"Há uma crise de representação no Brasil"
Adrián
Pérez
Jornal Página/12
(Argentina)
15-05-2014
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Ignacio Cano - sociólogo estudioso da violência |
A
sensação é a de que ele não dormiu a noite toda, mas sua disposição para
conversar é inquebrantável. Após acertar detalhes com o seu assistente, a
respeito de um encontro diplomático que terá ao final da entrevista, Ignacio
Cano, professor e coordenador do Laboratório de Análise da Violência da
Universidade Estadual do Rio de Janeiro, conversa com o jornal Página/12, no
saguão de um hotel quatro estrelas, sobre o surgimento das milícias e das
Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) na cidade carioca, a respeito dos
protestos do ano passado no Brasil e da política de segurança do governo de
Dilma Rousseff, a um mês do Mundial de Futebol.
O
sociólogo espanhol passou rapidamente por Buenos Aires para participar da
Reunião Regional de Especialistas sobre Segurança e Uso da Força por parte das
Forças Policiais, organizada pelo Centro de Estudos Legais e Sociais e pela
Academia de Direito Internacional Humanitário e Direitos Humanos de Genebra. “O
nó górdio do problema brasileiro é a desigualdade e a violência. Nesse sentido,
a trajetória dos últimos dez anos foi positiva, mas ainda estamos muito longe
do ideal”, dispara.
No
segundo semestre de 2000, um fenômeno chamou a atenção da imprensa carioca: as
milícias. Para o sociólogo, este ator social surge como tentativa de relegitimação
de processos de dominação preexistentes.
Membros
da polícia militar, da polícia civil, agentes penitenciários, bombeiros e
fuzileiros navais – em atividade e aposentados – compõem estes corpos
paraestatais que, além de se apegar ao clientelismo tradicional, apelam para a
coação armada. Em geral, as milícias crescem em áreas pobres, abandonadas pelo
Estado, com um férreo controle territorial. Cano contribui com algumas chaves
sobre o seu funcionamento.
“Em
muitos casos, os próprios policiais, corrompidos pelo narcotráfico, chegam à
conclusão de que tiram mais dinheiro, em função do enfraquecimento do varejo do
narcotráfico, vendendo serviços à comunidade e controlando transações
comerciais, do que comercializando drogas ou recebendo uma parte de sua venda.
Primeiro, pedem taxas de proteção; mais tarde controlarão a água, a venda de
gás, o transporte clandestino, Internet, a televisão a cabo e as transações
imobiliárias da vizinhança. O líder miliciano não apenas atrai centros
comunitários ou consegue fundos para a comunidade. Também para enterros, festas
ou brinquedos para as crianças em aniversário. Diferentemente do narcotráfico,
que assume seu papel marginal, estigmatizado e perverso na sociedade, as milícias
– adverte Cano – chegam com um discurso libertador, como se tratasse de uma
cruzada contra o narcotráfico. Na construção dessa liderança, buscam a
obediência e que sejam escolhidos como referências territoriais em troca da
resolução da vida dos habitantes das favelas”.
Este
modelo que gira ao redor do chefe local, que ostenta um domínio total sobre a
vida cotidiana das pessoas, Cano denomina como “neofeudalismo”. Em uma situação
de conflito com o vizinho ou no caso de uma mulher violentada por seu marido é
o chefe da milícia, do narcotráfico ou do grupo de extermínio o que irá dirimir
a questão.
Os
policiais que formam os grupos de extermínio dominam o território executando a
“indesejáveis” e vendendo seus serviços de “limpeza social” para comerciantes
ou líderes políticos. No entanto, não controlam o acesso a espaços públicos
permanentemente, como ocorre com o narcotráfico ou a milícia. “Nunca possuem
alguém na entrada da favela perguntando para onde vai. São muito mais
discretos. À noite, matam aqueles que consideram que devem matar”, aponta Cano.
Para além da disputa territorial, em alguns casos, ocorrem pequenas associações
ou as milícias permitem que os narcotraficantes comercializem drogas em troca
de dinheiro. Em certas ocasiões, as comunidades se vendem entre estes grupos
armados.
Do
ponto de vista da segurança pública, o desafio, segundo Cano, está em convencer
a polícia e os operadores do narcotráfico de que essa estrutura de violência é
uma desgraça para todos. “O narcotráfico tem que evoluir para um modelo de
delivery, com redução de seus custos, investimento, sem utilizar armamento de
grande calibre e sem controle territorial; a polícia deve voltar-se para a
proteção da comunidade, com diminuição da violência e não de vitória sobre o
narcotráfico, que é impossível”, destaca o docente da Universidade Estadual do
Rio de Janeiro. “Pretender acabar com o narcotráfico é se colocar uma meta
inalcançável”, sentencia.
