“Uma Europa acabou”
Boaventura
de Sousa Santos*
Outras
Palavras
28-05-2014
“No
domingo passado pudemos visitar as ruínas. Tiramos delas três lições
enquanto as contemplamos, talvez menos calmos do que parecemos”.
Comentando
o resultado das eleições na Europa no último domingo.
A
Europa que conhecíamos até ontem era a Europa virtuosa, construída
politicamente com o objetivo de evitar uma terceira guerra europeia, integrando
a Alemanha, sempre imprevisível, num espaço politico mais amplo. Assim se
esperava consolidar as democracias europeias por via de formas intensas de
cooperação e transformar a Europa num continente de promoção da paz num mundo
ameaçado pela guerra fria (e por vezes quente) promovida pelos dois
imperialismos, o norte- americano e soviético. Já sabíamos, por experiência
dolorosa própria, que este projeto tinha colapsado. No domingo passado pudemos
visitar as ruínas. Tiramos delas três lições
enquanto as contemplamos, talvez menos calmos do que parecemos.
[1ª] O que
vivemos foi em grande medida desolador, como é próprio das ruínas, sobretudo
enquanto fumegam. O brilho dos vernizes ainda é visível nas mobílias destroçadas
onde o fogo ainda não chegou. A história europeia sabe que um partido de
extrema-direita pode ser eleito democraticamente para destruir a democracia.
Começou
assim a ascensão do nazismo. Nas eleições
europeias, a extrema-direita e os ultraconservadores ganharam em França,
Reino Unido, Dinamarca e ficaram em segundo na Hungria, Letônia e, em terceiro,
na Áustria e na Grécia. Obviamente que estes partidos não teriam os mesmos
resultados se as eleições fossem para os parlamentos
dos diferentes países. E, por isso, não há, por agora, o perigo da nazificação dos
países europeus. Mas há certamente o perigo da nazificação da
ideia de Europa. E não pode deixar de ser salientado que o nazismo é uma
herança cruel
da Alemanha do século XX e que, se é verdade que a Alemanha federal soube ao
longo dos anos controlar a pulsão nazi no seu país, deixou-a à solta no
resto da Europa. Imagine-se o que se diria hoje de Portugal se os fascistas
europeus pintassem a cruz de Cristo pelos cemitérios judaicos de toda a
Europa. Em face da sua história, o modo com a Alemanha lidou com a crise
europeia foi criminosa, já que ninguém como ela podia ter travado a pulsão
nazi na Europa. Não o fez, e até parece lidar bem com os nazis, desde que
não sejam alemães.
[2ª] A
segunda lição das eleições
europeias é mais animadora e está nos antípodas da primeira. A contestação
desta Europa não vem apenas da direita, vem também da esquerda e tem vários
matizes. Syriza na Grécia, Movimento 5 Stelle na Itália, Podemos em Espanha e
Coligação Democrática Unitária (CDU) em Portugal. Nestas
vitórias vibram as ideias de solidariedade, de coesão social, de
democraticidade, de respeito pela soberania dos países que presidiram ao
nascimento da Europa e que os diferentes países europeus adotaram como sua no pós-guerra
(Portugal, Grécia e Espanha, logo que conquistaram a democracia). Ora, estas
ideias começaram a ser contestadas no interior das
instituições europeias antes de o serem no interior
de cada país (com a exceção de Thatcher em
Inglaterra) e foram exercendo uma pressão dessolidária, autoritária, hostil
ao modelo social europeu sobre cada um dos países, em especial os mais
vulneráveis. Primeiro, usaram o caminho da institucionalidade (euro, tratados
de Maastricht, de Lisboa e de livre comércio com a China); depois, o da
extra-institucionalidade (causada diretamente pela institucionalidade
anterior): a crise. Esta mistificação
perversa de salvar a Europa (rica) à custa dos países europeus (pobres) acaba
de ser denunciada por estes partidos e é neles que reside a esperança. Por
que é que o BE
[Bloco de Esquerda]1, que pertence à família geral dos partidos da esperança,
está fora dela? Pessoas notáveis num partido medíocre.
[3ª] A
terceira lição é que os grandes derrotados desta
eleição
são os partidos que mais contribuíram para a construção da
Europa como a conhecemos, os partidos de centro esquerda e de centro direita,
que continuam a pensar que, com mais ou menos remendos, esta Europa
sobreviverá. Como se compreende que o partido que proclamou ser a alternativa
à coligação partidária que presidiu ao maior
desastre social em Portugal nos últimos 90 anos fique apenas a uns míseros
quatro pontos acima dessa coligação? A
ilação é
simples: para o PS [Partido Socialista]2 ser a alternativa tem de se reconstruir em alternativa a si
mesmo.
* Boaventura de Sousa Santos, doutor em sociologia do direito pela Universidade de Yale (Estados Unidos), é Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal) e Distinguished Legal Scholar da Faculdade de Direito da Universidade de Wisconsin-Madison (Estados Unidos) e Global Legal Scholar da Universidade de Warwick (Reino Unido). É igualmente Director do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra; Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa.
Dirige actualmente o projecto de investigação ALICE - Espelhos estranhos, lições imprevistas: definindo para a Europa um novo modo de partilhar as experiências o mundo, um projeto financiado pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC), um dos mais prestigiados e competitivos financiamentos internacionais para a investigação científica de excelência em espaço europeu.
NOTAS:
1. Bloco de Esquerda: Fundado em 1998 depois da fusão entre o Partido Socialista Revolucionário (PSR) (trotskista), União Democrática Popular (UDP) (marxista-leninista), o Política XXI (PXXI) (marxista-leninista) e a Frente de Esquerda Revolucionária (Ruptura/FER) (trotskista), o Bloco de Esquerda assumiu-se como um movimento de ruptura dentro do panorama político português. Abordando questões fraturantes, como os direitos dos homossexuais ou a despenalização das drogas leves, o partido cresceu, sobretudo nos meios urbanos. Nos últimos anos, perdeu uma parte do verbalismo que o caracterizava e aproximou-se mais do perfil dos partidos tradicionais. Apesar de não se assumir como líder, Francisco Louçã é a figura mais destacada do partido. O Bloco de Esquerda conta atualmente com oito deputados na Assembleia da República (Fonte: clique aqui].
2. Partido Socialista: Fundado em 1973, à semelhança do Partido Social Democrata, é um partido de tradição social-democrata em Portugal. Há várias posições diferentes sobre as políticas do PS, que defende medidas de índole social-democrata mas que, tal como o PSD, sofreu uma viragem à direita nos anos seguintes à Revolução dos Cravos. O seu líder histórico é Mário Soares. Em 2011 passou a ter 74 deputados na Assembleia da República (Fonte: clique aqui].
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