Pobreza, desigualdade e o Papa Francisco [Leia!]
Tony
Magliano
National
Catholic Reporter
26-05-2014
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Tradução: A POBREZA TEM DIMINUÍDO PERCENTUALMENTE EM RELAÇÃO À POPULAÇÃO MUNDIAL À esquerda (na vertical): Milhões de Pessoas À direita (na vertical): Porcentagem da pobreza global |
Consideremos
o seguinte. De acordo com as Nações Unidas, cerca de 1,2 bilhão de pessoas
vivem na extrema pobreza ao redor do mundo. Água potável e saneamento,
alimentação nutritiva adequada, um trabalho seguro com um salário justo,
cuidados médicos e um lugar decente para chamar de casa são sonhos não
realizados destes nossos irmãos e irmãs.
A cada
dia eles precisam, de alguma forma, encontrar uma maneira para sobreviver com
menos de 1,25 dólar. Mesmo nos países mais pobres, é quase impossível
sobreviver com esta quantia. E, na realidade, muitos não conseguem este feito.
A cada
dia, aproximadamente 21 mil seres humanos morrem de fome e doenças relacionadas
a ela. E segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância, cerca de 300
milhões de crianças vão dormir famintas todas as noites.
De
acordo com a organização cristã antipobreza “Bread for the World” [Pão para o
mundo, literalmente], mais de 48 milhões de norte-americanos – incluindo 15,9 milhões
de crianças – não têm alimentos nutritivos suficientes para comer. E mais de um
em cada cinco vivem na pobreza.
Entretanto,
no começo deste ano o Congresso [americano] reduziu o Programa de Assistência à
Nutrição Suplementar a americanos pobres a 8 bilhões de dólares durante um
período de 10 anos.
Em
tese, isso irá reduzir os orçamentos alimentares para as famílias afetadas em
cerca de 90 dólares mensais. Isso representa uma grande redução para famílias
com renda baixa.
A
organização está preocupada com uma lei de reautorização da Guarda Costeira
aprovada recentemente pela Câmara Federal – incluindo uma provisão que exigiria
75% de toda a ajuda alimentar a ser transportada em navios do país – que poderá
ser aprovada pelo Senado. No intuito de pagar por esta provisão cara de
transporte, os fundos alocados para a compra de alimentos seriam reduzidos,
pondo consequentemente em risco 2 milhões de pessoas famintas.
Por
favor, envie um e-mail e telefone para seus senadores americanos, pedindo-lhes
para se oporem a esta proposta e, em vez disso, apoiarem uma legislação que
permita compras locais e regionais próximas dos lugares de crise humanitária ou
de projetos de desenvolvimento.
Numa
reunião ocorrida em 9 de maio no Vaticano com o secretário geral [da ONU] Ban Ki-moon, o
Papa Francisco instou os líderes mundiais a se comprometerem na construção de
um campo de atuação muito mais nivelado entre os ricos e os pobres.
O papa
os incentivou a desafiarem “todas as formas de injustiça” e a resistirem à
“economia de exclusão”, a “cultura do desperdício” e a “cultura de morte”, que
“tristemente correm o risco de se tornarem aceitas de forma passiva”.
Ao
apontar a causa da desigualdade de renda, o papa pediu uma “redistribuição
legítima dos benefícios econômicos do Estado”.
Mas a
maioria dos políticos e das pessoas ricas nos Estados Unidos, e em grande parte
do mundo, se opõe fortemente em relação a qualquer “redistribuição legítima dos
benefícios econômicos do Estado”.
Num
artigo de opinião publicano no The New York Times intitulado “Inequality Is Holding
Back the Recovery” [trad.: A desigualdade está atrasando a recuperação econômica],
Joseph E. Stiglitz, Prêmio Nobel em economia, partilhou a sua profunda
preocupação a respeito da divisão cada vez maior entre os 1% mais ricos e os
demais de nós:
“Em vez
de despejar dinheiro nos bancos, [o governo Obama] poderia ter tentado reconstruir
a economia de baixo para cima (...). Poderíamos ter reconhecido que quando os
jovens estão sem trabalho, as suas habilidades se atrofiam. Poderíamos ter nos
certificado de que cada jovem estivesse na faculdade, num programa de formação
ou num emprego. Em vez disso, deixamos o desemprego entre eles superar em duas
vezes a média nacional. As reduções na cobrança de impostos dos muito ricos
feitas pelo presidente George W. Bush em 2001 e em 2003, bem como suas guerras
de muitos trilhões de dólares no Iraque e Afeganistão, esvaziaram o cofrinho,
enquanto exacerbaram a grande divisão.”
Stiglitz
escreveu que o “compromisso recém-descoberto de disciplina fiscal – consistindo
de impostos baixos para os ricos e, ao mesmo, de cortes nos serviços públicos
para os pobres – é o cúmulo da hipocrisia”.
Logo
após a sua eleição, o Papa Francisco disse numa reunião com cerca de 5 mil
jornalistas: “Como eu gostaria de uma igreja pobre e para os pobres”.
Sim, é
verdade. Pois se uma igreja mais humilde, mais simples em sua forma de viver
não ficar, firmemente, ao lado dos pobres, então quem ficará?
Traduzido
do inglês por Isaque Gomes Correa.
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