-
Então, como se explica o investimento em tecnologia e armamento para combatê-lo?
Ignacio Cano: A
criminalização do narcotráfico trouxe para nós, na América Latina, custos
elevadíssimos em termos de violência e corrupção. A direita tradicional resiste
em rever esse modelo, mas hoje vemos que países como Uruguai, Colômbia e
Guatemala começam a questioná-lo.
Segundo
Cano, o modelo de intervenção tradicional da polícia entrando, disparando,
matando e saindo dos bairros é uma estratégia de combate da droga sem impacto
em médio e longo prazo. “Muitas vezes, policiais corruptos entravam na favela
para dar um sinal ao narcotráfico: pague-me mais ou você irá acabar como o
último que matamos, pois não pagava o suficiente”, disse. Em 2008, a Secretaria
de Segurança do governo carioca criou as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP)
para romper esse ciclo extorsivo. Instalaram-se na comunidade Dona Marta. Sua
proposta: retomar os territórios dominados pelo crime organizado, por meio de
uma patrulha cidadã, para estabelecer o Estado democrático de direito.
Hoje,
37 UPPs controlam pelo menos 60 favelas das centenas que salpicam a geografia
sinuosa do Rio de Janeiro. Embora tenha sido pensada como uma polícia com
permanência nos bairros, a venda de droga continuou, mas sem um domínio
territorial tão claro de grupos armados. “Ainda que estejam sendo a vitrine principal
das políticas de segurança, o governo não as instalou nas localidades mais
violentas, que estão no oeste da cidade e nos subúrbios”, afirma Cano.
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UPP do Complexo de Favelas do Lins - Rio de Janeiro (RJ) |
- As
UPPs são um modelo exportável para outros países?
Ignacio Cano: Só
podem ser replicadas em situações com altos níveis de violência letal e
controle territorial de grupos armados ilegais. Além disso, é muito caro. É
preciso multiplicar por oito ou por nove a taxa de adensamento policial. A
quantidade de policial por habitante no Rio, para o conjunto do Estado, é de
2,3 policiais militares para cada mil habitantes. Nas áreas de UPPs falamos em
18 policiais para cada mil habitantes.
- A
Argentina entra nesse esquema de violência, em que é preciso a intervenção das
UPPs?
Ignacio Cano: Pode
ser que em algum bairro, de alguma cidade, existam essas situações. Contudo, a
Argentina ainda não vive o cenário que as metrópoles do Brasil atravessam. E
esperamos que nunca chegue a isso. Como política para o seu país não me parece.
- Como
você analisa a posição do governo brasileiro sobre as manifestações?
Ignacio Cano: O
governo tem estratégias contraditórias. Por um lado, reconheceu que as
manifestações foram importantes para a democracia e se expressou contra a
violência. Por outro, há setores do governo, também da oposição, que propõem
uma lei antiterrorista para conter os manifestantes. Em alguns estados, houve
uma cooperação ativa entre promotores, policiais e governo para acusar
manifestantes como pertencentes a bandos armados. Em Minas Gerais, a Justiça
utilizou a figura penal do crime de milícia. No Rio, no ano passado, houve
prisões noturnas onde apreenderam livros de Mikhail Bakunin. O governo está
muito preocupado com a possibilidade de motins nas prisões e de manifestações
próximas dos estádios. Há insatisfação e desajuste entre a visão de um Brasil
que, segundo [a revista] The Economist, estava decolando como um foguete e a qualidade de
vida em casa.
- É um
descontentamento dirigido aos governos estaduais ou ao governo federal?
Ignacio Cano: É uma
insatisfação com o modelo político. Há crise de representação. Dilma continua
sendo favorita porque o resto da classe política também se desgastou. Em
Manaus, estão construindo um estádio para 40.000 pessoas. A participação de
público para assistir, em um domingo, a equipe local é de 5.000 pessoas. Quem
se beneficia? As elites associadas ao projeto do Mundial. Isso gera muito
desgosto. O que irá acontecer dependerá muito de Felipão e de Neymar. Se a
equipe nacional é eliminada rapidamente, é provável que essa insatisfação seja
canalizada para protestos muito maiores.
Traduzido
do espanhol pelo Cepat.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos –
Notícias – Sexta-feira, 16 de maio de 2014 – Internet: clique aqui.
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