Cada cadeira em estádio da Copa pagaria despesas de quase seis alunos por ano
Alexandre
Saconi e Maria Carolina de Ré
Brasil tem
três milhões de crianças de 4 a 17 anos fora das escolas
Os
protestos contra os gastos do governo com a Copa do Mundo, que será organizada
no Brasil a partir de junho, trouxeram à tona o clamor da população pelo
aumento do investimento em educação. Cartazes com frases como “Quantas escolas
valem um Maracanã” ou “Não quero a Copa, quero saúde e educação” têm sido
avistados nos atos de rua organizados no País.
A
crítica é justificável. O governo federal prevê que o Fundeb (Fundo de
Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos
Profissionais da Educação) deverá repassar para as escolas pouco mais de R$
2.285,57 por aluno do ensino fundamental em 2014.
No ano
passado, o gasto mínimo por aluno da educação básica pública foi de R$
2.287,87, segundo portaria divulgada pelo MEC (Ministério da Educação) no DOU (Diário Oficial da União) da última
terça-feira (29).
Fazendo
uma comparação com um levantamento da ONG dinamarquesa Play The Game, que
estimou que cada assento dos estádios da Copa no Brasil custará R$ 13.500 (US$
5.800), é possível determinar que o dinheiro gasto por assento paga as despesas
anuais de quase 6 estudantes.
Além
disso, se os R$ 25,7 bilhões usados na organização da Copa [dado do portal da
transparência] tivessem sido aplicados nas escolas, o País poderia promover o
acesso de todos os alunos que estão fora das creches e do ensino médio. A ONG
Todos pela Educação apontou que o Brasil tinha pouco mais de 3 milhões de
crianças na faixa etária que vai dos 4 aos 17 anos fora das instituições de
ensino no ano passado.
O valor
necessário para criar todas essas vagas seria de R$ 11,7 bilhões nas creches e
R$ 4,7 bilhões no ensino médio, de acordo com dados de 2012 do CAQi (Custo
Aluno Qualidade Inicial) da ONG Todos pela Educação. O levantamento determina qual o investimento
necessário para promover o acesso e a qualidade de ensino no País.
Qualidade
e investimento em infraestrutura
Além da
inclusão, o CAQi apontou que cada aluno matriculados nas creches em tempo
integral deveriam receber R$ 8.288,28 de investimento do governo por ano. Em
2013, porém, o Fundeb destinou R$ 2.285 por aluno destas unidades. No ensino
médio a diferença também aponta um aporte menor. Foram empregados cerca de R$
2.500 por aluno enquanto o índice de qualidade determinava investimento de
pouco mais de R$ 3.000.
Especialistas
consultados pelo R7 foram unânimes ao constatar que a educação tem recursos
insuficientes. Para José Marcelino de Rezende Pinto, professor de política
educacional da USP (Universidade de São Paulo), o dinheiro da Copa deveria ter
sido aplicado em projetos para melhorar a infraestrutura das escolas
brasileiras.
— Os
estádios de Manaus, Brasília e Cuiabá, por exemplo, foram construídos para um
evento que vai durar cerca de 30 dias. Depois eles correm o risco de se
tornarem verdadeiros “elefantes brancos”. Este dinheiro deveria ter sido usado
para melhorar milhares de escolas. Hoje, menos de 1% dos colégios brasileiros
funcionam em condições ideais.
O dado
citado pelo professor veio de um estudo realizado pelos pesquisadores Joaquim
José Soares Neto, Girlene Ribeiro de Jesus e Camila Akemi Karino, da UnB
(Universidade de Brasília), e Dalton Francisco de Andrade, da UFSC
(Universidade Federal de Santa Catarina).
Juntos,
eles criaram uma escala para medir a qualidade da infraestrutura escolar a
partir de dados divulgados pelo Censo Escolar 2011 do Inep (Instituto Nacional
de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), com informações de
194.932 colégios da rede pública e privada, de áreas rurais e urbanas.
Hoje
apenas 0,6% das unidades de ensino no País apresentam condições avançadas, ou
seja, prédios com sala de professores, biblioteca, laboratório de informática,
quadra esportiva, parque infantil, laboratório de ciências e áreas adequadas
para atender a estudantes com necessidades especiais.
A
maioria dos colégios (84,5%) tem apenas o que os pesquisadores classificaram
como estruturas elementares ou básicas: água, banheiro, energia, esgoto,
cozinha, sala de diretoria e equipamentos como TV, DVD, computadores e
impressora. O professor da UnB e
ex-diretor do Inep, Joaquim José Soares Neto, explicou que a constatação mais
preocupante da escala foi a descoberta de que 44% das escolas funcionam em
condições elementares, ou seja, em prédios quase sem equipamentos ou recursos
para atender os alunos.
Elas
representam quase metade das unidades de ensino e atendem, no geral, alunos da
pré-escola até o nono ano que vivem em municípios pequenos ou na área
rural.
—
Descobrimos que quase sete milhões de brasileiros, ou seja, 13% dos alunos,
estudam em locais com infraestrutura elementar. A quantidade de estudantes que
enfrentam condições mínimas de infraestrutura pode parecer baixa, mas é igual a
da população da Suécia. Isso é muito preocupante.
Neto
explica que o problema do financiamento da educação é muito complexo e que
fazer uma comparação com os recursos empregados na Copa pode ser um caminho
inadequado. Para ele, antes de polemizar se é correto usar recursos para
sediar grandes eventos esportivos, é preciso pensar maneiras de resolver os
problemas e determinar uma nova política de investimento nas escolas.
Mesmo
assim, o especialista foi enfático ao frisar que o dinheiro aplicado pelo
governo na área da educação está muito abaixo do necessário.
Fonte: R7 Notícias – Educação – 04/05/2014
– 00h15 – Internet: clique aqui.
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