo, teria tomado. Divórcio, um segundo casamento, métodos
contraceptivos – essas coisas não são o que mantém Francisco acordado à noite.
A
presidência de Trump, a crise de refugiados e a guerra na Síria provavelmente
são o que o mantém desperto. É por isso que o mundo gosta dele. E é por isso
que ele é tão perigoso à antiga ordem da Igreja Católica. Pode muito bem haver mais terremotos por vir na Itália, e não de um
tipo geológico apenas.
Traduzido do inglês por Isaque Gomes Correa. Acesse a versão original deste artigo,
clicando aqui.
BARÃO ALBRECHT VON BOESELAGER Ex-grão-mestre da Ordem de Malta |
N O T A S
[ 1 ] –
Essa manchete apareceu em jornais da Europa depois que Albrecht von Boeselager, uma figura sênior na Ordem de Malta,
acusado de apoiar uma organização na distribuição de preservativos em Myanmar [país
da Ásia] foi demitido de suas funções. O grão-mestre da Ordem, Matthew Festing, alegou que esse ato de
demissão foi apoiado pela cúpula da Igreja Católica, mas o principal diplomata
do Vaticano, cardeal Pietro Parolin,
disse a Festing, posteriormente, que o Papa não queria que ninguém fosse
demitido.
[ 2 ] –
A Ordem de Malta ou Cavaleiros de Malta era denominada, em
suas origens, de Ordem do Hospital de
São João em Jerusalém, o que também explica qual era a sua tarefa inicial:
a de acompanhar as Cruzadas, a partir de Jerusalém, organizando hospitais. Os
membros da ordem eram religiosos e cavaleiros. Militares, porque eram
cavaleiros armados com espadas. Religiosos, porque faziam votos de castidade,
pobreza e obediência. Em 1314, a Ordem
dos Templários foi dissolvida, e grande parte das suas propriedades foi
conferida aos Hospitalários,
precursores dos Cavaleiros de Malta. A Soberana
Ordem Militar de Malta foi reconhecida como ordem religiosa pelo Vaticano –
foi refundada em 1803, pelo Papa Pio VII,
depois novamente confirmada por Leão
XIII –, mas também é considerada um Estado por mais de 80 países. Ela goza
ainda de um lugar de “observadora”
na Organização das Nações Unidas (ONU). Atualmente, sua atividade é gerir
hospitais, centros médicos, ambulatórios, instituições para idosos e
deficientes, em uma centena de países do mundo. Oferecer assistência às vítimas
de lepra. Embora o orçamento da ordem não seja público, pensa-se que o
financiamento provém de membros e de doações privadas, além das atividades
médicas. Eles também são apoiados pela Comissão Europeia e por organizações
internacionais (Fonte: Agostino Paravicini Bagliani,
medievalista, clique aqui).
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