4º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Homilia
Evangelho:
Mateus 5,1-12a
Naquele tempo:
1 Vendo Jesus as multidões, subiu ao
monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se,
2 e Jesus começou a ensiná-los:
3 «Bem-aventurados os pobres em
espírito, porque deles é o Reino dos Céus.
4 Bem-aventurados os aflitos, porque
serão consolados.
5 Bem-aventurados os mansos, porque
possuirão a terra.
6 Bem-aventurados os que têm fome e
sede de justiça, porque serão saciados.
7 Bem-aventurados os misericordiosos, porque
alcançarão misericórdia.
8 Bem-aventurados os puros de coração, porque
verão a Deus.
9 Bem-aventurados os que promovem a
paz, porque serão chamados filhos de Deus.
10 Bem-aventurados os que são
perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus.
11 Bem-aventurados sois vós, quando vos
injuriarem e perseguirem, e mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por
causa de mim.
12a Alegrai-vos e exultai, porque será
grande a vossa recompensa nos céus».
JOSÉ ANTONIO
PAGOLA
Uma
Igreja mais fiel ao Evangelho
Ao
formular as bem-aventuranças,
Mateus, diferentemente de Lucas, preocupa-se em traçar as linhas que devem caracterizar os seguidores de Jesus. Daí a
importância que têm para nós nestes tempos em que a Igreja deve ir encontrando
o seu próprio estilo de vida no meio de uma sociedade secularizada.
Não
é possível propor a Boa Nova de Jesus de qualquer forma. O Evangelho se difunde somente a partir de atitudes evangélicas. As
bem-aventuranças nos indicam o espírito
que há de inspirar a atuação da Igreja enquanto peregrina a caminho do Pai.
Temos de escutá-las em atitude de conversão pessoal e comunitária. Somente
assim poderemos caminhar para o futuro.
«Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o Reino dos Céus.»
Feliz
a Igreja “pobre de espírito” e de
coração simples, que atua sem prepotência nem arrogância, sem riquezas nem
esplendor, sustentada pela autoridade humilde de Jesus. Dela é o Reino de Deus.
«Bem-aventurados os aflitos, porque serão
consolados.»
Feliz
a Igreja que chora com os que choram e
sofrem, ao ser despojada de privilégios e poder, pois poderá partilhar
melhor a sorte dos perdedores e também o destino de Jesus. Um dia será
consolada por Deus.
«Bem-aventurados os mansos, porque possuirão
a terra.»
Feliz
a Igreja que renuncia a impor-se pela
força, pela coação ou pela submissão, praticando sempre a mansidão do seu
Mestre e Senhor. Herdará um dia a terra prometida.
«Bem-aventurados os que têm fome e sede de
justiça, porque serão saciados.»
Feliz
a Igreja que tem fome e sede de justiça
dentro de si mesma e para o mundo inteiro, pois procurará a sua própria
conversão e trabalhará por uma vida mais
justa e digna para todos,
começando pelos últimos. A sua ânsia será saciada por Deus.
«Bem-aventurados os misericordiosos, porque
alcançarão misericórdia.»
Feliz
a Igreja compassiva que renuncia ao rigorismo
e prefere a misericórdia antes que os sacrifícios, pois acolherá os pecadores e não lhes
ocultará a Boa Nova de Jesus. Ela obterá de Deus a misericórdia.
«Bem-aventurados os puros de coração, porque
verão a Deus.»
Feliz
a Igreja de coração limpo e conduta
transparente, que não encobre os seus pecados nem promove o secretismo ou a
ambiguidade, pois caminhará na verdade de Jesus. Um dia verá Deus.
«Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.»
Feliz
a Igreja que trabalha pela paz e luta
contra as guerras, que junta os corações e semeia a concórdia, pois disseminará a paz de Jesus que o mundo
não pode dar. Ela será filha de Deus.
«Bem-aventurados os que são perseguidos por
causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus.»
Feliz
a Igreja que sofre hostilidade e
perseguição por causa da justiça sem evitar o martírio, pois saberá chorar com as vítimas e conhecerá a cruz de Jesus. Dela é o
reino de Deus.
