QUE MUNDO É ESTE NO QUAL VIVEMOS?
Viver na sociedade da satisfação instantânea
Zygmunt Bauman
(1925 – 2017)
Sociólogo, filósofo e escritor polonês de renome
internacional
Este é um trecho de um artigo que Bauman escreveu para
Concilium: Revista Internacional de Teologia (n. 4 de 1999)
É uma análise muito atual e lúcida, às vezes até cruel,
da precariedade
estrutural do nosso mundo.
Palavras sobre as quais refletir para uma melhor
compreensão do
sentimento de “crise” e instabilidade que permeia nossas
vidas.
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ZYGMUNT BAUMAN |
Os
antigos já sabiam a verdade. Em seu diálogo sobre a Vita beata, Lucio Aneu
Sêneca [4 a.C. – 65 d.C.: filósofo,
dramaturgo, escritor e político romano] destacou que, em modo totalmente
oposto aos prazeres da virtude, as delícias do êxtase esfriam justamente no
momento no qual estão mais fervendo; a sua capacidade é de tal modo pequena que
se esgotam instantaneamente até a exaustão. Contentados somente por um momento
fugaz, aqueles que vão em busca do prazer sensual caem rapidamente em languidez
e apatia. Em outros termos, a sua felicidade tem vida breve e os seus sonhos
são autodestrutivos. Admoestava Sêneca: a satisfação que vem mais rapidamente é
também aquela que morre primeiro.
O
antigo sábio tinha também adivinhado que
tipo de pessoa tende a escolher uma vida dedicada à busca dos prazeres que
levam, instantaneamente, à satisfação. Em um outro diálogo, dedicado à Brevidade da vida, ele observa que este tipo de vida é o destino de pessoas
que se esquecem do passado, não cuidam do presente e têm medo do futuro.
As
observações verdadeiras sobre a dificuldade da situação humana permanecem como
tais pelo tempo. A sua verdade não é afetada pelas provações da história. As
intuições de Sêneca pertencem, sem dúvida, a esta categoria. A fragilidade endêmica da satisfação
instantânea e a estreita ligação entre a obsessão do prazer imediato, a
indiferença em relação àquilo que foi e a desconfiança naquilo que deve vir
tendem a encontrar confirmação hoje assim como encontraram há dois milênios
atrás. Aquilo que mudou é o número daqueles que experimentam, pessoalmente, a
miséria do viver em um tempo achatado e segmentado. Isso que para Sêneca
parecia somente o sinal de um desvio deplorável do correto caminho – o sinal de
um caminho perdido e uma vida desperdiçada – tornou-se a norma. Aquela que era,
de costume, uma escolha de poucos, tornou-se agora o destino de muitos. Para
compreender porque isso aconteceu, não será ruim seguir os suspeitos de Sêneca.
Um
ensaio de Pierre Bourdieu [1930-2002:
sociólogo francês de origem campesina],
um dos mais sensíveis analistas sociais dos nossos tempos, intitula-se: A precariedade está hoje em toda parte.
O título diz tudo: precariedade,
instabilidade, vulnerabilidade são um caráter muito difuso (além de o mais
dolorosamente sentido) das condições de
vida contemporâneas. O teórico francês fala de précarité (precariedade), os alemães de Unsicherheit e Risikogesellschaft
(insegurança e sociedade do risco), os italianos de incertezza (incerteza) e os ingleses de insecurity (insegurança). Mas todos tem em mente o mesmo aspecto da
dificuldade humana, experimentada em toda parte altamente desenvolvida,
modernizada e próspera do globo, onde é percebida como particularmente enervante
e deprimente devido à sua novidade e ao fato de que em muitas maneiras sem
precedentes: o fenômeno que eles tentam agarrar é a experiência combinada da
insegurança da posição, dos direitos e dos meios de sustento, da incerteza
quanto à sua continuidade e estabilidade futura e da insegurança do próprio
corpo, do próprio “eu” e dos relativos prolongamentos: posses, vizinhança, comunidade.
A tendência a esquecer o passado, a despreocupar-se do presente e a temer o
futuro era depreciada por Sêneca como a falência pessoal de alguns de seus
contemporâneos; hoje, ao contrário, podemos afirmar que, na experiência de
nossos similares, o passado não
conta muito a partir do momento que não oferece bases seguras para as
prospectivas da vida, o presente não
recebe a devida atenção porque é praticamente fora de controle, e existem boas
razões para temer que o futuro tenha
reservado ulteriores e desagradáveis surpresas, provações e tribulações. Hoje em dia, a precariedade/insegurança não
é objeto de escolha; é destino.
