O que está acontecendo com pais e crianças hoje?
REPOLHOS IGUAIS
Lya Luft
Sempre
me impressiona o impulso geral de igualar a todos: ser diferente, sobretudo ser
original, é defeito. Parece perigoso. E, se formos diferentes, quem sabe aqui e
ali uma medicaçãozinha ajuda. Alguém é mais triste? Remédio nele. Deprimido? Remédio
nele (ainda que tenha acabado de perder uma pessoa amada, um emprego, a saúde).
Mais gordinho? Dieta nele. Mais alto? Remédio na adolescência para parar de
crescer. Mais relaxado na escola? Esse é normal. Mais estudioso, estudioso
demais? A gente se preocupa, vai virar nerd (se for menina, vai demorar a
conseguir marido).
Não
podemos, mas queremos tornar tudo homogêneo: meninas usam o mesmo cabelo, a
mesma roupa, os mesmos trejeitos; meninos, aquele boné virado. Igualdade antes
de tudo, quando a graça, o poder, a força estão na diversidade. Narizes iguais,
bocas iguais, sobrancelhas iguais, posturas iguais. Não se pode mais reprovar
crianças e jovens na escola, pois são todos iguais. Serão? É feio, ou
vergonhoso, ter mais talento, ser mais sonhador, ter mais sorte, sucesso,
trabalhar mais e melhor.
Vamos
igualar tudo, como lavouras de repolhos, se possível... iguais. E assim, com
tudo o que pode ser controlado com remédios, nos tornamos uma geração medicada.
Não todos – deixo sempre aberto o espaço da exceção para ser realista, e
respeitando o fato de que para muitos os remédios são uma necessidade –, mas uma parcela crescente da população é
habitualmente medicada. Remédios para pressão alta, para dormir, para acordar,
para equilibrar as emoções, para emagrecer, para ter músculos, para ter um
desempenho sexual fantástico, para ter a ilusão de estar com 30 anos quando se
tem 70. Faz alguns anos reina entre nós o diagnóstico de déficit de atenção
para um número assustador de crianças. Não sou psiquiatra, mas a esta altura de
minha vida criei e acompanhei e vi muitas crianças mais agitadas, ou
distraídas, mas nem por isso precisadas de medicação a torto e a direito.
Fala-se, não sei em que lugar deste mundo louco, em botar Ritalina* na
merenda das escolas públicas. Tal fúria de igualitarismo esconde uma ideologia
tola e falsa.
Se
déssemos a 100 pessoas a mesma quantidade de dinheiro e as mesmas
oportunidades, em dois anos todas teriam destino diferente: algumas
multiplicariam o dinheiro; outras o esbanjariam; outras o guardariam; outras
ainda o dedicariam ao bem (ou ao mal) alheio.
Então,
quem sabe, querer apaziguar todas as crianças e jovens com medicamentos para
que não estorvem os professores já desesperados por falta de estímulo e
condições, ou para permitir aos pais se preocuparem menos, ou ajudar as babás
enquanto os pais trabalham ou fazem academia ou simplesmente viajam, nem valerá
a pena. Teremos mais crianças e jovens aturdidos, crianças e jovens mais
violentos e inquietos quando a medicação for suspensa. Bastam, para desatenção,
agitação e tantas dificuldades relacionadas, as circunstâncias de vida atual.
Recentemente,
uma pediatra experiente me relatou que a cada tantos anos aparecem em seu
consultório mais crianças confusas, atônitas, agitadas demais, algumas apenas
sofrendo por separações e novos casamentos, em que os filhos, que não querem se
separar de ninguém, são puxados de um lado para o outro, sem casa fixa, um
centro de referência, um casal de pais sempre os mesmos. Quem as traz são mães
ou pais em igual estado. Correrias, compromissos, ansiedade por estar na crista
da onda, por participar e ser o primeiro, por não ficar para trás, por não ser
ignorado, por cumprir os horários, as prescrições, os comandos, tudo o que
tantas pressões sociais e culturais ordenam, realmente estão nos tornando
eternos angustiados e permanentes aflitos.
Mudar
de vida é difícil. Em lugar de correr mais, parar para pensar, roubar alguns
minutos para olhar, contemplar, meditar, também é difícil, pois é fugir do
padrão. Então seguimos em frente, nervosos com nossos filhos mais nervosos.
Haja psicólogo, psiquiatra e medicamento para sermos todos uns repolhos iguais.
* A Ritalina é o
medicamento mais indicado para tratar Transtorno de Déficit de Atenção e
Hiperatividade (TDAH). O distúrbio é comum - atinge cerca de 3 a 5% da
população - e pode ser identificado a partir dos 6 anos de idade - ou antes -
de uma criança, geralmente quando inicia a vida escolar.
Fonte: Revista VEJA –
Edição 2372 – Ano 47 – Nº 19 – 7 de maio de 2014 – Pg. 28 (edição impressa).
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