A razão da desigualdade
Moisés Naím*
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Moisés Naím |
Quem é o culpado pelo fato de a desigualdade econômica ter aumentado tanto nos últimos tempos? [1] Para muitos, a resposta é óbvia: os banqueiros. O setor financeiro é o principal responsável pela crise econômica mundial que começou em 2008 e cujas consequências ainda afetam milhões de desempregados e uma classe média que empobreceu, especialmente na Europa e nos EUA. Quem defende esta ideia destaca que os banqueiros e especuladores financeiros que provocaram a crise não arcaram com nenhum custo, ou melhor, muitos ficaram ainda mais ricos.
[2] Para outros, o aumento da desigualdade tem a ver com os miseráveis salários pagos a trabalhadores em países como China e Índia. O que empurra para baixo a remuneração dos trabalhadores do resto do mundo e causa desemprego, uma vez que as empresas "exportam" postos de trabalho do Ocidente para o Oriente.
[3] No entanto, a questão é mais complicada e profunda, segundo Thomas Piketty, economista francês cujo denso livro Capital no Século 21 transformou-se num surpreendente sucesso mundial. Segundo ele, o capital (que equivale à riqueza e esta, por sua vez, a propriedades imobiliárias, ativos financeiros, etc) aumenta em maior velocidade do que a economia.
Os ganhos produzidos pelo capital (aluguéis de imóveis, rendimentos de investimentos, por exemplo) concentram-se num grupo mais reduzido de pessoas do que a renda fruto do trabalho, que se dispersa por toda a população. Por isso, quando os ganhos de capital aumentam mais rapidamente do que os ganhos do trabalho o resultado é um aumento da desigualdade, já que os donos do capital acumulam uma porcentagem maior da renda. E, como o crescimento da renda produzida pelo trabalho depende muito do crescimento da economia como um todo, se esta não cresce pelo menos no mesmo ritmo que os ganhos de capital a desigualdade econômica se agrava.
Piketty resume a complicada explicação desta maneira: quando "r" é maior que "g", a desigualdade aumenta. O valor "r" é a taxa de remuneração do capital e "g" a taxa de crescimento da economia. Segundo ele, no longo prazo, a economia crescerá entre 1% e 1,5% ao ano, de modo que a desigualdade deverá aumentar. Para evitar que isto ocorra, ele recomenda a criação de um imposto global e progressivo sobre a riqueza, ideia que ele próprio admite ser utópica, pois enfrentará enormes obstáculos políticos como também grandes dificuldades práticas.
A análise e as propostas do autor vêm sendo amplamente debatidas e, como escrevi em minha coluna anterior, o inusitado interesse pelo livro deve-se em grande parte ao fato de que ele foi lançado num momento em que a desigualdade tornou-se uma grande preocupação nos EUA [Estados Unidos da América].
Este país tem uma capacidade única para contagiar o resto do mundo com suas angústias. Assim, nações onde a desigualdade é uma doença crônica e não intensamente discutida, agora foram contagiadas com o fenômeno Piketty, o que é uma notícia muito boa. É importante que a complacência com as profundas desigualdades que os afligem desapareça.
É importante, porém, fazer um diagnóstico claro. Na Rússia, Nigéria, Brasil ou China a desigualdade econômica não é porque "r" é maior que "g". Deve-se ao fato de que há demasiados ladrões no governo e no setor privado que podem roubar praticamente sem riscos e com grande impunidade.
Parafraseando o economista, nas sociedades em que "c" [corrupção] é maior do que "h" [honestidade], a desigualdade continuará aumentando. O valor "c" é o número de funcionários públicos e políticos corruptos dispostos a violar as leis para enriquecer e "h" é o número de funcionários e políticos honestos. Pikkety baseia sua análise em dados de cerca de 20 países, a maioria deles com receitas elevadas e os menores índices de corrupção de acordo com a lista de 177 nações da ONG Transparência Internacional.
TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO.
* É ESCRITOR VENEZUELANO E MEMBRO DO CARNEGIE ENDOWMENT, COM SEDE EM WASHINGTON.
Fonte: O Estado de S. Paulo - Internacional - Domingo, 25 de maio de 2014 - Pg. A21 - Internet: clique aqui.
Para Piketty, “o Financial Times se
ridiculariza”
Christian Losson e Iris Deroeux
Libération
24-05-2014
Em sua
edição de sábado, o jornal econômico britânico ataca duramente as conclusões do
livro do economista francês, O Capital no Século XXI.
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Thomas Piketty - economista francês em seu escritório |
O
economista francês Thomas Piketty defendeu,
no sábado, as conclusões do seu último livro sobre o aumento das desigualdades
econômicas no mundo, após as críticas feitas pelo Financial Times (FT).
Em sua
edição de sábado, o jornal britânico do mundo dos negócios apontou os erros de
cálculo cometidos por Thomas Piketty em O Capital no Século XXI – que se
tornou, desde a sua publicação, um fenômeno editorial –, o que teria
falsificado suas conclusões.
“Os
dados que temos sobre as rendas são imperfeitos, mas outros como as declarações
de sucessão são mais confiáveis. Eu fiz isso com toda a transparência, eu
coloquei tudo na internet”, declarou o economista à AFP.
“O
Financial Times é desonesto quando dá a entender que isso muda as coisas nas
conclusões quando na verdade não muda nada. Estudos mais recentes confirmam as
minhas conclusões, utilizando fontes diferentes das minhas”, acrescentou.
A tese
central do seu livro repousa sobre a ideia segundo a qual as desigualdades
econômicas estão voltando para níveis vistos pela última vez antes da Primeira
Guerra Mundial.
“O FT se ridiculariza”
Thomas
Piketty também mostrou, ao analisar a classificação das maiores fortunas
publicadas ao longo dos últimos 30 anos, que elas avançaram três vezes mais
rapidamente que a renda média.
“O FT
se ridiculariza, porque todos os seus confrades reconhecem que as altas rendas
aumentaram mais rapidamente”, insistiu Piketty, convidando o jornal britânico a
publicar suas próprias séries de dados.
Recebido
em meados de abril na Casa Branca e no ministério americano das Finanças, o
economista francês participou de colóquios e conferências nos Estados Unidos e
na Europa, com o objetivo de denunciar a extrema concentração das riquezas e
defende uma taxação maior do capital através, especialmente, de um imposto
mundial.
Perguntado
sobre as vendas do seu monumental livro de quase mil páginas, Piketty respondeu
que elas atingiram, na quinta-feira, os 100.000 exemplares na França (Éditions de Seuil) e os 400.000 nos
Estados Unidos, Reino Unido e no resto do mundo de fala inglesa (Harvard University Press).
Traduzido
do francês por André Langer.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos –
Notícias – Segunda-feira, 26 de maio de 2014 – Internet: clique aqui.
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