Ter
fé significa ter confiança no significado da vida e esperar que aquilo que se
faz ou se abstém de fazer tenha uma importância de longa duração. A fé vem fácil quando a experiência de vida
confirma que esta confiança é procedente. Somente em um mundo relativamente
estável, no qual as coisas e os atos mantêm o seu valor por um longo período de
tempo, um período comparável à duração da vida humana, é provável que se dê tal
confirmação. Em um mundo lógico e coerente mesmo as ações humanas adquirem
lógica e coerência. Como disse o eminente filósofo moral Hans Jonas (1903-1993: filósofo alemão], vivendo em um mundo como
tal nós contamos os dias e os dias contam. Os nossos tempos são tempos duros
para a fé – para qualquer tipo de fé, sagrada ou profana. Os nossos tempos são tempos desfavoráveis à confiança e, mais em
geral, a propósitos e esforços de amplo
alcance, devido à evidente transitoriedade e vulnerabilidade de tudo (ou
quase tudo) aquilo que conta na vida terrena.
Comecemos
pela condição preliminar de todo o restante: os meios de subsistência. Estes tornaram-se extremamente frágeis. Os
economistas alemães escrevem sobre uma “sociedade
dos dois terços”, esperando-se que esta torne-se logo de “um terço”,
entendendo com isso que tudo aquilo que
serve para satisfazer a demanda do mercado pode ser agora produzido por dois
terços da população, e um terço
será logo suficiente – deixando o restante dos homens e mulheres sem ocupação,
tornando-os economicamente inúteis e
socialmente redundantes. Por quanto possam parecer corajosas as caras dos
políticos e audaciosas as suas promessas, o
desemprego nos países ricos tornou-se “estrutural”: não existe, simplesmente,
trabalho suficiente para todos.
Não
é necessário grande imaginação para delinear o quanto tenha se tornado frágil e
incerta a vida das pessoas que sofrem diretamente essas consequências. O ponto
importante é, todavia, que todos os outros também as sofrem, ainda que pelo
momento em modo somente indireto. No mundo do desemprego estrutural, ninguém
pode sentir-se seguro. Não existe mais
nada de similar a um emprego seguro em uma empresa segura; e não são as
múltiplas habilidades e experiências que, uma vez adquiridas, garantem a oferta
de um emprego e que o emprego, uma vez oferecido, seja duradouro. Ninguém pode, racionalmente, supor estar
assegurado contra a próxima rodada de “reestruturação/redimensionamento”,
“enxugamento” ou “racionalização”, contra os mutações erráticas da demanda
de mercado e as pressões caprichosas e, no entanto, potentes da
“competitividade” e da “eficiência”. “Flexibilidade”
é o slogan do dia. Ele prediz ocupações que não incorporam qualquer certeza
de direitos: contratos por tempo determinado ou renováveis, demissão sem
aviso-prévio e nenhuma indenização.
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Uma obra clássica do pensamento de Zygmunt Bauman |
Ninguém
pode sentir-se verdadeiramente insubstituível; mesmo a posição mais
privilegiada pode revelar-se somente temporânea e “até nova ordem”. E se os
seres humanos não contam, não contam nem mesmo os dias de suas vidas. Faltando uma segurança a longo prazo, a
“satisfação instantânea” aparece, com os seus afagos, como uma estratégia
razoável. Qualquer coisa que a vida possa oferecer, oferece-a hic et nunc – imediatamente. Quem sabe
aquilo que o amanhã poderá trazer? O
adiamento da satisfação perdeu o seu fascínio: afinal de contas, é por demais
incerto se o trabalho e os esforços investidos hoje representarão ainda um
ativo no momento de alcançar a recompensa; é longe de ser certo, além do
mais, que os prêmios que hoje parecem atraentes serão ainda desejáveis quando
finalmente chegarão. Os ativos tendem a se tornar passivos, os prêmios
reluzentes se transformam em símbolos de vergonha, as modas vão e vêm em uma
velocidade espantosa, todo objeto de
desejo torna-se obsoleto e desagradável antes de ser plenamente desfrutado.
Se
as coisas estão assim, para evitar
frustrações convirá abster-se de desenvolver hábitos e afetos ou assumir
compromissos duradouros. Os objetos do desejo são desfrutados melhor no
lugar, para depois liberar-se deles; os mercados são construídos desse modo –
seja a satisfação como a obsolescência são instantâneas. Deste modo, os homens
e as mulheres são adestrados (ou melhor, constrangidos a aprender por própria
conta) a perceber o mundo como uma caixa cheia de objetos a serem jogados fora
após o uso, objetos a serem usados uma só vez. Todo o mundo – inclusive os
outros seres humanos. Todo artigo é substituível, e por acaso: o que
aconteceria se aparecesse no horizonte um gramado mais verde, alegrias maiores
– ainda não experimentadas – nos acenassem de longe? Em um mundo no qual o futuro é repleto de perigos, toda ocasião que não
seja desfrutada aqui e agora é uma oportunidade perdida; não desfrutá-la é, por
isso, imperdoável e injustificado. Uma vez que os compromissos do dia
presente são um obstáculo para as oportunidades do dia seguinte, o prejuízo
será tanto menor quanto mais tais compromissos sejam leves e superficiais. “Agora” é a palavra-chave de qualquer
estratégia de vida, a qualquer coisa possa se referir. Em um mundo incerto
e imprevisível, os viajantes hábeis, inteligentes e sábios movem-se com
facilidade, sem derramar uma só lágrima por aquilo que poderia dificultar seus
movimentos.
