Apanhar na infância induz ao uso de droga
Fabiana Cambricoli
Segundo estudo da Unifesp, agressão física nos
primeiros anos de vida aumenta em quase 3 vezes o risco de dependência na fase
adulta
Sofrer
agressão física durante a infância ou adolescência aumenta em quase três vezes
o risco de dependência química na idade adulta, aponta pesquisa da Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp) divulgada ontem. Segundo o 2.º Levantamento
Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), 21,7% dos brasileiros apanharam dos pais
ou cuidadores quando crianças. Entre usuários de maconha, número sobe para
47,5%. Entre os dependentes de cocaína, é de 52%.
Segundo
os pesquisadores, a criança ou o adolescente que sofre agressão fica
neurologicamente mais vulnerável ao uso futuro de drogas. "Sabemos que
qualquer tipo de evento estressante no começo da vida afeta áreas do cérebro
que são as mesmas responsáveis pelo desenvolvimento de dependência química e
também pela administração do nosso humor, da nossa motivação", explica
Clarice Madruga, pesquisadora da Unifesp e uma das coordenadoras do estudo.
Segundo
Clarice, esse estresse torna a pessoa mais vulnerável para desenvolver
dependência. "Claro que também vai depender de outros fatores ambientais,
como a facilidade de obtenção da droga e o amparo social que a pessoa
tem."
Usuário
de crack, cocaína e maconha, o mecânico Donizete Matos, de 28 anos, diz ter
iniciado o consumo de drogas depois que começou a apanhar frequentemente do
pai, aos 12 anos. "Meus pais se separaram e fui morar com o meu pai. Só
que minha madrasta não gostava de mim, e eu apanhava muito, geralmente sem
motivo", conta o mecânico, que frequenta a Cracolândia, no centro da
capital paulista.
Ainda
hoje, ele mostra um desvio no osso do nariz e uma cicatriz na perna como marcas
das agressões que sofria. "Ele me dava soco, me cortava com faca de
cozinha. E eu não aguentava apanhar sozinho, sem poder fazer nada. Ia fumar
maconha." Agora que sua mulher, também dependente química, está grávida,
Matos quer parar de usar drogas.
Clarice
afirma que a prevalência de crianças agredidas no Brasil é muito superior à
observada em outros países que registram a estatística. "Enquanto aqui
temos 21,7%, em outros países o índice nunca passa de 12%."
Para a
pesquisadora, a agressão contra os filhos não pode ser vista como natural.
"É preciso pensar no trabalho de prevenção e estimular que a agressão seja
denunciada. As escolas e as unidades de saúde devem ser treinadas para
identificar a criança que sofreu algum abuso. Também temos o Disque 100, uma
central para denunciar qualquer tipo de violação dos direitos humanos."
Abuso e
bullying
O Lenad mostrou ainda que 5% dos brasileiros relataram já ter sofrido abuso sexual na infância ou adolescência. O índice chega a 7% quando analisados os dados das entrevistadas do sexo feminino. Na maioria dos casos (58%), o autor do abuso era um parente ou amigo da família.
O Lenad mostrou ainda que 5% dos brasileiros relataram já ter sofrido abuso sexual na infância ou adolescência. O índice chega a 7% quando analisados os dados das entrevistadas do sexo feminino. Na maioria dos casos (58%), o autor do abuso era um parente ou amigo da família.
As mulheres
também são os maiores alvos de bullying, de acordo com a pesquisa da Unifesp.
Entre os homens, 12,1% dos entrevistados disseram já ter sido vítimas da
prática. Entre as entrevistadas, o índice foi de 13,8%.
A
agressão verbal foi o tipo de bullying mais sofrido pelos que responderam a
pesquisa (12%), seguido pelas provocações indiretas, como fofocas, rumores e
isolamento social, citadas por 5% dos entrevistados.
Os
pesquisadores da Unifesp entrevistaram 4.607 pessoas com mais de 14 anos, em
149 municípios brasileiros.
Fonte: O Estado de S. Paulo – Metrópole – quinta-feira,
8 de maio de 2014 – Pg. A24 – Internet: clique
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