A
sociedade atual necessita conhecer comunidades cristãs marcadas por este
espírito das bem-aventuranças. Somente
uma Igreja evangélica tem autoridade e credibilidade para mostrar o rosto de
Jesus aos homens e mulheres de hoje.
Cada um de nós deve decidir
como quer viver e como quer morrer. Cada um deve escutar a sua própria verdade. Para
mim, não é o mesmo acreditar em Deus que não acreditar nele. Para mim, faz bem
realizar o caminho por este mundo sentindo-me acolhido, fortalecido, perdoado e
salvo pelo Deus revelado em Jesus.
Têm
sorte os pobres
Jesus
não exclui ninguém. A todos anuncia a Boa Nova de Deus, porém esta notícia não pode ser ouvida por todos
da mesma maneira. Todos podem entrar em seu Reino, porém nem todos da mesma
maneira, pois a misericórdia de Deus
está urgindo, antes de mais nada, que se faça justiça aos mais pobres e
humilhados. Por isso, a vinda de Deus é uma sorte para os que vivem
explorados, enquanto se converte em ameaça para os que provocam essa
exploração.
Jesus declara de modo claro
que o Reino de Deus é para os pobres. Ele tem diante de seus olhos aquelas pessoas que
vivem humilhadas em suas aldeias, sem poder defender-se dos poderosos
proprietários de terra; conhece bem a fome daquelas crianças desnutridas; viu
chorar de raiva e impotência aqueles camponeses quando os arrecadadores de
impostos levam para Séforis ou Tiberíades o melhor de suas colheitas. São eles que necessitam escutar, antes de
todos, a notícia do Reino: «Felizes
os que não têm nada, porque é vosso o Reino de Deus; felizes os que agora têm
fome, porque sereis saciados; felizes os que agora choram; porque rireis».
Jesus declara-os felizes, inclusive em meio dessa situação injusta que padecem,
não porque logo serão ricos como os grandes proprietários daquelas terras, mas
porque Deus já está vindo para suprimir a miséria, terminar com a fome e fazer
aflorar o sorriso em seus lábios.
Ele
se alegra desde agora com eles. Não lhes
convida à resignação, mas à esperança. Não
quer que se façam falsas ilusões, mas que recuperem a sua dignidade. Todos
têm de saber que Deus é o defensor dos pobres. Eles são os seus preferidos. Se seu reinado for acolhido, tudo mudará
para o bem dos últimos. Esta é a fé de Jesus, sua paixão e sua luta.
Jesus não fala da «pobreza»
em abstrato, mas daqueles pobres com os quais ele trata enquanto percorre as
aldeias.
Famílias que sobrevivem muito mal, pessoas que lutam para não perder suas terras
e sua honra, crianças ameaçadas pela fome e enfermidade, prostitutas e mendigos
desvalorizados por todos, doentes e endemoniados aos quais se nega o mínimo de
dignidade, leprosos marginalizados pela sociedade e religião.
[...]
Se
Jesus tivesse dito que o Reino de Deus chegava para fazer felizes os justos,
teria tido sua lógica e todos lhe teriam entendido, porém que Deus esteja a
favor dos pobres, sem levar em conta seu comportamento moral, parece
escandaloso. Os pobres seriam melhores que
os outros para poderem merecer um tratamento privilegiado dentro do Reino de
Deus?
Jesus
jamais louvou os pobres por suas virtudes ou qualidades. Provavelmente, aqueles
camponeses não eram melhores que os poderosos que os oprimiam; também eles
abusavam dos outros mais fracos e exigiam o pagamento de suas dívidas sem
compaixão alguma. Ao proclamar as
bem-aventuranças, Jesus não diz que os pobres sejam bons ou virtuosos, mas que
estão sofrendo injustamente. Se Deus se coloca da parte deles, não é porque
eles o mereçam, mas porque necessitam! Deus,
Pai misericordioso de todos, não pode reinar a não ser fazendo justiça aos que
ninguém lhes faz. Isto é que desperta uma grande alegria em Jesus: Deus defende aqueles que ninguém lhes defende!
[...]
Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.
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