Desse
modo, a política de “precarização” conduzida
pelos operadores dos mercados de trabalho é auxiliada e apoiada por políticas
de vida. Umas e outras conspiram para produzir o mesmo resultado: o
enfraquecimento e desvanecimento, a ruptura e a decomposição dos vínculos
humanos, das comunidades e das sociedades. Compromissos do tipo “até que a
morte não nos separe” tornam-se contratos “até que dure a satisfação”,
temporários pela sua própria definição e projeto – e suscetíveis de ser
rompidos unilateralmente, em qualquer momento que um dos sócios fareje um maior
valor no fato de sair da relação antes que continuá-la.
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Um dos livros que mais repercutiram de Zygmunt Bauman |
Os vínculos e as relações
são vistos, em outros termos, como coisas a consumir, não a produzir: estão
sujeitos aos mesmos critérios de valorização aos quais é submetido outro objeto
de consumo. No mercado de bens de consumo, os produtos ostensivamente duráveis
são oferecidos, normalmente, por um “período
de prova”, com a promessa da restituição do dinheiro se o adquirente não estiver
plenamente satisfeito. Se os parceiros em uma relação são vistos nestes termos,
a tarefa de ambos não é mais aquela de “fazer
dar certo a relação” – de agir em modo que vá adiante em qualquer
circunstância, de ajudar-se mutuamente
nos momentos bons e naqueles maus, de reduzir, se necessário, as próprias
preferências, de fazer acordos e sacrifícios para o bem da união duradoura.
Trata-se, ao contrário, de obter satisfação de um produto pronto para o uso; se
o prazer extraído não é à altura do nível prometido e esperado, ou se com a
novidade se esgote a alegria, não há razão para permanecer ligado ao produto
inferior ou envelhecido ao invés de encontrar um outro “novo e melhorado” no
mercado.
Aquilo
que resulta disso é que a pressuposta
temporalidade das relações tende a transformar-se em uma profecia que se
autorrealiza. Se o vínculo humano, como qualquer outro objeto de consumo,
não é algo a se elaborar através de esforços prolongados e sacrifícios
ocasionais, mas alguma coisa da qual se espera uma satisfação imediata, algo
que se rejeita em caso contrário e que se conserva e se utiliza somente até que
continue a gratificar (e não mais por longo tempo), então não há mais sentido
realizar esforços sempre mais duros, e tanto menos suportar dificuldades e
desconfortos a fim de salvar a relação. Um mundo saturado de incertezas e vidas
segmentadas em episódios de breve duração (dos quais se requer trazer uma
satisfação instantânea) mantêm entre eles uma relação de cumplicidade,
sustentam-se e reforçam-se um ao outro.
Uma parte crucial de toda fé
é o investimento de valor em algo de mais durável que a vida individual,
evanescente e endemicamente mortal; algo de duradouro, que resista ao impacto e à
erosão do tempo, talvez até mesmo algo imortal e eterno. A morte individual é
inevitável, mas a vida pode ser utilizada para negociar e ganhar um lugar na
eternidade; pode ser vivida de modo tal que a mortalidade individual seja
transcendida – que a marca deixada pela vida não seja totalmente cancelada. A fé pode ser algo espiritual, mas para
resistir tem necessidade de uma ancoragem mundana; as suas raízes devem
fincar-se profundamente na experiência da vida cotidiana.
Se a dedicação a valores
duradouros está hoje em crise, é porque a ideia de duração, de imortalidade,
está ela também em crise. Mas a imortalidade está em crise porque a confiança cotidiana, de
fundo, no caráter duradouro das coisas para as quais e com as quais a vida
humana pode orientar-se é minada pela experiência humana de todo dia. Tal erosão de confiança é perpetrada, por
sua vez, pela endêmica precariedade,
fragilidade, insegurança e incerteza do lugar humano na sociedade humana.
A promoção da competitividade e da busca “aberta
a todos” do ganho máximo, a supremo critério (ou mais ainda monopolizador)
da distinção entre ação correta e ação incorreta, entre ação justa e ação
errada, é o fator que traz a responsabilidade última da “atmosfera de medo” que permeia a vida contemporânea da maior parte
dos homens e das mulheres, e seu sentimento generalizado, talvez universal, da insegurança.
A sociedade não garante mais nem promete remédios coletivos às desgraças
individuais. Aos indivíduos foi oferecida uma liberdade de proporções inéditas (ou melhor, os indivíduos foram
jogados dentro dela), mas ao preço de
uma insegurança analogamente inédita. E quando há insegurança, sobra pouco
tempo para preocupar-se com valores que se elevam acima das preocupações
cotidianas, bem como com qualquer coisa que dure mais do que o momento fugaz.
Se nada for feito para
remediar o espectro da insegurança, a restauração da fé em valores permanentes
e duradouros terá muito pouca chance de sucesso.
Traduzido do italiano por Telmo José Amaral de Figueiredo.
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